God Save the Queen?

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Por Sônia Araripe

Do Rio de Janeiro

Foto: Steven Loss (Londres)

Uma história sem final feliz


Ivan Sant`Anna poderia ser mais um bem-sucedido operador do mercado financeiro. Ganhou – e também perdeu – dinheiro nos solavancos das ações, mercadorias e futuros. Conhece, como poucos, os meandros destes negócios. Morou fora, se especializou, cresceu. Até perceber que poderia ser ainda mais feliz seguindo sua intuição para outras habilidades. Não com números. Mas com as palavras. Em 1995, aos 55 anos, lançou o primeiro livro que tinha como pano de fundo o mercado financeiro e envolvia ainda um seqüestro. Fez sucesso de cara com “Rapina”. Depois foi a vez de lançar o thriller “Mercadores da Noite” contando os bastidores das operações noturnas comandadas por traders globais. Vieram outros títulos e não parou mais. Tornou-se escritor quase no susto. E dos melhores. Carrega no sangue a gene da verve – seu irmão, Sérgio Sant`Anna, é escritor premiado, e a irmã, Sônia também publicou livro. Lucraram os leitores. Com faro de repórter e fôlego de adolescente, aos 67 anos, Ivan mergulha em suas apurações quase com sofreguidão. De quem vara a madrugada no que batizou de “sarcófago” – o antigo quarto de empregada, com apenas dois metros e meio de comprimento por 1,5m de largura, no apartamento de condomínio classe média na Barra da Tijuca – atrás dos detalhes de cada assunto. Tem sido assim sempre. Seja com o pé na estrada para relatar a rotina perigosa e lúdica dos caminhoneiros; para narrar o mergulho de um jovem no mundo das drogas; divertir-se com um romance água-com-açúcar ou para escrever sobre seu tema predileto – os acidentes aéreos. A última investida do irrequieto escritor é “Em nome de sua Majestade” (Editora Objetiva, 174 páginas), no qual relata os bastidores e os últimos momentos da morte do eletricista mineiro Jean Charles de Menezes pela polícia inglesa no metrô de Londres, em julho de 2005. Ivan voltou à Londres que o abrigou ainda jovem estudante, visitou os pais e parentes de Jean Charles. E descreve, num relato de tirar o fôlego, esta história sem final feliz. Com uma riqueza de detalhes como se estivesse ao lado da vítima – seus amigos e algozes – em seus últimos movimentos. O escritor contou à Revista Publicittá como foi a experiência desta “reportagem” e seus próximos projetos.


 


 

– Como surgiu a idéia de escrever sobre a morte de Jean Charles de Menezes? Foi sua ou alguém te sugeriu?

 

Surgiu por acaso, durante uma viagem de carro do Rio para Ilha Bela. Foi durante a Copa do Mundo de 2006. O rádio do carro falou no assunto e eu achei que daria um bom livro-reportagem. Mas achei que iria apenas escrever sobre um terrível engano. Jamais sobre incompetência e vilania.

 

– Quanto tempo você levou escrevendo? Foi um processo rápido? Você esteve em Londres, Córrego dos Ratos e Gonzaga, no leste de Minas Gerais, onde vive a família de Jean Charles e onde ele se criou.

 

Nove meses durou a gestação. Estive em Londres em novembro do ano passado. Em Córrego dos Ratos, que é distrito de Gonzaga, apenas uma vez, após regressar de Londres, para entrevistar os pais de Jean Charles. Mais tarde, com o livro já pronto, voltei a Londres para ser entrevistado pelo “Fantástico“, nos locais onde Jean foi perseguido e morreu.

 

– A história de Jean Charles se parece com a de muitos outros brasileiros que imigraram em busca de dias melhores. Você – que já morou no exterior – acredita que é difícil conseguir arrumar trabalho e viver no Brasil?

 

Com certeza. Em Londres (sem exagero) um jovem imigrante brasileiro encontra emprego em duas horas. Basta ir a uma agência.

 

– Acredita que há no Brasil hoje uma crise de identidade dos jovens que não conseguem colocação – diante do baixo crescimento econômico e poucas oportunidades para os menos preparados? Vê algum sinal de melhora ou não?

 

Nenhum sinal de melhora. E o assistencialismo do governo, ao dar esmolas, só faz piorar a situação.

 

– Você está convencido que foi mesmo um erro da Scotland Yard ou as condições extremas da época em busca de terroristas podem ter levado mesmo os policiais ao erro?

 

Jean Charles foi seguido por 33 minutos sem que o comando anti-terrorismo (Golden Command) se desse ao trabalho de perguntar aos agentes que o perseguiam como era a descrição física do suspeito. Osman Hussein, que eles queriam matar, era negro. Jean Charles, moreno.

 

– Esta é uma história que ainda parece longe do fim. Novos desdobramentos estão acontecendo. Você acredita, pessoalmente, que um dia os culpados possam vir a ser punidos?

 

Os culpados jamais serão punidos. E os agentes que identificaram (Tango 10), perseguiram (Hotel 1, Hotel 3 e Hotel 9) e mataram (não sei nem o codinome) jamais terão seus nomes revelados, a não ser que um deles se identifique.

 

– Na sua opinião, não há nesta história ingredientes da velha luta do bem contra o mal; de David contra Golias; do jovem imigrante ilegal contra a poderosa Scotland Yard?

 

Não. A polícia naquela ocasião não estava interessada em imigrantes ilegais. O que eles queriam era matar um terrorista para dar uma satisfação à opinião pública inglesa. Como pensaram que Jean Charles era Osman Hussein, mataram-no.


 

– A participação da imprensa, tanto inglesa quanto a maioria da brasileira, foi pífia, para dizer o mínimo. Seu livro mostra isso com riqueza de detalhes. Isso te revoltou?


 

Foi realmente um absurdo. Pressenti que a “história oficial” estava muito mal contada. Se não fosse a coragem da canadense Lana Vandenberghe, secretária da corregedoria da polícia metropolitana de Londres, de revelar a verdade para uma amiga, nada disso teria chegado ao grande público. A amiga, Louise Mcging, entregou os detalhes para um jornalista independente, Neil Garret, que fez o dever-de-casa correto. A imprensa não se interessou em apurar corretamente o caso. Aceitou a versão da polícia.

 

– Você já escreveu sobre mercado financeiro, caminhoneiros, drogas, aviões, terrorismo e até um romance água com açúcar. Tem algum tema que te inebria no momento?

 

Novidade, por enquanto não. Mas penso em escrever um “Caixa-preta 2” narrando os recentes acidentes com os vôos 402 (TAM, 1996), 1907 (Gol/Legacy 2006) e 3054 (TAM, 2007).


 

Trechos do livro


 

“Sabe de uma coisa? Estou pensando seriamente em comprar uma moto. Assim não terei mais que andar o dia todo de metrô” – Jean Charles, uma semana antes de ser assassinado, preocupado com a repercussão dos atentados terroristas no metrô londrino em 7 de julho de 2005


 


 

“O que a polícia fez foi uma estupidez. Eles mataram a primeira pessoa que viram. Se fizeram isso com o meu primo, poderiam ter feito com qualquer um” – Alex, primo de Jean Charles


 


 

“Dava para ver seu terror. Ele (Jean Charles) morreu como um coelho assustado” – Mark Whitby, inspetor sanitário que estava no mesmo vagão de Jean Charles e o viu ser assassinado pela polícia


 



 

 

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Sobre o autor

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