ÔNIBUS SEGUNDO FREDERICO DALTON

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Não existe dupla mais sem glamur do que Edson e Josenildo. Um é motorista, o outro é trocador. Vê-los trabalhando num ônibus velho e sujo, já no final de um longo expediente e transportando meia dúzia de passageiros mortos-vivos, é uma cena deprimente. Mas espere! Algo está prestes a acontecer. Primeiro os passageiros vão saltando um a um. Com o ônibus totalmente vazio, é a cidade que vai sumindo aos poucos. Finalmente, no meio de um deserto, eles param o coletivo, descem, e se encaram boquiabertos. Aí, avistam algo no horizonte. É uma dupla também. Figuras estranhas caminhando em direção a eles. Os desconhecidos param diante de Edson e Nivaldo, agora totalmente apavorados. Seriam dois motoqueiros perdidos? Estão de capacete. Não. É o Daft Punk.

Quando o cara sentado ao meu lado no ônibus foi embora, senti um vazio tão grande, que tive uma revelação: ele era a metade de mim que tinha estado tão junto e ao mesmo tempo tão distante durante toda a viagem, a metade que eu não conhecia e com a qual nunca conversei, apenas aceitávamos, ele e eu, sermos passivamente conduzidos a um lugar que julgávamos relevante. Depois que percebi ter sido reduzido a 50% de mim, compreendi que, se eu começasse finalmente a conversar comigo mesmo, eu voltaria a crescer.

De repente, o tresloucado motorista do ônibus quis saber onde cada passageiro iria saltar. Então, concluiu que poderia “voar” numa rota mais curta até o ponto final, talvez porque se sentisse entediado ou porque estivesse apostando corrida com alguém. Fechei os olhos e imaginei que, na verdade, ele estava milagrosamente nos resgatando em direção a um país onde não existisse este tipo de malandragem.

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