A MERENDA ESCOLAR PAULISTA E O CAVIAR LIFESTYLE. “CAVIAR LIFESTYLE”?

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O governo do Estado de São Paulo, alvo de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembléia Legislativa que apura o sumiço e o superfaturamento da merenda escolar na rede pública, surgiu na última semana no noticiário – a Folha de S. Paulo deu destaque ao fato que tornou-se ingrediente da campanha eleitoral paulistana- com um investimento no mínimo curioso e inusitado: a destinação de R$ 501 mil para um publieditorial (matéria paga) de nove páginas na revista Caviar Lifestyle. Não. Você não leu errado. “Caviar Lifestyle” é uma das publicações da Doria Editora, do candidato à prefeitura de São Paulo pelo PSDB João Dória Jr e o governador que autorizou o investimento de R$ 1,5 milhão em publicidade na Doria Editora, dos quais R$ 501 mil na Caviar Lifestyle, é Geraldo Alckmin, patrocinador da candidatura do empresário, que acabou por dividir o PSDB paulista como evidencia texto divulgado esta semana por Alberto Goldman, vice-presidente nacional do partido tucano.

A verba publicitária foi repassada legalmente à Doria Editora pelas agências Mood e Propeg, que atendem ao governo do Estado de São Paulo. Afinal, anuncia-se onde se deseja e a revista, ainda que insólita quanto o anunciante, de fato existe. Pelo inusitado, porém, os R$ 501 mil destinados à Caviar Lifestyle (isso mesmo: Caviar Lifestyle) é algo não muito palatável ainda que a publicação proclame ter 40 mil exemplares. Só que detalhe: Caviar Lifestyle não é auditada pelo Instituto de Verificação de Circulação (IVC).

Para entender o que faz o governo do Estado de São Paulo nas páginas dessa publicação, talvez seja preciso entrar  em águas doces e turvas para encontrar resposta. Vamos do começo. O que é o caviar?. Trata-se das ovas do esturjão, um peixe tão antigo quanto Matusalém, o avô do bíblico Noé e que teria cerca de 1 milhão de séculos. De tão feio e desprezado, o esturjão acabou por ser comida de pobres homens em vários partes do mundo, mais seu quase desparecimento tem a ver com o fato de suas ovas terem se tornado mimos em mesas de czares, reis, rainhas e bilionários. Essas ovas na realidade não alimentam, são apenas uma entrada ou acompanhamento, espécie de tira gosto, para os degustadores de vodka, com a qual devem ser apreciadas frescas e também bem geladas. Restrito hoje ao Cáucaso e o Turquestão, além de escassas regiões chinesas nos estuários dos rios Mekong e Yang-Tsé, o esturjão, ou melhor,suas ovas, chegam a custar mais de US$ 1 mil o quilo. Sem dúvida, assunto dos mais relevantes aos paulistas, sobretudo aos alunos da rede estadual de ensino onde falta o pão.

Para os que por curiosidade, por mais insólito que seja o tema, queiram conhecer mais sobre o caviar, segue o link da edição de número 15, da revista Superinteressante de dezembro de 1988, em que o jornalista Silvio Lancellotti, um dos mais respeitados do Brasil em matéria de gastronomia dá uma verdadeira aula sobre este peixe da classe dos Osteichtytes, aqueles de esqueleto – osteocartilaginoso, que predominam nas águas doces do hemisfério setentrional e cujas ovas são o tema dessa revista dirigida aos devoradores de ovas.

Afinal,existe gosto e mau gosto para tudo e para todos nas tênues linhas que hoje separam o público do privado, como o terreno público em Campos do Jordão, que João Dória Jr. (que conquistou na Justiça o direito de não mais ser tratado como João Dólar Jr.) decidiu acoplar à sua propriedade privada e o fez por longo período, enfrentando as barras dos tribunais na certeza de impunidade até que chegaram as eleições deste ano. Veja aqui reportagem veiculada pelo jornal Valor que evidencia como o público e o privado se misturam na vida do empresário que, como o norte-americano Donald Trump, tem no currículo o fato de ter sido apresentador do Aprendiz.

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