A dança da inclusão

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Texto Clara Mousinho

Foto Marcello Casal Jr./ABr

Brasília – O professor de educação física, João Carlos Corrêa, fundou há um ano e meio o projeto Perfume de Mulher, que ensina gratuitamente dança de salão para deficientes visuais. A iniciativa já beneficiou mais de 80 alunos e atualmente possui mais uma turma de 60. A aulas, desenvolvidas na capital federal, ajudam os cegos no desenvolvimento motor e psicológico.

O nome do projeto é um referência ao filme Perfume de Mulher, dirigido pelo diretor Martin Brest e protagonizado pelo ator Al Pacino, que vive um militar cego e busca antigos sonhos junto a um jovem amigo, em Nova York. Entre as realizações, a dança. Segundo Corrêa, a idéia do projeto surgiu quando outro professor iniciou um projeto para ensinar judô para deficientes visuais. A partir da experiência, ele ficou interessado em ensinar cegos dançarem.

“A primeira aula que eu dei foi uma aula que marcou minha vida. Eu tinha pedido para um amigo chamar dois cegos para eu fazer uma experiência, porque eu não sabia como começar uma aula e queria fazer um registro disso. Ele ouviu 12 e mandou 22. Foi aquela aula de pânico total”, explica.

Corrêa afirma que recebeu apoio dos alunos. “Eles me pediram calma e disseram que teriam paciência comigo. Na verdade, eu é que estava sendo incluído ali. E graças à paciência deles a gente está em um ambiente de aula super tranqüilo”. O Perfume de Mulher atende cegos de nascença ou não. De acordo com o professor, as aulas ajudam na mobilidade dos alunos que, às vezes, não estavam acostumados com os movimentos.

Maria Elizabete Feitosa, conhecida como Bete Estrela pelos colegas de dança,tem visão parcial. Ela afirma que o projeto mudou o ritmo de sua vida. “Eu tenho problema de coluna e a dança ajuda para eu não ficar com o corpo parado”. Por isso, a aluna de dança reclama da falta de apoio de outros segmentos da sociedade que ligam com os cegos. “Eu acho que a gente deveria ter mais apoio para crescer. As empresas deveriam apoiar iniciativas como essas, porque às vezes o deficiente visual fica esquecido”.

As aulas fazem tanto sucesso entre os alunos, que Corrêa teve que interromper as férias. “Queríamos parar as aulas para as férias, mas muito deles têm caso de depressão reincidente. Aí a família liga pra gente e pede para voltarmos com as aulas”. Wallace Paschoal perdeu a visão depois de sofrer um câncer na hipófise. Segundo ele, o projeto ajudou a superar a perda. “O Perfume de Mulher veio para me ajudar. Eu fiquei mais confiante na minha vida. O João abriu os braços pra gente e nós encaramos com garra e já fizemos várias apresentações”, comemora.

Segundo Bete Estrela, o projeto veio a calhar para pessoas deficientes visuais que às vezes ficam deprimidas em casa. “Com a música e a dança a gente espairece, se solta, conversa, brinca e se sociabiliza então é divertido. Antes de eu começar as aulas estava com muita depressão”. Corrêa disse que o projeto Perfume de Mulher conta com quatro salas de aula. Segundo o professor, existem vagas sobrando. “Eu já tenho três salas reservadas para o projeto, então se entrarem mais 20 alunos eu tenho mais 20 vagas e se entrarem mais 60 a gente abre um outro espaço”.

Corrêa conta com a ajuda de entidades ligadas aos direitos dos deficientes. As aulas são divulgadas principalmente por meio do Fórum de Apoio a Pessoa com Deficiência (Faped). Para saber mais sobre o projeto Perfume de mulher, o telefone é (61) 3345-2021.

 

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