HENNING MANKELL. DESCANSA EM PAZ, GUERREIRO!

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A Avenida 25 de Setembro é a artéria central de Maputo, a capital de Moçambique. Nela estão bancos, sedes de empresas (inclusive multinancioanais para os moçambicanos como a brasileira Vale), hotéis, clubes, casas comerciais e no número 1.179 o Teatro Avenida. Foi no palco dessa casa mágica de espetáculos que assisti “As filhas da Nora”, uma montagem baseada no clássico “Casa de Bonecas”, de Ibsen, com a direção segura do brilhante escritor e diretor sueco Henning Mankell e co-direção e produção impecável de Manuela Soeiro, a mulher que abriu uma padaria ao lado do teatro e com o pão sustentou durante longo período os espetáculos, quando o Teatro Avenida ainda formava sua plateia.

Mankell, casado com Eva Bergman, a filha do cineasta Ingmar Bergman, estreou “As filhas da Nora” em 2006, ano do centenário da morte de Ibsen e da morte de Eva. Desde então, a montagem passou a integrar com outras o repertório do grupo residente Mutumbela Gogo. Em sua versão moçambicana, Mankell trazia à cena o viver e ser nesse país africano, ex-colônia portuguesa como o Brasil, se apoderando de uma história universal em que a mãe, fugindo da opressão, abandona maridos e filhas. O texto gira em torno do questionamento das filhas sobre essa atitude da mãe e aquilo que se tornaram por conta da decisão de Nora,culpas e resssentimento à flor da pele. Mankell substituiu os nomes nórdicos de Ibsen pelos moçambicanos e, assim, elas iniciaram no palco em pleno carnaval moçambicano um questionamento das diferenças e dos caminhos trilhados e o papel que cada uma passou a exercer na sociedade por força de seus atos de coragem, temores e fragilidades.  Um encontro que de três diferentes mundos, três diferentes visões sobre Nora que tem por finalidade o sepultamento da mulher que as une e que ainda vive dentro delas e ressuscita nelas as mais diferentes visões e tensões do que é ser mulher numa sociedade patriarcal, machista. Foi mágico assistir a essa montagem numa noite quente como são quentes as noites de Maputo num teatro sem o conforto das grandes salas, mas o alento de espetáculos de altíssimo nível, calorosas interpretações. O escritor Mia Couto é um dos colaboradores constantes do grupo residente do Teatro Avenida, que hoje amanheceu de luto.

O câncer ceifou a vida de Mankell na madrugada da segunda-feira, 5, mas fica o legado desse homem, escritor brilhante que durante 30 anos e ao lado da batalhadora e ativista cultural Manuela Soeiro, se empenhou na formação de atores, a criação de um teatro de repertório e o reconhecimento dos artistas integrantes do Mutumbela Gogo. Mankell partiu aos 67 anos para o reino da Pásargada, de que fala o poeta brasileiro Manuel Bandeira, na cidade sueca de Gotemburgo. Desde 2014, ele enfrentava as agruras do câncer que não o impedia de sonhar com novos espetáculos e traçar planos.

Hoje, em Maputo, o Teatro Avenida está de luto, mas sabe que a obra do artista não morre e caberá a cada um e a todos os integrantes desse grupo talentoso de atores levar seu legado para os palcos do mundo. Mia Couto se manifestou sobre a morte de Mankell de forma sensível nas redes sociais: “Aprendi muito com ele…na procura do que é o sonho…ele sempre me incentivava: vai ter com as pessoas, não procures a história, procura o sonho que está por trás da história…isso quase se transformou num método para mim”.

Em nota, a Editora Leopard, fundada por Mankell, destacou que “a solidariedade com os mais fracos e os oprimidos atravessa toda a sua obra como um fio vermelho”. Um fio que corre para os rios e desses para o oceano de uma obra se eterniza na própria grandeza de Mankell.

Descansa em paz, guerreiro!

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Sobre o autor

Carlos Franco

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