OSCAR 2016: SPOTLIGHT, UMA AULA DE JORNALISMO

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Por Sandro Alves de França*

Spotlight – Segredos Revelados é um dos filmes considerados favoritos na corrida do Oscar 2016.  Para além disso, o filme tem obtido bastante repercussão pelo seu tema central: o jornalismo. Sobre a história verídica de uma reportagem publicada em 2002 pelo The Boston Globe’s, tradicional jornal da cidade de Boston, nos EUA, que denunciava dezenas de casos de pedofilia envolvendo padres e o movimento da Igreja Católica para abafar esses episódios e acobertar os sacerdotes envolvidos, a produção discute a relevância e o papel social do jornalismo na sociedade. Esse viés já se  evidencia pelo título: Spotlight (ponto de luz, em tradução livre) é o nome do caderno de reportagens especiais do periódico. Mais jornalístico que isso impossível!

Há diversos outros filmes relevantes que tem o jornalismo como tema, Todos os Homens do Presidente, Boa Noite e Boa Sorte, O Jornal são alguns dos  títulos notáveis, mas há vários outros títulos. O que Spotlight tem de singular em relação as outras produções é a forma como se aprofunda na rotina de um grande jornal e como isso impacta a vida dos jornalistas e da comunidade como um todo. Vemos retratada a relação jornalista-veículo, mídia-sociedade, a função social e  o impacto do jornalismo nos nichos sociais que ele penetra – e até mesmo além deles.

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Equipe de jornalistas reunida e discutindo estratégias e caminhos para uma reportagem especial – e desafiadora. Spotlight mostra dos bastidores do trabalho jornalístico num grande jornal.

O filme retrata as nuances e os meandros da descoberta de um grande escândalo e mostra em detalhes o processo de construção de uma reportagem de jornalismo investigativo. Mas não só. O maior diferencial é a humanização do profissional do jornalismo, o detalhamento da relação entre repórteres, fontes, instituições, o jogo político intrínseco (as pressões, os lobbys e os múltiplos interesses envolvidos) e, sobretudo, como o jornalista se vê e se coloca enquanto ser humano diante dos desafios e dilemas da profissão.

Tecnicamente, Spotlight é uma obra muito bem realizada, com um excelente roteiro, direção segura do Tom McCarthye, performances pontuais do elenco (embora não tenha achado ninguém particularmente excepcional, incluindo os indicados ao Oscar Rachel McAdams e Mark Ruffalo). A narrativa, ainda que bastante convencional, é consistente e envolve o espectador, tanto quem é do ramo (jornalístico), quanto leigos no assunto. Há uma abordagem bastante sóbria e delicada que, com um tema tão sensível como é o abuso sexual de crianças e adolescentes praticado por agentes religiosos, confere ao filme uma aura de responsabilidade social, além do já evidente mérito artístico

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Mark Ruffalo (à esquerda) e Rachel McAdams (à direita) em cena de “Spotlight – Segredos Revelados”. Ambos foram indicados ao Oscar 2016 nas categorias ator e atriz coadjuvante pela performance no filme.

Spotlight nos mostra como a prática jornalística pode ser feita com excelência, como um jornalismo independente e efetivamente comprometido com a sociedade pode produzir grandes resultados e cumprir a função social da comunicação e do bom jornalismo: alertar, informar, esclarecer e dar voz a temas nebulosos, muitas vezes indigestos – mas por isso mesmo essenciais. No filme, é mostrado o enfrentamento dos establisment político e religioso em nome da elucidação de uma verdade inconveniente, que estava adormecida no invólucro do acobertamento e do silêncio retumbante. A prática jornalística retira a história do limbo e, com isso, cumpre um papel cidadão e humano singular.

Em terras brasilis, com os grandes veículos midiáticos oligopolizados e uma imprensa refém de interesses corporativos e lobbys diversos – o religioso, o político e o econômico, de forma mais enfática – algo assim parece cada vez mais distante. Atualmente, com a influência crescente das agências de comunicação, que vem pautando cada vez mais o noticiário (à favor de seus clientes), e o modelo de matérias patrocinadas (quando uma empresa recomenda uma pauta e financia integral ou parcialmente a sua execução, muitas vezes interferindo de forma direta no conteúdo) corroendo ainda mais a linha já tênue entre jornalismo e publicidade, fica realmente muito difícil vislumbrar algo minimamente semelhante no Brasil – ao menos não nos veículos da grande mídia, que são os maiores multiplicadores de conteúdo.

Por um jornalismo que vá na contracorrente, que subverta o status quo, que seja livre, independente, de qualidade e que tenha compromisso primordial com as pessoas, com bem-estar social. Um jornalismo que atue como contrapoder e que publique de forma responsável e consistente pautas que incomodem o establishment – seja ele qual for. Esse é espírito de Spotlight e é nele que eu alicerço a minha crença e a minha paixão pelo jornalismo.

*Sandro Alves de França é graduado em Letras pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), estudante de Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), professor de Literatura, produtor cultural independente e Editor Geral do site sobre cinema Janela 7. É repórter e colunista do Paraíba Já, onde esta crítica foi originalmente publicada.

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Sobre o autor

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