MIGUEL KRIGSNER

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Sônia Araripe

Foto Divulgação

 

 

Filho de imigrantes judeus – pai polonês e mãe alemã – que, durante a Segunda Guerra, precisaram fugir da Polônia para a Bolívia, Miguel Gellert Krigsner, fundador da rede O Boticário, guarda na memória lembranças amargas de quem sabe o significado de cenário de grave crise e incertezas. Mas também praticou a  experiência de fazer uma tremenda limonada de um limão. Começou em 1977, com uma pequena e única botica de manipulação no centro de Curitiba e construiu a maior rede de franquias de perfumaria e cosméticos do mundo. O Boticário possui mais de 900 franqueados no Brasil: são 2,5 mil lojas no país, além da presença em 20 países, com 70 lojas e 1 mil pontos de venda. A marca gera cerca de 14 mil empregos, entre diretos e indiretos. Com esta experiência, o farmacêutico acredita ser hora de tirar lições. De depurar, como nas fórmulas, que tantas vezes manipulou e viu serem testadas antes de virarem sucessos. “Toda esta turbulência, a grave crise global veio mesmo para sacudir. Havia uma ganância desenfreada, uma busca incessante por lucro e desenvolvimento a qualquer custo. Não dava para continuar assim.” Pode parecer discurso da boca para fora. Está longe disso. Aos 58 anos, Miguel pratica a filosofia que prega. Acaba de vencer pela região Sul, através de votação popular, o Prêmio Brasileiro Imortal, organizado pela Vale, para destacar nomes que tenham trabalhado pela defesa do meio ambiente. Foi homenageado ao lado de nomes como o jornalista José Hamilton Ribeiro e a o compositor e defensor da natureza Tom Jobim (in memorian), batizando nova espécie descoberta na Reserva Natural da Vale, em Linhares (ES). Há 18 anos, quando pouco se falava de sustentabilidade nas empresas, o empresário decidiu criar a Fundação O Boticário destinando 1% das receita líquida das vendas de todos os produtos para proteger e preservar biomas. “Para nós, sustentabilidade faz parte de toda nossa filosofia. Está bem longe de ser só produto, embalagem ou marketing”, assegura. Confira os principais pontos desta entrevista para Plurale.

 

 

 

O senhor acaba de ser premiado pelo trabalho a favor do Meio Ambiente. Batizou nova espécie descoberta em área preservada pela Vale do pouco que restou de Mata Atlântica no Espírito Santo. Qual a importância do Prêmio Brasileiro Imortal?

 

Este prêmio tem um significado muito grande. Foram 250 milhões de votos pela Internet. Outros nomes importantes nesta área também estavam concorrendo. Todos foram, portanto, premiados por seus trabalhos. A idéia da Vale foi, sem dúvida, sui generis. Porque não estão apenas valorizando alguns nomes. O prêmio incentiva o valioso trabalho de pesquisadores que praticam a descoberta de novas espécies. Não conhecemos ainda toda a biodiversidade brasileira. Assim, esta genial iniciativa chama a atenção da mídia, da sociedade, para a preservação e pesquisa. Portanto, estou feliz não só por nós, pela Fundação, mas pelo o que isso ainda renderá de desdobramento. Disseminando a preocupação de todos com o Meio Ambiente. A Vale mostra que as empresas podem dar exemplos.

 

E como O Boticário entrou na defesa pela preservação? A Fundação nasceu 18 anos atrás, quando poucos falavam no assunto, bem antes desta verdadeira onda de hoje em dia.

 

Este era, sem dúvida, um assunto de poucos. Nas empresas, então, quase não se falava da questão ambiental. Ouvi, certa vez, palestra do ambientalista José Lutzemberg. Tinha uma noção geral. Sou um farmacêutico, gosto da natureza. Um dia, no fim da década de 80, fiz uma visita a Israel e pude acompanhar a recuperação do deserto naquela região da Terra Santa. Eram áreas completamente desertificadas. Transformaram-se em oásis. Trabalho inspirado também no funcionamento da organização israelense KKL (Keren Kayemeth LeIsrael), que desde o início do século 20 plantou algo como 200 milhões de árvores. Fiquei maravilhado. Percebi que precisava me engajar, fazer algo parecido aqui. Poderia, talvez, incentivar o plantio de árvores em áreas degradas. Chamamos especialistas, pedimos um projeto bem calculado para ver se daria certo. Nesta época nem se falava em neutralização de carbono. Acreditava que plantando árvores daria para ajudar a preservar as áreas degradadas. Fizemos as contas e não fechavam. Miguel Milano nos mostrou que apenas o plantio de árvores não era o melhor caminho. Por outro lado, vários bons projetos iam surgindo e batiam em nossa porta pedindo apoio. A Fundação nasceu assim: trouxemos especialistas para o conselho, começamos a apoiar bons projetos e lançamos outros reservando 1% da receita líquida de nossas vendas.

 

Sustentabilidade tornou-se apenas peça de marketing para alguns. Foi por isso que vocês entraram nesta “febre”?

 

Veja, começamos bem antes de virar esta febre atual. Concordo que tem muito modismo. Mas há projetos sérios, ações consistentes. A nossa Fundação tem 18 anos. Não é o nosso business. Praticamos desenvolvimento sustentável. Para nós, sustentabilidade faz parte de toda nossa filosofia. Está bem longe de ser só produto, embalagem ou marketing.

 

Mas tem muita empresa aí que parece praticar da boca para fora …

 

Vou responder de outra forma. Há trabalhos louváveis, importantes que estão revolucionando este país. E aí não estou falando apenas do nosso. Veja o caso da Vale. Eles têm uma Reserva Natural para preservar a Mata Atlântica lá no Espírito Santo. Como é próprio da atividade, poderiam apenas interferir na natureza e depois procurando recuperar. Mas estão ajudando na preservação. No nosso caso, temos a Reserva de Salto Morato, no Paraná e também a Reserva Natural de Salto do Tombador, no cerrado. Há também o Projeto Oásis, várias vezes premiado.

 

O Boticário nunca pensou em lançar um produto com este apelo de natureza, de sustentabilidade?

 

Como expliquei. Sustentabilidade faz parte de toda nossa filosofia. Há valores e crenças envolvidos. Praticamos e buscamos este objetivo em nosso dia-a-dia: com nossos empregados, com os fornecedores, com os consumidores, com a rede de franqueados….Temos uma grande rede de franqueados espalhados por vários pontos do país. Tenho pensado nisso: pode ajudar a criar uma rede compromissada com o planeta. Acreditamos que este é um conceito de sustentabilidade para toda a cadeia produtiva. É muito mais sério e difícil de ser praticado do que apenas pensar em lançar um ecoproduto.

 

Vocês participam, por exemplo, da discussão sobre o aquecimento do planeta?

 

Este é um tema que nos preocupa muito. Temos excelentes especialistas no Conselho da Fundação. Um em cada área de pesquisa. Nos ajudam a entender melhor o cenário atual. Precisamos ajudar a preservar o planeta, ajudar a preservar espécies e nossas vidas. Pense no caso de alguém com febre, por exemplo. Se está com 38 graus sente os efeitos da temperatura alta. Imagina o que está acontecendo com a Terra e com as espécies. É nisso que precisamos pensar e agir.

 

O que é, para o senhor, desenvolvimento sustentável?

 

A Fundação tem o projeto Oásis. O Projeto Oásis procura fortalecer a proteção de remanescentes de Mata Atlântica e ecossistemas associados na Área de Proteção aos Mananciais da Região Metropolitana de São Paulo, especificamente na bacia hidrográfica da represa de Guarapiranga, e nas Áreas de Proteção Ambiental municipais do Capivari-Monos e Bororé-Colônia. É uma área bem grande. Os pequenos fazendeiros são pagos por serviços florestais, para preservar este manancial estratégico. Isso é desenvolvimento sustentável na prática, entende? Vai muito além do que apenas falar de sustentabilidade. A hora de mudar o modelo é agora.

 

Mudar o modelo, como assim?

 

Veja esta crise financeira recente. Toda esta turbulência, a grave crise global veio mesmo para sacudir. Havia uma ganância desenfreada, uma busca incessante por lucro e desenvolvimento a qualquer custo. Não dava para continuar assim. A hora é de parar, refletir, repensar e mudar o modelo. Claro, é para dar lucro, para gerar riquezas. Mas é preciso ter preocupação socioambiental.

 

O britânico Nicholas Stern, especialista em mudança climática, disse algo nesta linha, mas não exatamente com estas palavras, em recente viagem ao Brasil. Afirmou que é hora da economia verde florescer. Stern acha que investir no combate à mudança climática, principalmente, ajudará a tirar o mundo da atual crise financeira internacional. Ele diz que as novas tecnologias de produção de energia limpa, como eólica, solar, geotérmica e biocombustíveis, vão gerar emprego em massa.

 

Concordo. Por isso digo ser preciso repensar mesmo o modelo. Falei há pouco sobre a questão d clima. Veja outro exemplo, é necessário também pensar em novas formas de consumo. Lidamos com beleza, isso é importante para ajudar a passar a crise. Nossas vendas se mantiveram e agora, com o Natal, devem crescer. Mas vamos pensar em consumo ético, em um novo modelo. Alguém acredita que é realmente preciso ter várias camisas e 50 pares de sapatos no armário? Não é hora de repensar o que viemos fazer aqui neste planeta?

 

Como seria este novo modelo, na sua visão?

 

É possível sim distribuir melhor a riqueza, se preocupar e fazer algo pelos países mais pobres, crescendo sempre de forma sustentada. Este seria um novo modelo econômico mundial. O que estávamos vivendo era fruto de uma bolha, de alavancagem financeira e pressões por mais e mais lucro. Somos inquilinos e não donos do planeta. Por isso é preciso atuar, participar de um modelo sustentável. Senão, novas gerações passarão privações de recursos naturais ou até correrão o risco de não estarem aqui para contar esta história. Estamos fazendo a nossa parte. Se cada um fizer a sua, teremos um mundo melhor e mais justo.

 

 

 

 

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