11 anos sem Caio

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O Jornal do Brasil me ensinou muito, mais do que a escrever, conviver e respirar valores, fazer amigos e, aprender da vida e do jornalismo num ambiente de respeito e carinho, tão raros em muitas das redações por onde passei, nas quais, na maioria das vezes, o respeito e o carinho são restritos a poucas, pouquíssimas pessoas.

Mestre Zuenir Ventura era uma das pessoas carinhosas, dentre milhares de outras que emprestaram ao longo da vida, o talento para que o jornal da condessa Pereira Carneiro chegasse às bancas e aos lares com o frescor das idéias. Ele tinha particular atenção ao caderno de Idéias. E foi nesse espaço sacro para Zuenir, quando Cláudio Figueiredo o editava, onde dividi espaço com resenhas com o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu. O desafio maior, porém, foi o de relatar a sua morte e anunciar o lançamento de livros póstumos em duas enormes páginas do Idéias, que circularam no dia 31 de setembro de 1996, quando, quatro meses após a morte de Caio Fernando Abreu, o editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, lançara “Estranhos estrangeiros” ( o último livro) e relançara, com inclusão de um novo conto, “As pedras de Calcutá”.

O resultado, em forma de homenagem ao colega de trabalho é o que se segue e com o qual também homenageio Mestre Zuenir Ventura, que sempre paciente corrigiu o texto que fiz jorrar de um antigo computador, daquelas monocromáticos, de letrinhas verdes, que dóiam a vista.


CARLOS FRANCO

“O escritor gaúcho Caio Fernando Abreu lutou até o último segundo contra a Aids, que o abateu às 13h10 do dia 25 de fevereiro de 1996, um domingo, aos 48 anos. “Quero ir para casa. Pai, me leva para casa”, foi a sua última frase e seu último pedido. Também a que melhor sintetiza a busca desesperada de Caio por Caio, presente no livro póstumo Estranhos estrangeiros, que a Companhia das Letras acaba de editar, republicando na obra a novela Pela noite, que integrava originalmente o livro O triângulo das águas (Nova Fronteira, 1983; Siciliano, 1991).

A inclusão desta novela, esclarece o editor Luiz Schwarcz em seu prefácio, atende ao pedido feito por Caio em um dos últimos postais que enviou da praia da Rosa, em Santa Catarina, onde se refugiou, em janeiro, para concluir Estranhos estrangeiros. O conto “London, London”, presente no livro Pedras de Calcutá (Alfa-Omega, 1977) também está de volta neste livro póstumo.

Caio não esconde na última obra o desespero de viver e as influências. Clarice Lispector, a quem o escritor recorreu às cartas e à obra para revelar que tinha Aids e manter-se firme, emerge nas imagens dos contos e na fusão de palavras por hífen como não-dor. Assim como Caio, a morte anunciada de Clarice, por câncer, conduziu-a à uma busca pela vida, pelas imagens e também pela procura do Eu.

“Desvio o rosto, não devo me deter tempo demais em meus próprios olhos. Aumento o som da canção, olho para fora quando o trem dispara sobre os trilhos. Preciso ficar sempre atento. Ainda não anoiteceu, e alguns dizem que há castelos pelo caminho”, se convida na novela Bem longe de Marienbad, inédita no Brasil, mas publicada na França, e que Caio incluiu neste último livro.Nesta novela, o balanço da vida se faz presente a começar pelas referências que sempre acompanharam o trabalho de Caio. Neste caso, o filme de Alain Resnais, O ano passado em Marienbad, em que o verdadeiro e falso, a ilusão e a realidade se confundem.

A Marienbad de Resnais é similar a de Caio, o olhar que se vê permite acreditar nos castelos dos paraísos, mesmo que de cartolinas que se dispersam com o vento.Mas Caio se recusa a dispersar. Sua busca nesta novela é intensa. Um homem procura outro, na verdade ele mesmo. Percorrendo ruas e cheiros, se deleitando com os prazeres simples e os gostos.

Como os elefantes que voltam às origens para morrer, Caio volta para ser um estranho estrangeiro de si mesmo.Mas a sua angústia não é mórbida como a do crítico de cinema Jean Claude Bernadet, que no livro A doença, também da Companhia das Letras, disseca a dor do corpo diante da Aids. Caio disseca a dor da perda anunciada da vida e vive, transpira e procura. Bernadet assume a morte, Caio luta para assumir a vida.O “Sopro de vida” de Caio, é similar ao de Clarice, que elegeu o autor _ seu consciente _ e Ângela Praline _ seu inconsciente _ para travar a batalha final entre vida e morte.

Caio elege a si mesmo, suas referências e o arcabouço intelectual, o que aprendeu durante 48 anos, na ânsia de repassar para os outros os monstros e as imagens que ainda jorravam em suas veias, imunes ao vírus da Aids.E Caio gostava de dizer para quem estivesse por perto que era um retrato vivo de todos os clichês do nosso tempo. “Sou uma pessoa clichê. Nos anos 50, andei de motocicleta e dancei rock. Nos anos 60, fui preso como comunista. Depois, virei hippie e experimentei todas as drogas. Passei por uma fase punk e outra dance. Não há nenhuma experiência clichê de minha geração que eu não tenha vivivo. O HIV é simplesmente a face da minha morte”.

 

 

A face da morte, também para Caio, não é indolor, mas pode ser exercício de vida. Tanto que é em Frida Kahlo, a artista plástica mexicana tantas vezes retalhada em mesas cirúrgicas para manter-se de pé, que este gaúcho vai buscar a imagem para abrir o último conto que escreveu. “Lo que importa es la no-ilusión. La mañana nace”.

Caio não tinha ilusões quanto à sua condição de paciente terminal, mas transformava suas manhãs em arte.”Fica agora assim por favor parada contra esta janela de vidro que a luz do entardecer está batendo nos seus cabelos e eu quero guardar para sempre na memória esta imagem de você assim tão linda”. Imagens. São as imagens e os sons o que prevalece em Caio. “A chuva é tão fina que nem chega a molhar, apenas gela. Tenho que ir em frente ao encontro de K, nesta ou em qualquer outra cidade do Norte ou do Sul, da Europa ou da América. Histórias como esta costumam acabar bem e, mesmo que não se viva feliz para sempre _ afinal, não se pode ter tudo _, deve haver pelo menos algum lugar quente e seco para abrigar o final da noite”.

O tempo de Caio não foi suficiente para encontrar K em sua plenitude, mas encontrou o abrigo quente e seco ao lado dos pais Zael e Nair, dos irmãos Luís Felipe, Cláudia, Márcia e José Cláudio. K como a Ângela de Clarice são as imagens que fluem e esvoaçam borboleteando, e as quais seus autores gostariam de ser lembrados, por isso perseguiram nesta busca diante do imediatismo do corte, da cisão, de-cisão entre a vida e a morte.

O testamento de Caio é isso. Expressa os clichês que vivenciou todos, e intensamente. Sua busca contínua por K e o gosto requintado pelos anjos travessos como Hilda Hilst, na casa de quem se refugiou por um tempo, também à procura de K. Ao encontro de um Caio por completo, metade homem, metade mulher, e de corpo inteiro, um gênero humano que fosse capaz de carregar todas as alegrias e as dores do mundo. Travessamente, suavemente a ponto de ser paixão.Do menino que com 6 anos começou a escrever e, aos 16 anos, publicou em revista de circulação nacional, Cláudia, o conto O príncipe sapo, ao livro Morangos mofados, de 1982, restou na obra póstuma de Caio exatamente o amor que os colecionadores de história têm pelas suas memórias. Um amor que transcende e faz com que o imcompleto Estranhos estrangeiros, que não chega a ser sua obra-prima, mas o esboço dela, seja aceito como um arremate deste testemunho de uma geração que queria ganhar o mundo e dividir seu conhecimento, suas experiências com o objetivo de quebrar as barreiras do preconceito e do medo. Do obscurantismo.Como o mago das cartas de Tarô, a alquimia a que recorre Caio em seu momento de adeus a K é travessa. Deixa transparecer que a sua busca não terminou e ainda há castelos lá fora, que outros irão de ver com seu olhar.

E para não deixar dúvidas a Companhia das Letras reedita com o lançamento de Estranhos estrangeiros, As pedras de Calcutá (1977), onde expõe o horror da perseguição, dos que se sentem perseguidos, mas deixam se antever a liberdade. O vôo das borboletas que quase estilhaçam as asas como as cartolinas que dão vida a Marienbad de Resnais e os castelos de Caio.”Preciso ficar sempre atento. Ainda não anoiteceu, e alguns dizem que há castelos pelo caminho”, despede-se Caio para seguir sua viagem, deixando sobre a mesa o roteiro do encontro com K. Na eternidade. Nas manhãs de que falava Frida Kahlo.

 

 

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