O QUE SIR MARTIN SORRELL TEM A DIZER? NADA.

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Por Carlos Franco

Sir Martin Sorrell, o poderoso cavaleiro da rainha Elizabeth II e comandante em chefe do maior conglomerado de comunicação comercial do mundo, o grupo WPP que nasceu Wire and Plastic Products, foi hoje a principal estrela do segundo dia do Maxmídia, evento anualmente promovido pelo Grupo Meio & Mensagem em São Paulo. De Singapura, onde está em viagem de negócios, Sorrell enviou um vídeo para alegria dos participantes do encontro e dos organizadores, lamentando não
estar presente, mas não poupando uma análise sobre o mercado atual de publicidade e propaganda. Mas o que diz Sir Martin Sorrell?. Nada.

Sorrell cultiva sempre o hábito de ouvir mais do que falar, de conhecer mais do que se deixar ser conhecido de seus lances sempre extraordinários nos quais exercita a sua capacidade empresarial, rara nos dias de hoje, de ver com olhos de lince o futuro que se descortina à nossa frente e, muitas vezes, nos atropela. O drama que certamente atormenta Sorrell é que muitas de suas tacadas, fruto de uma visão apurada, acabam sempre por esbarrar nas mastodônticas estruturas que acabou por criar, mas que ainda sim, em defesa de seus executivos, botam os chamados ovos de ouro, cada vez menos reluzentes, mas de ouro, metal caro aos britânicos e à London Metal Exchange que tanto os apetece.

Mas afinal, o que disse sem nada dizer Sir Martin Sorrell?. Na sua fala, como tem sido sua postura ao longo dos anos, verbalizou apenas o óbvio. A diferença é que o óbvio partindo do homem que comanda o Grupo WPP e seu colar de agências reluzentes, como Ogilvy, Young & Rubicam, K. Walter Thompson, Grey e muitas outras, ganha a notoriedade do tudo, encanta, sobretudo porque, assim, ele fala com pares aos quais prefere desviar o olhar daquilo que, de fato, está mirando a exemplo de uma lince bem treinada nos campos londrinos, guia sábia dos cavaleiros da rainha habilitados a defenderem o reino de vilões.

Sorrell verbalizou, como um mantra, a importância de uma visão mais horizontal dos negócios, pois sem ter uma visão única sobre eles, nada se pode por eles fazer, ver a planície onde está a casa e não apenas a casa e as suas dependências que é o que veem os apegados à lógica da verticalidade. Alguma novidade?. Voltou a alertar que a visão de curto prazo, tanto das agências como dos homens de marketing das empresas, em nada contribui para o fortalecimento das marcas. Novidade?.

Para motivar os grandes clientes globais, que mantém na carteira, também repetiu o famoso mantra de que se não investirem em suas marcas correm o risco de serem engolidos por marcas locais, mais ousadas e inovadoras. Pontuou ainda o elevado turn over, a troca de executivos de alto escalão nas grandes corporações, pois se conseguem a consagração no curto prazo, a falta de projetos para o médio e longo prazo é a credencial para um belo pé na bunda.

Sim. Martin Sorrell também falou dos avanços das plataformas digitais e também deu um recado de que é preciso parar de olhar para Nova York e olhar mais atentamente para a China, onde estão bilhões de consumidores que, ao contrário dos índios que os portugueses encontraram no Brasil quando nos descobriram, não estão muito interessados em espelhinhos e outras bugigangas. Isso eles já conhecem e com elas abastecem o mundo. Não é um fato ou produto novo o que os vai motivar a trocar suas moedas por produtos e serviços. É preciso, e esse outro mantra de Sorrell, conhecer a cultura desses bilhões de consumidores, o que os sensibiliza para evitar que a publicidade e propaganda caia no descrédito. Então, mais uma vez acabou por dizer que é preciso ter visão local, deixar de lado a regional, pois só assim se conseguirá impacto global. Esse mantra ele tem repetido, mas parece que muitos executivos, inclusive os que vivem dos recursos do Grupo WPP, fingem não ouvir, ou melhor, não entendem mesmo o que ele quer dizer. 

Sempre atento ao varejo, no qual sonhou construir seu império, a Wire and Plastic Products, criada em 1971 para produzir e vender cestas plásticas para supermercados, isso mesmo: cestas plásticas para supermercados, Sorrell tem outro hábito que cultiva: passear por grandes redes de varejo ao redor do mundo, analisando os produtos nas gôndolas. É assim que acaba dando dicas e opiniões aos grandes clientes que mantém na carteira. Nesses passeios, o que ele enxerga são as inovações que acabam por engolir marcas tradicionais. E se Sorrell deixou de produzir o lado físico, as cestas de plásticos, é porque naqueles idos percebeu que o marketing, as estratégicas mercadológicas, tinham maior valor do que os produtos em si. O incêndio de uma unidade que produzia bules, os britânicos não abrem mão culturalmente do chá, o levou a tomar a decisão de deixar de produzir produtos e ganhar dinheiro vendendo o produto dos outros.

Foi comprando agências pelo mundo que construir seu império WPP. Continua comprando. Enxerga longe, vê o despertar de novos negócios e novos nichos, mas, agora, acaba por levar esses novos negócios e novos nichos para a sua imensa estrutura, onde eles perdem o doce aroma da novidade e inovação.

Sorrell, no entanto, não desiste, sabe que é bom olheiro de oportunidades e bom pescador de almas criativas e segue em frente. Fala sem falar. Pensa longe, cada vez mais longe e guarda os seus segredos mais íntimos dentro de um cofre que protege sob a benção da rainha, como bom cavaleiro que é. E dorme quase sempre sorrindo, pois sabe que no dia seguinte lerá a mídia dando o recado que ele queria dar de forma amplificada, com seu segredo não revelado e bem guardado,que ele mostra apenas quando o alvo da caça já está em seu poder. É Sir Martin Sorrell, em tudo e em todos os, um verdadeiro Sir, que defende a rainha e guarda o seu ouro no cofre.

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