UM PROFESSOR NOS CAMPOS DE REFUGIADOS

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Vivendo há 11 meses em um campo de refugiados no oeste da Etiópia, o professor Alnur Burtel resolveu construir um centro de ensino para capacitar adolescentes e jovens adultos, dando aulas de inglês e de educação para a paz. O docente fugiu em 2011 do Sudão.

Alnur Burtel em frente ao centro de ensino que ele mesmo construiu e onde atualmente ministra aulas para adolescentes e jovens adultos refugiados. Foto: ACNUR / D. Diaz

Alnur Burtel em frente ao centro de ensino que ele mesmo construiu e onde atualmente ministra aulas para adolescentes e jovens adultos refugiados. Foto: ACNUR / D. Diaz

Alnur Burtel já é um senhor de 71 anos, mas se lembra com clareza do quanto seus professores universitários no Sudão — seu país de origem — o estimularam a estudar para ter um futuro melhor. Vivendo num campo de refugiados há 11 meses na Etiópia, ele espera hoje desempenhar um papel semelhante ao de seus mestres para outros sudaneses vítimas de deslocamento forçado.

“A educação é essencial para a vida e para o desenvolvimento”, diz Burtel em frente ao Light Language Centre, o centro de ensino construído por ele mesmo e aberto em janeiro de 2016 em Sherkole, acampamento no oeste da Etiópia.

O docente dá aulas de inglês e educação cívica para adolescentes e jovens adultos refugiados — que representam 15% da população do campo — que não tiveram acesso a educação adequada nem a formação profissional. Para Burtel, quem não estuda está desperdiçando suas vidas.

Eu pensei: vamos alimentar essas
mentes. Se eu conseguir mudar
a vida de pelo menos um deles,
já vai fazer diferença.

“É hora de resolver essa situação. Esses jovens são o futuro de nossos países”, alerta. Quando ainda vivia no Sudão, ele dava aulas de inglês nas escolas locais e na Universidade de Omdurman. “Eu pensava: vamos alimentar essas mentes. Se eu conseguir mudar a vida de pelo menos um deles, já vai fazer diferença.”

Ao lado de outros dois professores, Burtel leva educação para 130 alunos. O aprendizado não se resume apenas ao ensino de línguas estrangeiras, mas inclui também noções sobre direito e sobre o que o sudanês descreve como “coexistência pacífica”. “Espero que os jovens transmitam mensagens de tolerância e que a paz prevaleça em nossos conflituosos países”, explica.

Além de dar aula de inglês, Burtel também ensina noções de direito, educação cívica e coexistência pacífica. Foto: ACNUR / D. Diaz

Além de dar aula de inglês, Burtel também ensina noções de direito, educação cívica e coexistência pacífica. Foto: ACNUR / D. Diaz

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) ajuda a gerir o campo de Sherkole, onde vivem cerca de 11,2 mil estrangeiros que tiveram de deixar seus países. A maioria vem do Sudão.

Apesar dos esforços para oferecer capacitação aos refugiados, o organismo internacional não tem recursos suficientes. O valor solicitado pela agência da ONU à Etiópia foi suprido apenas em 35%, o que gerou um déficit de 181 milhões de dólares no orçamento. A educação é colocada em segundo plano para dar aos deslocados forçados condições básicas de moradia, alimentação e saúde.

A sala de aula de Burtel recebeu dois quadros-negros e giz do ACNUR e da entidade do governo etíope dedicada a assistir refugiados.

Conhecimento multiplicado

 

Burtel é de Kauda, uma cidade localizada nas montanhas de Nuba, ao sul do Sudão, onde o conflito entre rebeldes e as forças do governo recomeçou em 2011. O dia em que ele e sua esposa fugiram, em junho daquele ano, ficou conhecido como “o dia em que as pessoas de Nuba foram massacradas”, ele se lembra com os olhos cheios de lágrimas.Seus dois tios foram assassinados e sua casa destruída.

“Eu deixei tudo para trás, exceto meu conhecimento. Eu sonho em desenvolver serviços de educação para os jovens. Eu os incentivo a trocar informações e isso ajuda a aumentar sua autoconfiança”, disse o professor.

Aos 27 anos, Emoel Yakub é um dos alunos do docente. “Com Alnur, não estou apenas aprendendo a falar inglês, mas também compreendendo que precisamos respeitar uns aos outros. Estamos nos tornando pessoas melhores e mais responsáveis e, assim, teremos chance de um futuro melhor”, conta.

O estudante tem levado adiante os ensinamentos do mestre e já compartilha o conhecimento que adquiriu com crianças refugiadas de Sherkole.

Burtel tem cinco filhos adultos, com idades de 21 a 35 anos. Todos eles estudaram no Quênia por meio de programas de bolsas e, atualmente, estão prestes a iniciar suas carreiras profissionais como professores, enfermeiros e agentes de desenvolvimento.

“Alnur inspira os refugiados a alcançarem seus sonhos por meio da educação, ao mesmo tempo em que oferece um sentimento de normalidade para suas vidas”, elogia o integrante da equipe de proteção do ACNUR, Sirak Sileshi. (Do Portal da ONU)

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