A VISÃO INDÍGENA DO CINEMA

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A ALDEIA SP – BIENAL DE CINEMA INDÍGENA mostra a intensidade, a força, a militância e a poesia do novo cinema indígena brasileiro até o próximo dia 12 com 57 produções cinematográficas realizadas exclusivamente por indígenas em exibição no Centro Cultural São Paulo (CCSP) e nos CEUs de São Paulo

“A imagem já está pastel demais. Hollywood pasteurizou a imagem. Nós queremos despasteurizar, estamos fazendo uma espécie de revolução do olhar. É mais uma revolta do olhar que uma revolução. É um olhar que não aguenta mais a mesmice.” Assim o líder indígena brasileiro Ailton Krenak define a segunda edição da Aldeia SP, agora Bienal de Cinema Indígena, que acontecerá entre os dias 7 e 12 de outubro em São Paulo, no Centro Cultural São Paulo (CCSP) e nos Centros Educacionais Unificados (CEUs)/Circuito Spcine.

Os realizadores dos 57 filmes que integram a mostra têm, sem exceção, origem indígena. “É gente que vem numa plataforma ancestral chamada cinema de índio, com as visões do ayahuasca, outras visões”, explica Ailton, mineiro nascido na região do médio rio Doce e idealizador da mostra. “Os caras estão acostumados a ver um outro tipo de cinema, um cinema transcendental. É gente que está acostumada com imagens que não são controladas. Eles se relacionam com imagens descontroladas. É uma revolta do olhar”, define Krenak.

Em sua viagem do CCSP para os diversos CEUs paulistanos, a Aldeia SP apresentará públicos da região central e das periferias a um outro universo de formação e criação cinematográfica, bastante diferente de tudo que estamos acostumados a conhecer como cinema convencional. “Nós não estamos fabricando pastel, como dizia o cineasta Luis Buñuel. Não vamos entregar pastel, que tem que ser rapidinho, comer enquanto está quente”, brinca Ailton, que é cofundador da União das Nações Indígenas (1980) e do Núcleo de Cultura Indígena (1985) e teve atuação marcante da Assembleia Nacional Constituinte que resultou na Constituição Brasileira de 1988. “São filmes que você pode ver daqui a 500 anos, porque afinal de contas vão estar falando sobre um assalto que aconteceu há 500 anos.”

O antropólogo, cineasta e fotógrafo Pedro Portella, um dos curadores, define a seleção de filmes da Aldeia SP: “Pensamos na curadoria como uma maloca indígena, onde o ritual e o cotidiano dos ameríndios estivessem presentes, reunidos em um cinema artesanal. O importante, para nós, é reforçar o papel do cinema múltiplo indígena, um cinema artesanal e diverso, que traz o discurso direto de seus realizadores”.

“Perdi a conta dos filmes a que assistimos”, diz o outro curador, o cineasta e produtor Rodrigo Arajeju (Troféu Mucuripe de melhor direção neste ano pelo filme Índios no Poder, no 26º Festival Cine Ceará). “Para se ter uma ideia, a nossa seleção compreende produções que vão de filmes de protesto, sobre retomadas de terras tradicionais, até o cine-roça, o cine-xamanismo, videoclipes, programas televisivos e animações. As estéticas indígenas são múltiplas e refletem a diversidade vivenciada em matas e fronteiras urbanas por dezenas de coletivos e realizadores pertencentes a alguns dos 305 povos originários no Brasil, falantes de 274 línguas.”

Portella demarca o salto de cidadania vivido pelos realizadores, que passam agora à condição de contadores de suas próprias histórias. “Sabemos bem que um desejo antigo deles é fazer uma televisão coletiva na essência, que dialogue em diversas línguas para além do mundo dos brancos. Por mais que essa televisão ainda não exista, já existem canais de exibição, que encontraram fôlego na rede. A internet coletivizou os vídeos indígenas, assim como o whatsapp. São os casos da TV FOIRN de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, do Departamento de Projeto Audiovisual do Conselho Indígena de Roraima e do Centro de Mídia Kokojagoti, dos jovens Kayapó do Pará, só para citar alguns dos muitos coletivos independentes selecionados.”

A coletividade é valor primordial de uma mostra que desafia os ditames dos circuitos “cara pálida” de festivais, segundo expõe Portella: “A necessidade de afirmação da coletividade é sem dúvida urgente, porque existem coletivos, como é o caso de alguns dos Guarani Kaiowá, que não participam de mostras competitivas de cinema, por discordarem desta forma de mostrar, decerto ocidental demais para eles. Eles desejam agregar ao invés de competir”.

Nesse espírito de coletividade não competitiva, a Bienal de Cinema Indígena abrange produções dos últimos seis anos e destaca, segundo observa Portella, uma forte amostra de produção feminina. “Só das etnias indígenas do rio Negro saíram 11 filmes, sobretudo de realizadoras indígenas como a Baniwa Elisangela Fontes Olímpio, com seu documentário mítico intitulado Nora Malcriada, e a Tukana Larissa Ye’padiho Mota Duarte, que estará presente pessoalmente na mostra apresentando o filme autobiográfico Wehsé Darasé – Trabalho da Roça. Além delas também teremos a Tariana Maria Claudia Dias Campos, com o belo e intimista As Manivas de Basebó – Histórias e Tradições, e o sensível Não Gosta de Fazer mas Gosta de Comer, da Tukana Maria Cidilene Basílio em parceria com a Baré Alcilane Melgueiro Brazão. Elas afirmaram e documentaram a prática sobretudo feminina tão importante que vemos em quase toda Amazônia: as casas de farinha, que alimentam os povos indígenas desde sempre.”

”As mulheres indígenas ocupam maior espaço no cinema porque sua afirmação de independência cresceu nas aldeias e o seu protagonismo no movimento indígena já se tornou marcante”, afirma Rodrigo Arajeju. Os cinco sentidos, além de outros mais, terão de estar bem aguçados para descortinar um Brasil visto pela revolta do olhar de representantes das mais antigas brasileiras e brasileiros.

O patrocínio da Aldeia SP é da Spcine, o escritório municipal de desenvolvimento, financiamento e implementação de programas e políticas para cinema, TV, games e web, com apoio das secretarias municipais de Cultura e Educação. A abertura da mostra está prevista para o dia 7 de outubro, às 16h, no CCSP (rua Vergueiro, 1.000, tel. 011/3397-4002), com a apresentação de um coral de crianças guarani, outras manifestações artísticas indígenas e uma roda de conversa com a participação de Ailton Krenak, o ex-ministro da Cultura Juca Ferreira, o documentarista Vincent Carelli e o ambientalista João Augusto Fortes. Às 20h, haverá sessões de exibição do filme convidado O Abraço da Serpente (2015), de Ciro Guerra.

A partir do dia 10 de outubro, a Aldeia SP entra em cartaz nos CEUs, com sessões já confirmadas nas unidades Alto Alegre, Aricanduva, Butantã, Casa Blanca, Inácio Monteiro, Parque Anhanguera, Parque Bristol, Pera Marmelo e Vila Atlântica.

Junto dos filmes, o festival trará a São Paulo dez de seus realizadores, com sessões de contato direto com o público durante a exibição dos filmes, no CCSP e nos CEUs. Também estarão nas salas de cinema moradores de aldeias locais guarani, pankararu e de outros habitantes da metrópole, “os parentes que estão aqui”, segundo Krenak, para integrar o coletivo. Entre os relaizadores indígenas confirmados estão Alberto Álvares (Guarani Nhandeva, Mato Grosso do Sul), Alexandre Pankararu (Pankararu, Pernambuco), Carlos Papá (Guarani, São Paulo), Cristiane Takuá (Takuá, São Paulo), Jerá Giselda (Guarani Mbya, São Paulo), Larissa Ye Padiho Mota Duarte (Tukano, Amazonas), Michely Fernandes (Guarani Kaiowa, Mato Grosso do Sul/Rio de Janeiro), Morzaniel Iramari Yanomami (Yanomami, Roraima/Amazonas), Patrícia Ferreira (Guarani Mbya, Rio Grande do Sul), Txana Isku Nawa (Huni Kuin, Acre),  e Wera Alexandre (Guarani Mbya, São Paulo).

Ailton Krenak, idealizador da Aldeia SP – Bienal de Cinema Indígena, é ativista indígena dos direitos humanos. Nasceu em 1953, no Vale do rio Doce, Minas Gerais, e pertence à etnia Krenak. Em 1987, no contexto das discussões da Assembleia Constituinte, liderou a luta pelos princípios inscritos na Constituição Federal do Brasil. Fundou e dirige no Núcleo de Cultura Indígena, que realiza desde 1998 o Festival de Danças e Culturas Indígenas, na  Serra do Cipó (Minas Gerais).

A programação completa pode ser conferida aqui.

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