MANICURES SEGUNDO FREDERICO DALTON

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Simone ainda não sabe, mas seu filho é Muleke Piranha. Sim, Anderson, de 13 anos é Muleke Piranha, com “k” mesmo. O próprio Anderson se denomina assim, enquanto canta e dança o “funk” de mesmo nome num vídeo do Youtube gravado na laje de casa. Simone, que é manicure e evangélica, vai ter a notícia através de uma colega de trabalho que lhe mostrará o vídeo em seu celular novo (aquele da maçãzinha) e que vai levar a amiga à inadimplência em três meses. Um dos clientes de Simone, o advogado José Mateus, de 52 anos, já viu o tal vídeo quatro vezes sem saber que o menino é filho dela. Na era da Internet, não existem mais coincidências, apenas “pensamento em rede”.

Nunca aceitei ser pobre. Eu teria feito qualquer coisa para mudar minha vida de manicure e vendedora da Jequiti. Aceitar esse meu casamento com um alemão chato e viver na cidadezinha menos animada da Baviera até que não é tão difícil. Nunca mais quis visitar a favela onde cresci. Por isso, os 20 refugiados afegãos que hoje de manhã descobri acampados no meu jardim (todos com fome) me deixaram tão inquieta.

Minha reação à incompetência da manicure que me tirou um “bife” foi ter lhe dado uma surra… num sonho. Três dias depois, vejo que estou ficando boa. Semana que vem poderei dizer a ela: “Fiquei boa. Acontece”. Mas sei que nunca ficarei boa, nunca serei boa. Meu pesadelo me mostrou isso. No fundo sou uma barraqueira, vingativa e mentirosa. O que me ilude é esta cicatrização.

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