DO OUTRO LADO DO MURO, TURISMO E ATIVISMO NA PALESTINA

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Texto e Fotos de Hélio Rocha, Especial para Plurale

De Ramallah, Palestina

Um fenômeno turístico e comercial vem sendo observado no Oriente Médio e já começa a reunir empresários, profissionais e agentes de turismo. Ao ano, milhares de europeus e norte-americanos, principalmente, mas também cidadãos africanos e de países do extremo Oriente, como Japão e Coreia do Sul, reúnem-se na Palestina para conhecer o local e seus sítios arqueológicos, e igualmente para prestar solidariedade a um povo atingido por problemas sociais e desordem política. Estive em abril em Ramallah, capital do Estado Palestino, para conhecer esta rede de iniciativas públicas e privadas voltadas para receber o público que visita a Cisjordânia num misto de viagem de férias e ativismo, em busca de história e cultura, sim, mas com os olhos voltados para a política e a preocupação social.

A Palestina é um estado reconhecido por grande parte dos países, inclusive o Brasil e os principais centros da Europa ocidental. Por outro lado, países poderosos como os Estados Unidos não dão suporte à sua luta por independência. Isto porque os territórios palestinos são reivindicados por Israel, que mantém controle sobre toda a área com barricadas militares e pontos de controle do Exército Israelense. O clima de tensão entre as duas nações reverbera pelo mundo, mas apenas a experiência de estar na Palestina e viver as dificuldades da população local pode transmitir aos ocidentais como é a vida nos países árabes. Há uma década o local vem se tornando um atrativo para o chamado “turismo social”. Hoje, 15% do Produto Interno Bruto (PIB) palestino vem do turismo e o Governo planeja fazer este montante crescer para 25% em dez anos.

A aposta é, agora, em viabilizar estrutura para receber este já registrado potencial turístico que mistura engajamento social com a curiosidade pela cultura e pela história do Oriente Médio. Entre as iniciativas da Autoridade Nacional Palestina (ANP) está a realização de um amplo circuito de eventos culturais na capital do país, Ramallah, contando com a parceria da iniciativa privada para a criação de uma rede de hotéis e transporte. Hoje, o principal abrigo para quem vai à Palestina é o hostel Area D, bem avaliado em todos os sites de reservas e o único em Ramallah. O Area D, além de manter os visitantes informados sobre tudo que acontece na capital, realiza viagens por toda a Palestina, tendo em seus destinos sempre o foco no interesse social. Por isso, o viajante, hospedado neste albergue, tem a oportunidade de conhecer locais importantes para a vida palestina, como Hebrom, Nablus, Qalandyia ou Al-Amari. Cada um à sua maneira, os principais destinos da Palestina misturam questões sociais aos três mil anos de história e cultura da região, a poucos quilômetros da movimentada Jerusalém.

Segundo o proprietário do albergue, que não pode se identificar para não sofrer represálias das autoridades israelenses, que controlam o acesso à Palestina, a ideia de estabelecer um hostel vai ao encontro do perfil dos viajantes: em sua maioria jovens europeus, estudantes, jornalistas independentes e ativistas. “Uma iniciativa desta, que abriga os visitantes para período curto e promove viagens de baixo custo, porém realizadas com profissionalismo, é tudo que esta região precisa para que sua economia cresça com o turismo”, afirma. O dono do Area D explica que, apesar de ser europeu, emprega trabalhadores nascidos no país para todas as funções. Desde o atendimento e a limpeza do albergue, até os guias turísticos. “Faço questão de que todos eles ajam com respeito para com os visitantes, expondo a história, cultura e a realidade da região, mas sem permear os passeios de assuntos ideológicos. O turista deve pensar e tirar suas conclusões. Nosso trabalho é mostrar e informar.”

Campos de refugiados: a história que não é contada

O destino “número um” para quem procura conhecer a realidade Palestina são os “campos de refugiados”, locais semelhantes às favelas brasileiras, onde vivem os palestinos cujas famílias, segundo os moradores locais, foram expropriadas durante a chegada dos judeus sionistas em 1948, após a criação do Estado de Israel. Sem ter onde morar, os cidadãos que perderam suas casas se reuniram em redutos protegidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), que até hoje ajuda ANP a controlar e manter a estabilidade social destes lugares. Os dois mais facilmente visitáveis são Qalandyia, que fica ao lado do muro da Cisjordânia, mantido por Israel desde 2002, e Al-Amari, nas imediações de Ramallah.

Nos dois, o viajante pode se deparar com realidades distintas. A alegria das crianças, a força das mulheres que criam seus filhos e cuidam de suas casas em meio à toda dificuldade e cerceamento à liberdade por Israel, a energia dos trabalhadores, são confrontadas com o perigo vindo da própria população palestina: vez por outra, encontra-se bandeiras de movimentos islâmicos radicais, como o Hamas ou a Jihad Islâmica. “O cuidado social é o mais importante. Com medidas que permitam aos palestinos trabalharem honestamente, ter condições mínimas de subsistência e perspectivas para o futuro, além da garantia da liberdade, reduz-se o poder de ação desses movimentos”, comenta o guia turístico Ehab Iwidat. A situação de pobreza ao lado do muro da Cisjorndânia sensibilizou a grafiteira basca Pitiki X (nome artístico) a pichar sua mensagem de solidariedade no muro: “Basque solidarity towards Palestine – Solidariedade basca para a Palestina”. “É inacreditável ainda haver aqui a divisão que tivemos na Espanha, décadas atrás”, critica Pitiki X.

A segurança mantida pelas forças israelenses, que restringem a liberdade dos cidadãos locais, existe principalmente por causa dos assentamentos mantidos por Israel dentro do território palestino. A estratégia, implementada pelos Governos conservadores recentes, consiste em ocupar o estado Palestino com população judia sionista, a fim de aos poucos conquistar a região. Aos olhos da própria ONU, que emite boletins mensais sobre a situação da ocupação da Palestina por Israel, tal movimento é uma forma moderna de colonialismo.

Cidade onde jaz Abraão é um dos símbolos do conflito

Quando o visitante vai a Nablus ou Hebrom, duas cidades do interior, isto se mostra mais latente. Uma viagem de quarenta minutos pode levar duas horas, visto que a cada vinte ou trinta quilômetros há um ponto de controle do Exército Israelense, onde todos devem se identificar. Às margens das estradas, em muitos momentos, vê-se vilarejos árabes e assentamentos judeus. A sensação é de que ambos os lados são prisioneiros do extremismo religioso e ideológico. “Eu me lembro de quando nós, europeus, vivíamos esta prisão alimentada pelo nacionalismo e pelo autoritarismo. Hoje, temos uma comunidade em que somos livres para transitar entre os países. Isto me dá esperança”, depôs o agricultor irlandês Peter Byrne, que, já idoso e católico praticante, estava na região para conhecer os locais sagrados das jornadas do profeta Abraão.

Nablus, uma das cidades mais antigas da região e centro cultural importantíssimo do antigo Império Otomano, passa ao largo disso tudo e recompensa os turistas com a imensurável bagagem cultural do velho mercado, das fábricas de sabões artesanais, da culinária regada a açafrão e leite de ovelha. Hebrom, entretanto, é um centro disputado por judeus e muçulmanos. Isto porque a cidade abriga a caverna onde supostamente estariam enterrados o profeta Abraão e sua família. Sobre este local, ainda na Idade Média, o famoso general Saladino ergueu uma mesquita, visto que o velho patriarca é o avô de Ismael, do qual descendem os árabes. Hoje, os judeus reivindicam o espaço para estabelecer uma sinagoga, argumentando que Abraão é sagrado na cultura hebraica, que descende de Isac, irmão de Ismael. Por isso, hoje o edifício histórico está sob controle de Israel, que mantém guaritas militares ao seu redor. Metade dele é mesquita, onde rezam os árabes, metade é sinagoga, onde os israelenses vão, escoltados pelo exército, fazer suas orações. Por este motivo, Hebrom é hoje um dos símbolos da divisão e do conflito na região.

“Todos querem paz. A maior parte dos cidadãos comuns não endossa qualquer forma de conflito. Nisso incluo muçulmanos, como eu, e também os judeus. Mas como solucionar o problema se há uma política de Estado, hoje, voltada para a ocupação das áreas palestinas?”, questiona o guia Mohammad Abumazen. Já um judeu que mantém uma barraca de folhetos ideológicos sionistas, logo à frente da sinagoga, que preferiu não se identificar, contrapõe. “A situação está assim, hoje, porque no passado, quando não havia todo este esquema de segurança, houve atentados aqui”. Exemplo deste depoimento são as inúmeras ruas de Hebrom que estão fechadas pelas Forças Armadas de Israel, visto que nelas, durante os levantes palestinos conhecidos como a primeira e a segunda Intifada, ocorreram ataques terroristas a cidadãos israelenses.

Em Ramallah, cultura e paz no Oriente Médio

Apesar dos problemas, a bagagem cultural de Nablus e Hebrom, cuja visita a uma mesquita construída por Saladino traduz uma riqueza que abrange mercados antigos, comércio de especiarias, teatros romanos e igrejas das primeiras décadas do cristianismo, recompensa quem se arrisca a chegar lá. Ramallah, por outro lado, contraria o senso comum sobre o que é o Oriente Médio. Cosmopolita, não para em momento algum. Durante o dia, feiras a céu aberto. À noite, cafés e bares onde é possível beber e apreciar o narguilé.

Além disso, a cidade tem uma estrutura mantida pela ANP para receber eventos de repercussão internacional, como o Festival Palestino de Dança Contemporânea, que foi realizado em abril no Palácio da Cultura. Numa das principais atrações do festival, artistas estonianos e palestinos fizeram uma performance mesclando cinema e dança, com depoimentos em vídeo de pessoas que viveram a ocupação estoniana pela Rússia, assim como a palestina por Israel. Os vídeos eram seguidos de música e dança, alternando depoimentos e performance por quase uma hora. “Dois diferentes momentos da história, dois povos diferentes, um mesmo sofrimento e uma mesma força para lutar”, sintetizou a organizadora da atração, a estoniana Barbara Lethna. “Um dia para lembrar que esta história se repete muitas vezes, com o passar do tempo, e não nos damos conta porque acontece longe de nós”, disse a visitante italiana Irene Vlad.

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