ZÉ DA PRAIA, O PESCADOR DE ALMAS

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Por Carlos Franco

Zé da Praia é um baiano, daqueles arretados capazes de cativar e conquistar seus interlocutores com humor e uma dose de irreverência ao tocar nos assuntos do sagrado e do profano e, por meio deles, comungar a fé e a esperança no futuro, sentado quase sempre no seu humilde banquinho de onde contempla o mar e as estrelas, na beira da praia em Salvador, Bahia. Ele está convencido, e o danado desse cabra da peste expressa isso no semblante e nos gestos livres, que tem uma vida plena e feliz, capaz de “alumiar”, como pode, os caminhos daqueles que param em frente a ele para um ou dois dedos de prosa nas noites em que Zé da Praia se faz matéria, nos terreiros, nas casas simples onde o encontro entre o sagrado e o profano se realiza sem cerimônias, na entrega ao outro, no abraço fraterno à beira do cais desse “mundão de nosso Senhor Jesus Cristo”.

Na sua tranquilidade baiana, na fala mansa, mas firme, Zé da Praia acaba por dar lições de humildade carregadas de profunda sabedoria. Acha graça dos templos que se espalham vendendo aos fiéis um Deus de prosperidade e ostentação em troca de que colem adesivos nos carros com frases do tipo “comprado por Deus”, atraindo, assim, mais e mais fiéis aos templos que vendem a prosperidade terrena em nome de Deus . “Deus?”, se pergunta e pergunta de novo: “Que Deus é esse que compra carros?. Que Deus é esse que compra mansões e até iates?. Esse Deus é torto, é o diabo”, diz sem esboçar nenhum escárnio, nem desrespeito aos que nisso, que ele vê como falácia, falsas promessas de falsos profetas, acreditam. Ele sabe que as contas a acertar desses crentes na ostentação e na falsa prosperidade, conquistada por meio de preces pagas, serão um dia, ainda que este dia demore a chegar, elevadas pois tanta ostentação sempre acaba em desgraça, terrena ou espiritual. É sempre corruptiva e destrutiva, “estraga o cabra”.

Zé da Praia recorre, assim, à linguagem clara dos cordéis daqueles sertanejos, baianos, que contam histórias com sabedoria e as dependuram em cordões para a venda nas feiras com palavras bonitas e rimas feitas. “O homem é sempre metade diabo, metade Deus. É corpo e é espírito. O corpo pede. O espírito também pede, “pede a paz de um sono tranquilo e um afago.” Quando ele está por completo, “ele é o templo, não precisa de templo, Deus vive e mora nele”. É, por isso, na visão de Zé da Praia, que o diabo fica tentando conquistar o que o corpo quer para desnortear o espírito, colocando minhoca na cabeça de todo mundo. Fica sugerindo um carro melhor ali, uma casa melhor aqui, uma comida cara e farta acolá e, assim, usando intermediários nesse jogo, vai despertando desejos em troca de prazeres terrenos. “De prazeres nada, é um empurrão num cabra para longe da luz, pois a luz está no fazer junto e junto compartilhar. É quem dá a quem tem fome, é quem dá a quem tem sede, é quem abriga o desabrigado que terá fartura e reconhecimento. Será rico, ainda que de pés descalços e calça remendada pois estará mais perto da luz e ela irradiará, ele é o farol, ele é o templo onde Deus fez sua morada”.

Essa gente que quer só acumular, diz Zé da Praia, acaba sempre numa espiral de querer mais, depois fica só no mundo e tem que comprar aquilo que perdeu, mas que não se compra: a felicidade que só as pessoas ao redor propiciam. “Ela nasce e vai se apequenando, nem adianta ter diploma de doutor em universidade estrangeira e falar a língua dos estrangeiros”, ela é a estrangeira dentro do seu próprio corpo, pois não enxerga o outro, não vê o outro, só o seu umbigo e o espírito vai minguando. É assim, garante esse matuto em sua profunda sabedoria, que o diabo tenta e, por vezes, consegue arrebanhar as almas que, depois vão ter que voltar para uma escola e a esta escola voltar de novo, porque Deus não reprova os filhos seus, apenas coloca à prova de novo até aprenderem a ver a luz que está tão perto, que é o outro e na comunhão com o outro, em si próprio. “E o inferno não existe, existe sim é o aprendizado, a escola e esta pode ser um inferno ao eterno repetente”, profetiza.

É, assim, nas noites de lua cheia, que Zé da Praia vai se aproximando das bases da filosofia e do coração latejante de Epicuro e de sua Carta sobre a Felicidade a Meneceu, onde o filósofo que viveu antes de Cristo diz que um pequeno pão pode tornar-se uma belíssima e sincera alimentação se temos fome e que o alimento não está na quantidade, mas no poder de satisfazer o apetite. E que a integridade com o mundo não está na propriedade, mas no prazer de poder desfrutar a natureza e a ela retribuir o desfrute com o devido cuidado para sempre ter como a ela recorrer – sustentabilidade é isso, nada mais que isso. Já o amor para Epicuro, como para o Zé da Praia, é vital por ser a mola que nos impulsiona, mas não aquele amor proprietário que é um passo para a violência, e sim o amor por completo, por inteiro nos momentos vividos, que logo serão passado, doces lembranças a pedir a realização de novas, a compartilhar com o outro e com ele se compartilhar de corpo e de espírito.

E, assim, nessas palavras do filósofo e na sabedoria do Zé da Praia, estaremos todos prontos para os sábados de Aleluia, para as ressurreições, pois se não podemos voltar atrás e arranjar e desfazer arranjos vis do passado, podemos iniciar hoje uma caminhada mais leve em direção à luz mesmo em tempos de trevas, envoltos em tenebrosas armadilhas. O amanhã sempre nasce, diz Zé da Praia, somos nós que temos que aprender a contemplá-lo e a olhar mais as estrelas e a imensidão do mar, o outro que está ao lado e deixar um pouco de lado nossos umbigos.

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