RIO 2016: IMAGEM QUE PRECISA DE MIL PALAVRAS

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Por Raul Pilati*

É impossível assistir à polêmica – e aos erros – em torno da foto da campanha com a Cléo Pires e Paulinho Vilhena em prol da venda de ingressos para os Jogos Paralímpicos sem refletir sobre imagem, reputação e comunicação.

A reação foi pesada e, em grande parte, negativa. Cléo Pires mostrou que não tem medo de briga, como ela declarou a um jornal. Chamou os críticos de hipócritas, gravou um vídeo respondendo aos ataques não sem antes desafiar os incomodados com um post nas redes sociais: “Pra quem REALMENTE tiver interesse em ENTENDER e não ficar destilando veneno de inveja e recalque”. (https://www.instagram.com/cleopires_oficial/)

A Vogue, pelo que vi, silenciou. A agência África, criadora da campanha, foi além: segundo declarações em posts, quebrou umas das premissas das redes sociais, a interação, e suprimiu críticas em seu perfil, provocando a ira dos internautas. O Comitê Paralímpico soltou nota apoiando a campanha (https://www.facebook.com/ComiteParalimpico/).

Raiva dos internautas, raiva da Cléo… E uma crise inútil. A campanha foi mal compreendida. Suas premissas e objetivos, corretas ou não, não foram percebidas. Sabe como se deve conduzir uma crise desse tipo? Explicando. É, parece bobo, mas é a diferença entre resolver e piorar. O Comitê apoia? A África criou? Os atletas paralímpicos gostaram? Chama os jornalistas e influenciadores para uma conversa. Monta um chat nas redes sociais. Usa os serviços de vídeo para responder ao vivo. Conta suas motivações. Explica suas intenções. E as escolhas de execução. Sem a paixão raivosa que foi demonstrada e que só destrói.

Vou usar como referência o depoimento de uma pessoa que admiro muito, a Camilla, para contar como me senti. Ela tem uma deficiência, nasceu sem parte do braço, como a Bruna Alexandre, a atleta retratada pela Cléo Pires na campanha. “Esse negócio de representatividade é tão maluco”, contou Camilla em um post. “Esse troço da Vogue me fez lembrar um episódio da minha adolescência: Não lembro qual revista que era, acho que era Revista Tpm (quase certeza). Abri na banca, dei uma folheada… numa das últimas páginas tinha uma foto de uma garota com o braço igual o meu. Ela trabalhava na revista algo assim, tinha um parágrafo sobre ela (falando do estilo dela eu acho). Eu comprei a revista. Só por isso. Eu nunca tinha visto ninguém parecido comigo numa revista antes. Guardei ela por anos e anos. Nem lembro a capa.”

A minha reação? Quando vi a Cléo sem um braço, um ícone da beleza, idolatrada e linda sem um braço… Se visse uma foto de um atleta paralímpico, sempre seriam “elas”, as pessoas com deficiência. Não eu. Mas uma pessoa cuja a imagem para mim era de perfeição física… sem um braço? Assim como a Camila se viu na revista, eu me vi na campanha. Funcionou para mim. Não funcionou para muitos. Entendo a paixão da Cléo, como embaixadora da causa, ao reagir. Mas para gerar comunicação, precisamos de conversas verdadeiras, que exigem estarmos abertos e aceitar o outro. Não de explosões de raiva.

vogue.gafe

*Raul Pilati é jornalista profissional em São Paulo e consultor de comunicação, imagem e reputação.

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Sobre o autor

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