SORVETE SEGUNDO FREDERICO DALTON

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Sabe esses caras todo arrumadinhos (camisa social azul claro, calça bege) que depois do almoço passam tomando sorvete de casquinha na Praia de Botafogo? Eu odeio esses caras. Você vê eles assim, com um sorvetinho na mão e nem imagina o que eles aprontaram antes do almoço. Já fizeram fofoca, já puxaram o tapete de um colega, já mandaram funcionário embora. Desgraçados! Dispensam um pai de família e depois vão tomar sorvete de casquinha todos juntinhos. Ah, você não entende por que tenho tanto ódio desses caras? Foi um deles que me mandou embora bem antes do almoço. E hoje tenho que vender sacolé para sobreviver.

 

Edson e Ramiro tinham brigado. Mas o calor forte de hoje derreteu o orgulho dos dois. Encontraram-se por acaso numa fila para comprar sorvete. A constatação que tiveram esta necessidade infantil exatamente ao mesmo tempo quase os comoveu. Mas é verdade que, num primeiro instante, fingiram não se ver. Depois saíram andando juntos, cada um lambendo sua casquinha, e fizeram as pazes.

O tema da inveja que uma patroa sente da empregada não é nada que a literatura já não tenha abordado. Mas agora está acontecendo comigo. Ela sabe que meu marido me trocou por uma bem mais jovem. Ela sabe que eu sofro de insônia enquanto ela faz um sexo maravilhoso com o marido, o caseiro gostosão que nem olha para mim. E, pior que tudo, ela sabe que estou bem acima do peso e faz sorvetes maravilhosos para me acalmar.

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