OS VERSOS SEGUNDO MACHADO DE ASSIS

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Nosso sempre brilhante cronista, autor de saborosas minificções, Frederico Dalton, entrou de férias, na verdade um período sabático, pois artista talentoso e multimídia, ele agora está se dedicando quase que integralmente à Galeria Transparente, no Rio de Janeiro. Ganha as artes visuais e perdem os nossos leitores. É o ciclo da vida, mas para não deixarmos o domingo passar em branco, já a partir deste, publicaremos saborosas crônicas de Machado de Assis, reveladoras de um Rio de Janeiro no século 19 e que conservam a vitalidade de quando foram publicadas.

Boa leitura.

 

1º. DE ABRIL DE 1863.

Um livro de versos nestes tempos, se não é coisa inteiramente disparatada, não deixa de fazer certo contraste com as labutações diárias e as gerais aspirações. E note-se que eu já não me refiro à censura banal feita às vistas burguesamente estreitas da sociedade, por meia dúzia de poetas, que no meio de tantas transações políticas, religiosas e morais, recusam transigir com a realidade da vida, e dar a César o que é de César, tomando para Deus o que é de Deus.

Eles dizem que essa mutualidade por transação do real e do ideal, em tais condições, abate a porção divina que os anima e os faz indignos da coroa de fogo da imortalidade. Têm razão. Mas as aspirações a que me refiro, qualquer que seja o seu caráter prático, não dispensam a intervenção do espírito, e então, não transigir com ela, é abrir um combate absurdo. Há quem diga com desdém que este século é do vapor e da eletricidade, como se essas duas conquistas do espírito não viessem ao mundo como dois grandes agentes da civilização e da grandeza humana, e não merecessem por isso a veneração e a admiração universal.

O que é certo, porém, é que em nosso país e neste tempo é coisa rara e para admirar um livro de versos, e, sobretudo um livro de bons versos, porque maus, sempre há quem os escreva, e se encarregue, em nome de outras nove musas, que não moram no Parnaso, mas algures, de aborrecer a gente séria e civilizada.

Veja, pois, o leitor com que prazer e açodamento venho hoje falar-lhe de uma coleção de versos e bons versos! O Sr. Augusto Emilio Zaluar, autor das Revelações, o volume a que me refiro, é já conhecido de todos para que eu me dispense de acrescentar duas palavras à opinião geral. As Revelações contêm muitas poesias já publicadas em diversos, jornais, mas conhecidas umas por uns, outras por outros, de modo que, reunidas agora, se oferecem, passe a expressão, ao estudo de uma assentada. Não intento, nem me cabe fazer juízo crítico da obra do poeta. Entendo que o exame de uma obra literária exige da parte do crítico mil qualidades e predicados que poucas vezes se reúnem em um mesmo indivíduo, havendo por isso muita gente que escreva críticas, mas poucos que mereçam o nome de críticos.

Dizer quais as impressões recebidas, como um simples leitor, não tão simples como o bufarinheiro, tenho a vaidade de supô-lo, eis aí a que me proponho e o que devo fazer sempre que por obrigação tenha de falar de algum livro. Este que tenho à vista tem direito a uma honrosa menção. Se há nele poesias a que se poderia fazer mais de uma censura, se em algumas delas a inspiração cede à palavra, há outras, a maior parte, tão completas que bastariam para coroar poeta a quem não tivesse já essa classificação entre homens. Na Harpa Brasileira encontramos uma parte destas.

A Casinha de sapê é um fragmento poético dos mais completos do livro. A inspiração desliza entre a expressão franca e ingênua como o objeto da poesia. O espírito acompanha o poeta por entre os bosques sombrios onde Uma casinha se vê Toda feita de sapê. O contraste da solidão com o ruído remoto do mar e do vento é descrito em poucos e lindos versos; a lembrança do passado, a descrição da casa abandonada e a melancolia do sítio, cantada em versos igualmente melancólicos, tudo faz dessa composição uma peça acabada. O Ouro, que se segue, é composição das mais conceituosas. O Filho das florestas dá em resultado uma conquista de verdadeiro poeta. Se o fundo não é inteiramente novo, a forma substitui pela concisão, pela propriedade e até pela novidade, uma dessas moralidades poéticas, próprias dos poetas pensadores que se distinguem dos poetas individuais em nos não cantarem eternamente as mesmas mágoas.

A família, A minha irmã, Confissão, etc.; são outras poesias que se destacam do livro por um mérito superior. De resto, tenho uma censura a fazer ao poeta, ou antes, são os seus admiradores que lhe fazem; e vem a ser, a de ter dado entrada no livro a muita poesia alheia. Se esse fato nos traz ao conhecimento pedaços de boa poesia, não é menos verdade que toma o lugar que poderia ser ocupado com igual vantagem pelo autor. O livro do Sr. Zaluar merece ser lido por todos quantos apreciam poetas. Marca grande progresso sobre o seu primeiro volume Dores e Flores e revela bem que o poeta chegou à maturidade do seu talento. Cifra-se nisto toda a bagagem literária da quinzena. Canta-se ou pensa-se a largos intervalos no nosso país.

Anúncio tenho eu de boas novas. As folhas do Maranhão dão como a imprimir-se uma tradução da Guerra Gaulesa feita pelo erudito e elegante escritor maranhense Dr. Sotero dos Reis. É excesso acrescentar uma palavra a esta notícia; o nome do tradutor é uma garantia da obra, como é uma das honras da terra de Gonçalves Dias, Lisboa e Odorico. Para não impedir o leitor de ir assistir aos ofícios da semana santa, devo concluir despedindo-me até depois da Páscoa. Avisam-me agora que o não faça sem inserir nestas páginas o seguinte bilhete. É de um amigo meu: “Boa nova! O Garnier abriu assinaturas para a publicação de um poema do padre Souza Caldas, obra encontrada nas mãos de um herdeiro de seus numerosos escritos, e inteiramente inéditos.” Satisfeito o pedido, convido o leitor a verificar por seus próprios olhos a notícia do meu oficioso correspondente.

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