HITLER, FHC E W: DA TRAGÉDIA À FARSA

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Karl Marx escreveu uma frase no Dezoito Brumário, obra de 1852, afirmando que “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Uma frase que a atualidade de dois comerciais assinados pela letra mágica “W”, de Washington Olivetto, tornam evidente. O primeiro deles, o da tragédia, era assinado pela histórica W/GGK, que depois se tornaria W/Brasil e hoje, após uma fusão, é a WMcCann. Veiculado em 1988, o filme “Hitler” ganhou inúmeros prêmios inclusive um leão de ouro de Cannes naquele ano e figura entre os 100 melhores comerciais de propaganda de todos os tempos em lista assinada por Bernice Kenner. Começa por apresentar um ponto preto na tela ao qual, na medida em que o texto brilhante de Nizan Guanaes avança, vai se somando a outros pontos rediculados até que surge o rosto de Hitler, lembrando que este homem, quando você ainda não o identifica, debelou a inflação, gostava de música clássica, amava o seu povo para, depois, pontuar que “é possível contar um monte de mentiras só dizendo a verdade. Por isso, é preciso tomar muito cuidado com a informação e o jornal que você recebe”. A assinatura marcou época para o anunciante: “Folha de S.Paulo, o jornal que mais se compra e o que nunca se vende”.

POR CARLOS FRANCO

Agora, como farsa, seguindo a dialética marxista, a W, desta vez WMCann, assina campanha para a Companhia das Letras para o lançamento no próximo dia 30 do primeiro dos 4 volumes da obra Diários da Presidência, de Fernando Henrique Cardoso, o FHC. A coletânea traz os registros feitos num gravador pelo ex-presidente, quase semanalmente, sobre o dia a dia do poder durante os seus mandatos. Para anunciar a novidade, a WMcCann lançou campanha impressa que será veiculada nos principais jornais do país. São duas peças que enfatizam a mensagem principal da obra, “um livro que só toma o partido da História”. Em um dos anúncios, a mensagem: O poder é solitário. Mas é acompanhado de muitas histórias. A outra peça, em referência aos 4 volumes, revela: 8 anos de História que, até hoje, apenas um gravador tinha ouvido.

O primeiro volume da obra cobre o período de 1995 a 1996 e compreende quase noventa horas de gravação, que renderam mais de novecentas páginas. E é aí que começa a se desenhar a farsa, pois nessas gravações FHC exerce a sua maior virtude: a exacerbada vaidade. Certamente não entrará no terreno pantanoso das privatizações, na verdade doação de patrimônio público que é o tema do livro “A privataria tucana”, de Amaury Ribeiro Jr., que denuncia o maior escândalo de corrupção do país sem contestação nos tribunais pelo vaidoso FHC, talvez para evitar que as frestas abertas pelo jornalista se abrissem ainda mais, expondo outras fragilidades por trás dos documentos apresentados por Amaury Ribeiro Jr., entre as quais o Proer, o socorro aos bancos “amigos” da sua candidatura, a exemplo do Bamerindus, do Nacional e do baiano Econômico; a compra de votos para garantir no Congresso Nacional o estatuto da reeleição, que o PSDB hoje é contrário, temendo não voltar ao Planalto justamente pelo legado negativo da era FHC, os seus oito anos de governo. Quem conhece FHC, como é o meu caso, por ter coberto sua campanha vitoriosa à Presidência da República em 1994 e seus dois primeiros anos de governo para o jornal O Estado de S. Paulo sabe bem o quanto ele nunca demonstrou, em ações, mas apenas em discursos vazios, preocupação social com o Brasil e os brasileiros, refém que sempre foi da sua exacerbada vaidade e da manutenção de uma base aliada no Congresso Nacional representada pelo então PFL do “coronel” baiano Antonio Carlos Magalhães, também conhecido como “Toninho Malvadeza”. FHC se apequenou no poder desejando ser um gigante. O partido que lidera é hoje um partido de oposição ao Brasil e aos brasileiros, reúne e se alia ao que há de pior na política brasileira, o baixo clero. O homem que foi, como muitos outros e outras bravas mulheres, vítima de um golpe militar, agora lidera uma legenda que quer golpear a democracia, uma vez que, no voto, não consegue vencer e postula o quanto pior, melhor por não saber ser oposição, mas apenas poder.

Talvez para diluir este triste e trágico legado à história, FHC pretende mostrar com seus diários alguma grandeza, que, diga-se a favor da verdade, nunca teve. Ou melhor, apenas a imprensa marrom enxerga grandeza em sua triste e trágica insignificância histórica e irá estampar FHC nas suas capas, comprovando a total ausência de  vínculo com o jornalismo do qual as contradições são matéria prima, servindo-se apenas de espelho ao ego, o imenso ego de FHC refletido como um salvador da Pátria tal qual o Hitler do comercial também assinado pela letra mágica W.

A WMCcann que apresentou Hitler, portanto, agora nos apresenta FHC, de uma tragédia a uma farsa, a história se repete como prescreveu Marx. Sem bons redatores e revisores, os diários de FHC prometem ser enfadonhos, pois sobre o seu estilo de escrever João Ubaldo Ribeiro definiu de forma exemplar em um dos episódios mais emblemáticos da subserviência dos meios de comunicação a FHC, o #PodemosTirarSeAcharMelhor que a agência internacional Reuters exibiu tão bem este ano e que teve como cenário o jornal O Estado de S. Paulo em outubro de 1988, quando o veículo deixou de publicar no dia 28 daquele mês coluna do escritor João Ubaldo Ribeiro, que também era publicada, em parceria, no jornal O Globo. No dia seguinte e diante do embaraço criado pelo famoso #PodemosTirarSeAcharMelhor, que tem sido regra em relação a FHC, o então diretor de O Estado de S. Paulo, Ruy Mesquita, lamentou o episódio. Mesquita disse na ocasião não ter responsabilidade sobre o ato de censura do veículo que comandava e deu entrevistas a diversos veículos sobre o tema, inclusive aos especializados BlueBus, Imprensa e Comunique-se, respondendo aos questionamentos quanto à censura interna do veículo ao texto de João Ubaldo Ribeiro. Mesquita anunciou a continuidade do escritor como colunista e atribuiu a censura a funcionários não-autorizados por ele a tomar esse tipo de atitude. A coluna que os leitores de O Globo leram no dia 25 de outubro de 1988 e que os leitores de O Estado de S.Paulo foram privados por força do #PodemosTirarSeAcharMelhor naquele dia é essa, conforme consta dos arquivos de O Globo:

Senhor Presidente,

Antes de mais nada, quero tornar a parabenizá-lo pela sua vitória estrondosa nas urnas. Eu não gostei do resultado, como, aliás, não gosto do senhor, embora afirme isto com respeito. Explicito este meu respeito em dois motivos, por ordem de importância. O primeiro deles é que, como qualquer semelhante nosso, inclusive os milhões de miseráveis que o senhor volta a presidir, o senhor merece intrinsecamente o meu respeito. O segundo motivo é que o senhor incorpora uma instituição basilar de nosso sistema político, que é a Presidência da República, e eu devo respeito a essa instituição e jamais a insultaria, fosse o senhor ou qualquer outro seu ocupante legítimo. Talvez o senhor nem leia o que agora escrevo e, certamente, estará se lixando para um besta de um assim chamado intelectual, mero autor de uns pares de livros e de uns milhares de crônicas que jamais lhe causarão mossa. Mas eu quero dar meu recadinho.

Respeito também o senhor porque sei que meu respeito, ainda que talvez seja relutante privadamente, me é retribuído e não o faria abdicar de alguns compromissos com que, justiça seja feita, o senhor há mantido em sua vida pública – o mais importante dos quais é com a liberdade de expressão e opinião. O senhor, contudo, em quem antes votei, me traiu, assim como traiu muitos outros como eu. Ainda que obscuramente, sou do mesmo ramo profissional que o senhor, pois ensinei ciência política em universidades da Bahia e sei que o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico. Mas, como dizia antigo personagem de Jô Soares, eu acreditei.

O senhor entrou para a História não só como nosso presidente, como o primeiro a ser reeleito. Parabéns, outra vez, mas o senhor nos traiu. O senhor era admirado por gente como eu, em função de uma postura ética e política que o levou ao exílio e ao sofrimento em nome de causas em que acreditávamos, ou pelo menos nós pensávamos que o senhor acreditava, da mesma forma que hoje acha mais conveniente professar crença em Deus do que negá-la, como antes. Em determinados momentos de seu governo, o senhor chegou a fazer críticas, às vezes acirradas, a seu próprio governo, como se não fosse o senhor seu mandatário principal. O senhor, que já passou pelo ridículo de sentar-se na cadeira do prefeito de São Paulo, na convicção de que já estava eleito, hoje pensa que é um político competente e, possivelmente, tem Maquiavel na cabeceira da cama. O senhor não é uma coisa nem outra, o buraco é bem mais embaixo. Político competente é Antônio Carlos Magalhães, que manda no Brasil e, como já disse aqui, se ele fosse candidato, votaria nele e lhe continuaria a fazer oposição, mas pelo menos ele seria um presidente bem mais macho que o senhor.

Não gosto do senhor, mas não tenho ódio, é apenas uma divergência histórico-glandular. O senhor assumiu o governo em cima de um plano financeiro que o senhor sabe que não é seu, até porque lhe falta competência até para entendê-lo em sua inteireza e hoje, levado em grande parte por esse plano, nos governa novamente. Como já disse na semana passada, não lhe quero mal, desejo até grande sucesso para o senhor em sua próxima gestão, não, claro, por sua causa, mas por causa do povo brasileiro, pelo qual tenho tanto amor que agora mesmo, enquanto escrevo, estou chorando.

Eu ouso lembrar ao senhor, que tanto brilha, ao falar francês ou espanhol (inglês eu falo melhor, pode crer) em suas idas e vindas pelo mundo, à nossa custa, que o senhor é o presidente de um povo miserável, com umas das mais iníquas distribuições de renda do planeta. Ouso lembrar que um dos feitos mais memoráveis de seu governo, que ora se passa para que outro se inicie, foi o socorro, igualmente a nossa custa, a bancos ladrões, cujos responsáveis permanecem e permanecerão impunes. Ouso dizer que o senhor não fez nada que o engrandeça junto aos corações de muitos compatriotas, como eu. Ouso recordar que o senhor, numa demonstração inacreditável de insensibilidade, aconselhou a todos os brasileiros que fizessem check-ups médicos regulares. Ouso rememorar o senhor chamando os aposentados brasileiros de vagabundos. Claro, o senhor foi consagrado nas urnas pelo povo e não serei eu que terei a arrogância de dizer que estou certo e o povo está errado. Como já pedi na semana passada, Deus o assista, presidente. Paradoxal como pareça, eu torço pelo senhor, porque torço pelo povo de famintos, esfarrapados, humilhados, injustiçados e desgraçados, com o qual o senhor, em seu palácio, não convive, mas eu, que inclusive sou nordestino, conheço muito bem. E ouso recear que, depois de novamente empossado, o senhor minta outra vez e traga tantas ou mais desditas à classe média do que seu antecessor que hoje vive em Miami.

Já trocamos duas ou três palavras, quando nos vimos em solenidades da Academia Brasileira de Letras. Se o senhor, ao por acaso estar lá outra vez, dignar-se a me estender a mão, eu a apertarei deferentemente, pois não desacato o presidente de meu país. Mas não é necessário que o senhor passe por esse constrangimento, pois, do mesmo jeito que o senhor pode fingir que não me vê, a mesma coisa posso eu fazer. E, falando na Academia, me ocorre agora que o senhor venha a querer coroar sua carreira de glórias entrando para ela. Sou um pouco mais mocinho do que o senhor e não tenho nenhum poder, a não ser afetivo, sobre meus queridos confrades. Mas, se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais.

João Ubaldo Ribeiro

 

 

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