O BAIRRO DA GLÓRIA SEGUNDO FREDERICO DALTON

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Junto a um carro estacionado na Rua da Glória, uma travesti se oferece. Ela parece ter alguma música animada na cabeça, pois sutilmente dá uns passos de dança. É que tem que parecer alegre. Ninguém pagaria por um programa com alguém triste. Surpreendentemente, no vidro de trás do carro estacionado perto dela, há um grande adesivo com a palavra “Jesus”. Talvez, o próprio Homem de Nazaré esteja dentro daquele carro, encurralado pela perdição do mundo. Ou quem sabe a “moça” de lado de fora seja ele mesmo, transfigurado. Nunca saberemos.

Aconteceu em frente ao Dejeneur sur l’herbe, o famoso quadro no Museu D’Orsay. Um homem alto, calvo e de óculos de repente começou a vociferar em português do Brasil: “Vocês vieram aqui para ver os quadros ou para conversar? Sabem o que é um museu? Já foram a algum museu na vida? Que horror! A feira livre do meu bairro é mais calma que isso!” Vaias começaram a pipocar. Mas logo apareceram os seguranças.

“Você viu o cavalinho?” A pergunta me pegou de surpresa numa loja de sucos. Mas a senhora bem vestida e de olhar firme se afastou antes que eu respondesse. Aliás, o que eu poderia responder? Um cavalinho? Então, olho em torno de mim e o atendente, rindo da minha perplexidade, me explica que “Ela é a louca do bairro”. Como sou curioso, investigo e descubro que, por causa dela, algumas pessoas nas redondezas estão efetivamente vendo cavalinhos, pais voltaram a brincar de cavalinho com seus filhos e alguns casais que estavam brigados voltaram a namorar.

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