A ARTE FEMINISTA NO BRASIL

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Por Akemi Nitahara/Repórter da Agência Brasil

É possível, com facilidade, identificar os elementos feministas na arte de mulheres brasileiras, mesmo que nunca tenham se autoafirmado como representantes do movimento. A constatação é da artista plástica, escritora e pesquisadora Roberta Barros, responsábel pela organização do seminário Como falar de arte feminista à brasileira. O evento começou ontem (26) e prossegue até hoje (27) no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, na Praça Tiradentes, centro do Rio de Janeiro. A programação inclui mesas de debate, performances artísticas e o lançamento do livro Elogio ao Toque, da artista.

O livro é resultado de pesquisa de doutorado na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EBA/UFRJ).“As artistas estrangeiras são muito mais abertas para falar do tema, as obras recebem acentos muito diferentes. As brasileiras têm acentos para essas questões femininas e feministas, com estratégias muito mais delicadas, digamos assim. A minha hipótese é pensar o quanto que, ainda assim, se pode falar em feminismo ali, até porque não existe apenas uma abordagem sobre o tema. As americanas da década de 70, tinham um tom muito mais aguerrido, as inglesas da década de 80 já tinham um tom diferente”, afirma a escritora.

Para Roberta, apesar de mais presente na atualidade, o tema ainda é considerado polêmico e causa desconforto na área artística. “Eu sinto muita diferença da resistência que eu sofri lá atrás, quando comecei a propor todo esse projeto, para o momento atual. Vejo que as gerações mais novas têm uma abertura maior, principalmente no campo do teatro e da dança, têm uma abertura maior para falar diretamente nesses termos. No campo da arte contemporânea, eu ainda sinto um certo desconforto. Mas mesmo que uma artista não se declare feminista ou não declare que o trabalho é feminista, ainda assim, o trabalho tem um discurso embutido que permite uma leitura a partir dessa base filosófica.”

A artista cita a pesquisa de Ana Mae Barbosa, que fala da misoginia e resistência à mulher no mercado das artes visuais no Brasil. “Quando a gente fala de Anita Malfati, Tarsila do Amaral, Lygia Clark, Lygia Pape,  tem um espaço conceitual, mas pouca leitura dessas obras é feito sob o olhar do tema do feminismo. São analisadas com o olhar formalista, teoria de cor, de forma. Eu identifico que não é só a figura da mulher que recebe uma certa resistência, mas, mesmo quando elas entram no mercado, há uma tendência a não tocar nesse tema tabu”, disse Roberta.

Ana Mae participa, na tarde de hoje, 27, da mesa “Você era homem, Mondrian, lembra-se?”, que propõe um debate a partir de um texto de Lygia Clark, de 1959. Para ela, a arte feminista brasileira pode ser caracterizada pela exploração e discussão do cotidiano da mulher e sua cultura popular. Mas, para ela, as artistas brasileiras ainda têm dificuldade de se assumir feministas.

“No fim dos anos 90, fiz uma das primeiras exposições feministas, que era um diálogo entre artistas mulheres dos Estados Unidos e do Brasil. No Brasil, a maioria das mulheres se recusou a participar da exposição, porque não queriam se ver com o rótulo de feminista. “O argumento era terrível: só usam esse rótulo mulheres que não têm talento e, então, querem se valer por essa veia política feminista, mas eu sou tão importante quanto os homens e não quero me ver com esse rótulo’. Para mim não é um problema de rótulo, feminismo é uma posição política sim, de luta por igualdade de direitos, igualdade de visibilidades”.

Especialista em arte-educação, Ana Mae considera que a consciência feminista tem crescido no Brasil, porém ainda são poucos os avanços. “É muito pouco ainda, mas eu acho que essa nova geração vai dar essa resposta. No Brasil, a gente teve primeiro um feminismo envergonhado, depois um feminismo zangado, passou por uma fase de negação do feminismo e eu vejo uma geração agora de um feminismo construtivo: ‘estamos aqui, temos uma forma de pensar e agir diferente e essa diferença a gente quer mostrar. E as semelhanças também, queremos o diálogo”.

Para quem argumenta que o feminismo é anacrônico e propõe uma divisão, onde só existe unidade de ações, ela é enfática: “É um argumento para se perpetuar o poder masculino sobre as mulheres, negando você não está vendo a realidade, porque a coisa continua até hoje. É do cotidiano, você não quer ver. Afirma uma coisa dessas é não querer ver”, afirmou

Entre 13h e 15h de hoje serão apresentadas as performances “6 Minutos”, de Camila Bacellar; Make Over, de Daniela Mattos; e Práticas Rosas, Sandra Rodrigues. A mesa com Ana Mae começa às 17h e tem a participação de Cristina Salgado.

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