BAN KI-MOON FAZ BALANÇO DA DÉCADA EM QUE COMANDOU A ONU

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Na última entrevista como secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon fala sobre os desafios de um trabalho considerado impossível, relembra a juventude na Coreia do Sul, fala de ensinamentos de Confúcio e faz um balanço de seu legado na década em que esteve à frente da Organização.

Ban Ki-moon completa uma década de serviço no comando das Nações Unidas, durante o qual suas prioridades foram mobilizar os líderes mundiais em torno de novos desafios globais: de mudanças climáticas, turbulências econômicas e pandemias a crescentes pressões envolvendo alimentos, energia e água. Além disso, procurou ser um “construtor de pontes”, para dar voz aos mais pobres e vulneráveis e fortalecer a Organização.

Ban começou seu primeiro mandato como secretário-geral da ONU em 1º de janeiro de 2007 e foi reeleito por unanimidade em 21 de junho de 2011. Nos seus últimos dias na sede da ONU em Nova Iorque, o secretário-geral falou ao UN News sobre vários tópicos, incluindo o trabalho na Organização, o impacto que a guerra teve na decisão de seguir uma carreira no serviço público e próximos desafios.

UN News: Quando o primeiro secretário-geral da ONU, Trygvie Lie, deu boas vindas ao seu sucessor, Dag Hammarskjöld, ele disse: “bem vindo, Dag Hammarskjöld, ao trabalho mais impossível nesta terra”. Você ficou no cargo por quase dez anos. O que acha desta descrição?

Ban Ki-moon: Tem sido um grande privilégio para mim servir esta grande organização. Minha motivação foi fazer deste trabalho “mais impossível” uma “missão possível”. Eu tenho tentado durante esses últimos 10 anos, dando todo o meu tempo, paixão e energia. Mas, francamente falando, realisticamente, eu terei que deixar muitas coisas por cumprir. Precisávamos ter um senso maior de união, maior solidariedade global e compaixão, mas não conseguimos ver isso. Sem o total apoio dos Estados-membros, tem sido muito difícil.

Ao mesmo tempo, conquistamos importantes visões, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável cobrindo todos os aspectos da vida e o Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas. Essas são as duas mais importantes, ambiciosas e abrangentes conquistas. Ao mesmo tempo, tenho dedicado todos os meus esforços ao maior empoderamento de gênero. Na primeira vez em que me tornei secretário-geral, havia poucas mulheres trabalhando em um nível mais sênior. Tenho tentado indicar a maior quantidade possível de mulheres capazes e comprometidas para estas posições. Espero que meu sucessor, António Guterres, reforce isto.

UN News: Olhando para a década passada, o que você destaca como maiores feitos no comando das Nações Unidas?

Ban Ki-moon: Qualquer que tenha sido o sucesso ou a conquista, é resultado de esforços conjuntos — não apenas meus. O secretário-geral, embora seja capaz e disposto, não pode fazer isto sozinho. Nenhum país ou pessoa pode fazer sem apoio. Neste ponto, sou imensamente grato aos nossos funcionários dedicados, que tem trabalhado dia e noite — em muitos casos, em circunstâncias muito perigosas. Sem o duro trabalho deles, não teríamos alcançado o Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas, não teríamos a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Estes são apenas dois importantes resultados de nosso trabalho comum. Espero que nosso pessoal continue nos esforços ao trabalhar em conjunto com os Estados-membros.

UN News: Na mesma linha, olhando para a última década, qual o maior desapontamento?

Ban Ki-moon: Minha visão, como secretário-geral pelos últimos dez anos, lidando com assuntos inflamados acontecendo aqui e ali, todos estes assuntos, estes conflitos, não foram provocados pelas pessoas. A maior parte destes conflitos, infelizmente, devo dizer, foram provocados por líderes — porque os líderes não demonstraram forte comprometimento com objetivos e ideais da Carta das Nações Unidas, dos direitos humanos básicos. É por isso que as pessoas andam bravas e frustradas e têm se revoltado contra seus líderes. Tivessem eles demonstrado mais solidariedade, empatia e compaixão com seus povos, teríamos menos conflitos agora. É por isso que peço aos líderes: por favor, coloquem o bem público comum à frente de tudo, à frente de suas perspectivas pessoais, limitadas ou regionais.

 

UN News: Ser um secretário-geral é uma tarefa difícil. Longas jornadas, muito tempo viajando, carga de trabalho extenuante. Além disso, você é publicamente demandado e criticado por muitas vozes — de Estados-membros ao público. Como tem lidado com este aspecto do trabalho?

Ban Ki-moon: Tem sido muito duro, muito difícil. Mas, não importa o quão difícil ou desafiador seja, se você tem um forte comprometimento e um senso de equilíbrio e foco no seu trabalho, acredito que nada é impossível. Quando fui eleito para o segundo mandato, a principal mensagem que enviei aos Estados-membros e aos servidores da ONU foi a de que quando estamos juntos nada é impossível. Eu disse: não posso fazer sozinho. Quando estamos unidos, acredito que nada seja intransponível.

Muitas pessoas pedem nossa ajuda — pessoas que estão morrendo sem necessidade, pessoas que sofrem de perseguição, há tantas pessoas que realmente precisam do nosso apoio — que as considerações pessoais caem por terra enquanto você entra em cena. A esse respeito, sou muito tocado e grato a tantos de nossos servidores que trabalham dia e noite em lugares de conflito e desastres humanitários. Sem eles, penso que muitas outras pessoas teriam morrido.

UN News: Do que sentirá mais falta de ser secretário-geral?

Ban Ki-moon: Depois de me aposentar, irei, em primeiro lugar, me livrar de todas as pesadas tensões. Ao mesmo tempo, meu coração jamais deixará esta organização. Sentirei mais falta da solidariedade com a qual nosso pessoal mostra pela humanidade. Eles são pessoas altruístas, comprometidas, que têm trabalhado apenas pela missão que lhes foi dada pelas pessoas do mundo.

Foto: ONU

Foto: ONU

UN News: Como passará os últimos dias no trabalho?

Ban Ki-moon: Tenho feito meu trabalho — esta longa maratona de dez anos — como um corredor. Permanecerei focado até meu último dia, 31 de dezembro, fazendo exatamente isto. Nunca hesitarei, nunca esperarei e sempre farei o que é certo. Este é meu firme comprometimento com o serviço público.

UN News: Tem alguma mensagem de saída para os líderes mundiais e para o público?

Ban Ki-moon: Quando você se torna um líder de um país, de uma comunidade ou de uma organização, não importa se pequena ou grande, [você precisa se lembrar]: primeiro de tudo, você não é o único, você tem que lidar com pessoas, e você tem que ouvir bem cuidadosamente, atentamente e sinceramente às vozes das pessoas ou da equipe. Você tem que ouvir as dificuldades, as aspirações e os desafios — isso é muito importante. E você põe seu interesse privado ou pessoal atrás do bem público, do bem comum.

Tem um ditado, que aprendi através dos ensinamentos de Confúcio, que diz que se você quer realmente mandar no mundo, você tem que colocar seu país em ordem. Se você quer realmente mandar no seu país, você tem que colocar sua família em ordem. Se você quer realmente tornar sua família harmoniosa, você tem que ter seu coração em ordem. Então primeiro você tem que se cultivar — focar nos princípios, no respeito ao próximo, em trabalhar pela comunidade, pelo bem comum. É isso que tenho tentado praticar. Tem sido difícil, não tenho sido perfeito, mas posso me orgulhar em dizer que tenho me dedicado a alcançar estes objetivos.

UN News: Que conselho tem para António Guterres quando ele assumir como secretário-geral?

Ban Ki-moon: Quando você se torna líder de qualquer organização, a primeira coisa normalmente demonstrada é paixão: “farei isso, farei aquilo, não terei problema, tenho determinação”. Mas minha experiência e minha observação a partir de lições aprendidas ao longo de dez anos, é que esta paixão deve vir acompanhada de compaixão pelos outros.

Todos têm esta paixão, particularmente quando jovens — é uma prerrogativa dos jovens e de alguns líderes ambiciosos — mas compaixão é muito mais importante. Há centenas de milhares de pessoas que precisam da ajuda das Nações Unidas. Sei que Guterres é um homem de integridade, um homem de compaixão. Ele realmente demonstrou sua compaixão e liderança durante os dez anos que foi alto comissário da ONU para refugiados. Sou muito grato que os Estados-membro tenham escolhido uma pessoa tão brilhante como meu sucessor.

UN News: Você cresceu em um ambiente longe de ser confortável e, em algum momento, no meio da guerra, sobreviveu com alimentos enviados pelas Nações Unidas. Olhando para a jornada da sua vida, como é sair de uma posição de beneficiário de uma organização para liderar a mesma organização?

Ban Ki-moon: Olhando os 72 anos da minha vida, acho que tive sorte. Quando nasci, antes do fim da Segunda Guerra Mundial, todos eram pobres. Logo depois, a Coreia do Sul foi atacada pela Coreia do Norte. Nesse momento, as Nações Unidas tinham enviado tropas e ajuda humanitária. Sem as Nações Unidas, eu não estaria aqui hoje como secretário-geral. Na minha juventude e como servidor público, recebi muita solidariedade e apoio do mundo desenvolvido, porque a Coreia estava num estágio de desenvolvimento social e econômico muito pobre.

Depois que me tornei secretário-geral, tenho realmente tentado mostrar que não deveria mais haver meninos e meninas que tenham que enfrentar tantos desafios como eu tive. Nos meus encontros com eles, tenho dito: “não desanimem. Eu era como vocês e vocês podem ser como eu — vocês podem se tornar secretário-geral das Nações Unidas. Não desanimem porque nós estaremos com vocês do mesmo modo que as Nações Unidas estavam comigo 65 anos atrás”.

É o que penso agora: tem sido um grande privilégio para mim servir esta Organização de direitos humanos, desenvolvimento, paz e segurança. Mas ao mesmo tempo, lamento muito dizer que o mundo não é nada pacífico agora. Quando eu tinha apenas 12 anos, na Hungria, havia pessoas se rebelando contra a opressão da União Soviética. Naquela época, eu lia uma declaração em nome dos meus colegas de escola: “por favor, ajudem os jovens e crianças na Hungria”. Então, quando fui eleito secretário-geral, informei e relatei os países-membros sobre minhas experiências. Durante meu período como secretário-geral, esperei não receber este tipo de apelo de jovens. Mas, infelizmente, ainda hoje, estou recebendo muitos apelos e cartas de muitas pessoas.

UN News: Você mencionou família. Que custo um trabalho como secretário-geral da ONU tem na vida familiar e pessoal?

Ban Ki-moon: A família é o centro do centro. Você começa com a família. Sem o coração da família, você não pode ter comunidade, não pode ter uma nação, não pode ter um mundo. Então precisamos começar da família: amor e apoio. Ao mesmo tempo, devo render homenagens aos servidores da ONU a esse respeito — porque eles têm suas próprias famílias e algumas vezes eles sacrificam suas obrigações familiares por conta do trabalho — por isto, sou profundamente agradecido, como sou grato à minha esposa e filhos. Apenas com este senso de comprometimento e de sacrifício pelos outros e pela humanidade podemos fazer deste um mundo melhor.

UN News: Quando historiadores analisarem seu período como secretário-geral das Nações Unidas, o que espera que escrevam?

Ban Ki-moon: Como você disse, serão historiadores, assim como Estados-membros e outros, que irão avaliar e analisar meu legado e meu comprometimento. Assim, modestamente, deixo tudo aos historiadores. Tendo dito isso, posso definitivamente dizer que dei todo a minha paixão, tempo e energia, dediquei tudo o que tinha, coloquei o bem público acima das minhas obrigações pessoais e familiares. Isso é uma coisa.

Inicialmente, tenho tentado resolver questões através do diálogo inclusivo em vez de apenas falar minha própria visão. Primeiro  ouço nossos servidores, conselheiros seniores e Estados-membros. Então, depois disso, formulo minha própria visão e esta é muito importante.

Aprendi com uma sabedoria: se você quer se tornar um bom líder, então quando algo é feito perfeitamente e bem sucedidamente, você não deve dizer que é apenas o seu sucesso, é muito melhor e mais harmonioso se todos souberem que ele ou ela é parte do processo, que ele ou ela contribuiu, e eles devem ter um momento de orgulho, um momento de “eu fiz”.

UN News: O que você quer fazer quando terminar o mandato de secretário-geral?

Ban Ki-moon: Estou com a mente aberta. Como um ex-secretário geral, claro, aprendi muitas lições. O que for necessário, onde for necessário, não economizarei esforços em fazer algo que seja certo para meu país ou uma outra comunidade além do meu país. Acho que é a maneira de qualquer ex-secretário-geral prestar seu apoio a uma causa comum.

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