REVELAÇÕES SEGUNDO FREDERICO DALTON

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Evitem a Glória, o lugar mais sinistro do Rio de Janeiro. E o segredo que revelarei agora fará de mim um homem marcado para morrer. Este bairro está dominado por bruxos. Em seus quarto-e-salas imundos e nas ladeiras mal iluminadas que levam à Santa Teresa, eles tramam e executam macabros sortilégios. Anciões de aparência bondosa, bebendo nos bares, apenas escolhem a próxima vítima para seus experimentos com poções letais. Um alquimista da Rua Benjamin Constant afirma ter uma carta de Leonardo da Vinci onde o gênio declara que não criou o Santo Sudário. Não foi à toa que o Papa fez um discurso aqui.

Hoje em dia, estúdios de rádio têm câmeras conectadas à Internet que permitem que se veja ao vivo o que acontece durante os programas. Que horror! Quanto a mim, trabalho à moda antiga, totalmente às escondidas. E enquanto escrevo, ninguém nunca verá o estado em que me encontro, a comida horrível que faço (geralmente deixando a metade num prato sobre o sofá), as drogas que consumo (sem nenhum glamour), e o que pratico com as partes baixas do meu corpo (sem nenhum amor). Tudo é tão degradante que nem minha literatura espelharia minha situação. Textos seguem regras e aspiram à permanência; a minha vida, não.

 

“Mas eu adoro sentir o gosto de cigarro na boca dele”, confessou Márcia a uma amiga. Só que seu marido estava parando de fumar. E Márcia se preocupava com isso. Já estava sentindo menos tesão por ele. E quando deu um pacote de Derby (“Sabor 100% Brasil”) como presente de aniversário ao porteiro do prédio, ela teve certeza que seu casamento em breve acabaria.

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