BRASÍLIA, 55 ANOS HOJE

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A cidade que nasceu da coragem e determinação do presidente Juscelino Kubitschek e do traçado de Lúcio Costa e a arquitetura de Oscar Niemeyer completa hoje 55 anos. É fruto das transformações pelas quais passou o Brasil nesse período, inclusive a longa noite da ditadura militar, de 1964 a 1985, período negro da nossa história. Mas Brasília resistiu e no Planalto Central é a capital que irradia beleza, modernidade e um nascer e pôr do sol únicos no mundo. Do cerrado fez se a obra e a obra é de todos os brasileiros. No documentário, curto, singelo da comemoração dos 50 anos, há o resgate dessa trajetória, enquanto a reportagem a seguir mostra um pouco das contradições da hoje moderna cidade de Brasília, Distrito Federal, capital do Brasil e dos brasileiros.


POR ANA CRISTINA CAMPOS E MICHELLE CANES, DA AGÊNCIA BRASIL

A capital futurista com avenidas largas e arquitetura moderna completa 55 anos. Conhecida como um dos marcos do urbanismo no século 20, Brasília se transformou nesse pouco mais de meio século de vida, mas ainda chama a atenção pelos prédios públicos, projetados por Oscar Niemeyer, e pelos grandes espaços verdes. A Agência Brasil procurou ouvir arquitetos, urbanistas, especialistas em patrimônio e pensadores da cidade para saber que desafios se impõem a essa cidade que é Patrimônio Cultural da Humanidade. Para muitos entrevistados, Brasília é uma cidade viva, ainda em construção.

“Brasília é a cidade-símbolo da nossa capacidade criativa. É a maior realização do povo brasileiro. Brasília é muito ligada à ideia de poder, de centro das decisões. Mas existem pessoas aqui, do meio cultural e artístico, que querem dissociar essa Brasília da ideia de poder. Mostrar que é uma cidade que tem vida, arte, poesia, literatura. Não é só a Praça dos Três Poderes”, destaca o poeta cuiabano Nicolas Behr, radicado em Brasília desde 1974 e autor de cinco livros sobre a capital federal.

A cidade que nasceu da ousadia de Juscelino Kubitschek e do trabalho de milhares de candangos (operários vindos de todas as partes do país) cresceu e hoje tem pela frente desafios inerentes aos grandes centros urbanos. O crescimento desordenado, o transporte público ineficiente e os congestionamentos devido ao grande número de carros são alguns desses problemas.

Em 1957, no edital do concurso para a construção da capital, previa-se que o Plano Piloto (região central da cidade) deveria abrigar até 500 mil habitantes. Atualmente, o Distrito Federal é composto por 31 regiões administrativas com cerca de 2,8 milhões de habitantes. “Hoje, Brasília é a quarta metrópole brasileira. Em 55 anos, Brasília saiu do zero para quase 3 milhões de habitantes em todo o Distrito Federal. Esta é a Brasília toda. É todo o Distrito Federal”, disse Carlos Madson, superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Distrito Federal.

Nicolas Behr vê a área como uma grande Brasília e as regiões administrativas como superbairros. “Defino o Plano Piloto como o centro histórico.”

Há 30 anos na capital, a jornalista amazonense Conceição Freitas, titular da coluna Crônica da Cidade, no jornal Correio Braziliense, vai além e acredita que o 1,1 milhão de pessoas que moram no Entorno do Distrito Federal, composto pelos municípios de Goiás, também podem ser consideradas brasilienses. “Elas também fazem parte da área metropolitana de Brasília, porque vieram para cá por esse desejo de participar dessa prosperidade”, destaca.
Para ela, o mais importante hoje é garantir qualidade de vida a todos. “Precisa democratizar a qualidade de vida, que não é só o Plano Piloto, os lagos [Sul e Norte]. Brasilienses somos todos nós.”

Para o poeta Nicolas Behr, os criadores de Brasília não imaginaram que a cidade ia virar a metrópole que é hoje. “Virou um polo de desenvolvimento e atração. Mas a falta de um transporte público digno é uma coisa a se pensar porque está comprometendo a qualidade de vida, a mobilidade urbana. É uma situação que o brasiliense tem que enfrentar e não enfrenta. A solução deve ser coletiva. A cidade foi criada para o carro e não para o pedestre”, constata Behr.

“Sem mobilidade urbana, sem modos de ir e vir democráticos, acessíveis, rápidos, você inviabiliza qualquer cidade”, completa Conceição.

A área cultural também merece atenção. “É uma cidade que tem uma efervescência cultural fortíssima, mas não tem base para a criação”, diz o jornalista e poeta TT Catalão que chegou à cidade em 1972. Catalão é um dos criadores do Espaço Cultural 508 sul, conhecido como Espaço Cultural Renato Russo. “Está fechado, inclusive. A ideia de quando se criou o espaço era ter um em cada cidade. Teria uma espécie de centro cultural, um espaço de convivência, que oferece equipamentos para que as pessoas façam exposições ou oficinas. Isso é paupérrimo em Brasília, muito pobre”.

Catalão acredita que a população vem criando meios para se expressar e produzir cultura. Ele ressalta também a desigualdade na distribuição de equipamentos e materiais para a produção e exibição cinematográfica na cidade, por exemplo. “Não há equipamento cultural distribuído na cidade com justiça. É uma coisa concentrada no Plano Piloto.”

E os desafios não param por aí. A cidade planejada precisa buscar um equilíbrio entre o crescimento e a preservação, acreditam especialistas. Brasília foi reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade, em 1987, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). No mesmo ano, a cidade foi tombada pelo Distrito Federal e, em 1990, pelo órgão federal de preservação, o Iphan.

O historiador da superintendência do Iphan no DF Thiago Perpétuo conta que Brasília tem um tombamento específico que visa à manutenção de características fundamentais da cidade. Ele lembra que a capital federal é a primeira cidade modernista tombada e listada como patrimônio da humanidade. “A intenção [do tombamento]é você manter as características que distinguem esses objetos, mesmo que sejam objetos ultra complexos como cidades, manter essas características perenes, de maneira que elas possam ser fruídas por gerações vindouras.”

Hoje, a área tombada pelo governo vai além do Plano Piloto e passa também por regiões como a Candangolândia e o Cruzeiro. Mas o historiador destaca a existência de desrespeitos ao tombamento. “Um dos exemplos que talvez seja mais marcante é a insistência de alguns condomínios, blocos, de fazer ocupação irregular dos pilotis. Esse trânsito livre sob os edifícios é uma característica que distingue Brasília de todas as outras cidades do mundo”, destaca.

Os chamados “puxadinhos” nas áreas comerciais – invasão de áreas públicas feita por comerciantes locais – também chamam a atenção. “As pessoas invadem mais do que elas podem, elas descaracterizam as edificações. Então é uma luta constante para sensibilizar os proprietários para que eles se enquadrem na norma de maneira que este bem, que é um bem de todos, seja preservado.”

O superintendente do Iphan no DF, Carlos Madson, lembra que Brasília tem problemas característicos dos grandes centros urbanos e que a preservação tem que estar associada também à qualidade de vida da população. “Nossa preocupação em preservar Brasília não é só estética. É uma questão de qualidade urbana. É o que apregoa o Estatuto das Cidades. O espaço urbano tem que cumprir uma função social. Prestar serviços adequados aos seus moradores, segurança e outras séries de questões que temos que tratar. O patrimônio é um dos aspectos a se cuidar”, destaca.

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