URBE LEVA ARTE AO BOM RETIRO, EM SÃO PAULO

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Com curadoria de Alessandra Marder, Felipe Brait e Reinaldo Botelho, a mostra URBE acontece até o dia 27 de novembro, com uma série intervenções artísticas no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. O evento pretende investigar o espaço público por meio de práticas artísticas que assimilam a fusão entre obra e lugar com intervenções temporárias in situ, criando um percurso orientado pelo interesse, aberto aos sentidos. Para esta edição, foram selecionados três artistas que exploram as relações sociais da cidade, a emoção e o comportamento dos indivíduos, estimulando rupturas de passividade e alienação: Anaisa Franco, Iara Freiberg e Guto Requena.

Com a escolha de um sítio para as intervenções, a ideia é potencializar os objetivos essenciais da mostra: atrair a atenção coletiva para espaços simbólicos dentro de uma mancha urbana, gerar reflexões sobre o direito à cidade, debater novas formas de ocupação do espaço público, exercitar possibilidades de interação tecnológica que a cidade e a urbanidade contemporânea podem oferecer, identificar estratos e relações sócio-territoriais.

O Bom Retiro é o lugar selecionado para esta edição da mostra. Desde seu surgimento, o bairro vem construindo e consolidando uma vocação multiculturalista. E a relevância histórica, econômica e social da região, somada a sua constante mutação, reforça os atributos para a escolha.

O eixo curatorial adotado gravita em torno de temas relacionados ao espaço públicos como pensamento e proposição para a arte, levando em conta a cidade como território em disputa, a memória urbana, a forma como os lugares são criados, inventados ou reinventados pelo uso, sua dimensão patrimonial e simbólica, assim como outros temas-satélites.

 
 São Paulo_cidade transversal

A cidade e seus constantes fluxos de transformação se refletem em sotaques e constroem narrativas na relação entre identidade e lugar. Explorar esse território alicerçado por uma composição artística, que convida o público a vivenciar projetos de arte e compartilhar seus sentidos, é o pilar central dessa segunda edição da URBE_mostra de arte pública.

Nessa equação poética, adotou-se a transversalidade como elemento de forte contorno narrativo, o qual atravessa o vocabulário estilístico e convive livremente entre as obras criadas para a mostra e o local escolhido para sua realização, o bairro do Bom Retiro.

Entender a complexidade dessa região paulistana é estar em contato permanente com a história da cidade. O conjunto de traços e tramas étnicos, econômicos, socioculturais, arquitetônicos e de hábitos que organiza a fascinante antropologia urbana do Bom Retiro situa o lugar como principal intermediário entre a cidade e o indivíduo.

No decorrer de quinze dias, o público terá a oportunidade de desfrutar de uma experiência artística que ressignifica o cotidiano, cria caminhos expandidos e permite que cada um desenvolva sua própria narrativa lúdica. Plataformas de escuta e apreciação de confissões, transcodificação cromática, deslocamento transposto por vazios e sulcos, repouso-meditação, antropofagia e interfaces analógicas e digitais compõem o repertório de transversalidades propostas pelas obras desenvolvidas por Anaisa Franco, Guto Requena e Iara Freiberg.

O projeto Doce reflexão, de Anaisa Franco, é uma instalação que trabalha várias camadas dos sentidos humanos, adicionando uma experiência antropofágica à mostra. Em um pavilhão paramétrico em formato de colmeia, o público interage com a obra, tendo a face mapeada por fotografia e transformada em chocolates e panquecas impressos em 3-D. O espectador poderá comer-se e ainda ver seu rosto impresso aplicado a uma parede da obra, gerando um memorial em processo. A transversalidade aparece, nesse caso, como fonte de memória por meio do compartilhamento dos sentidos entre interfaces digitais e sensações gustativas.

Em Me conta um segredo?, Guto Requena penetra na intimidade do público por meio de uma obra interativa, mistura de mobiliário urbano, arte sonora e light design, que recodifica o relato dos participantes em escalas sonoras e cromáticas. Espectador e obra se fundem como confidente e ouvinte, em um espaço reflexivo em constante mutação. A transversalidade se compõe num eixo relacional de intimidades dentro de um jogo contemplativo de alteridade.

Flutuação, da artista Iara Freiberg, é um exercício que investiga os volumes tradicionais da paisagem urbana. Cada participante, ao se deslocar pelo território e escolher seus percursos, terá experiências visuais estimuladas por flutuações desenhadas diretamente sobre superfícies arquitetônicas, atravessando construções de diferentes tipologias e usos. Essas marcas operam ora como sulcos, vazios, intervalos, ora como provocações ou invasões, que transbordam os traços dos edifícios, desmontando a composição e a estrutura regular próprias do urbanismo vigente. Aqui a transversalidade assume significação na noção de totalidade ao criar espacialidades que se renovam, gerando outro todo.

Romper com os modelos expositivos clássicos é também atuar de maneira transversal dentro dos mecanismos tradicionais de contemplação da arte a fim de alcançar uma experiência única de habitar a urbe.

Desse modo, a segunda edição da mostra converge múltiplos processos e estéticas, gerando uma expografia expedicionária interativa e relacional com o bairro, mas também proporcionando ao público uma experiência de imersão urbana, onde a arte conecta desejos e desperta desvios.

Alessandra Marder, Felipe Brait, Reinaldo Botelho

curadores

Horário de funcionamento das obras: todos os dias, das 10h às 20h

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