DIÁRIO DO GOLPE: “INDEPENDÊNCIA OU MORTE” PELA DEMOCRACIA

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Hoje, 7 de setembro, comemora-se o famoso grito de Dom Pedro I às margens do rio Ipiranga, em São Paulo, que selou a independência do Brasil do então império português. Data que será celebrada em diversas regiões por um novo grito em defesa da democracia e do voto direto: #FORATEMER. E para celebrar, sem esconder nossa tristeza com este momento dramático da vida nacional, publicamos o depoimento daqueles filhos desse país que não fogem à luta como nos lembra o Hino Nacional e enfrentam com a vida a defesa dos valores mais caros à Nação. Uma leitura que é também um convite à reflexão em torno desses dias sombrios que vivemos.

Por Emerson Lopes

Há uma semana, carrego resquícios diários e doídos das bombas de efeito moral e gás lacrimogênio na pele, no coração, na mente e na alma. Talvez não existam sabonete, água ou sessões de eletrochoque que apaguem por completo as marcas destes dias tão estranhos. Sendo honesto, não sei por qual motivo. O fato é que tenho aceitado o desafio de viver. Talvez na esperança de encontrar uma solução, um desempate para minha vida dentro do Brasil, dentro do mundo. E, quem sabe, o país e o planeta não melhorem neste ínterim?.

Embora os fatos e as ditas verdades externas não demonstrem mais do que um abismo imediato, tenho nadado contra corrente. Uma aposta na bondade com prudência. E foi assim, na mão contrária que eu me fiz presente na avenida Paulista na tarde deste domingo, 4 de setembro de 2016. Enquanto toda aquela gente já caminhava no sentido da rua da Consolação, parei. Hora no meio fio. Hora na ciclovia, para fotografar o mundaréu que formava uma correnteza amigável em minha direção. Postura sintomática a minha, penso enquanto escrevo.

Ali, vários rostos famosos. Assim como outros. Famosos anônimos, meus conhecidos de vista de filas de cinema, teatro, mesas de cafés ou corredores de livrarias e universidades. Foi um sentimento bom, ainda que breve, de pertencimento.

Minha tribo de anônimos estava ali. Assim como eu, estavam sem faixas, bandeiras ou palavras de ordem. Talvez estivessem ali por acreditarem na democracia e em um Brasil para além dos estereótipos, das capas de jornais, das primeiras páginas da internet brasileira, do Jornal Nacional e das capas de revistas. Claro. Grupos organizados também ocupavam a avenida. E todos -agrupados e desagrupados- conviveram pacificamente durante o ato.

Injusto não citar que eu estava acompanhado de um casal amigo. Ele, historiador e professor. Ela, arquiteta. Depois de fazer a história de alma e corpo presente, fomos os três ao cinema dar um presente para o corpo e a alma. “Aquarius”. Filme? Manifesto político? Posição ideológica? Expressão de resistência? O Brasil contemporâneo contextualizado na sétima arte? Marketing de ocasião? Globo Filmes? Walter Salles? Cacá Diegues? Talvez tudo isso. E talvez nada disso. Ao mesmo tempo.

A maior sala do Caixa Belas Artes quase lotada para a sessão das 19h20, mesmo sob o risco de confronto entre polícia e manifestantes, algo comum nos últimos atos de rua. Um funcionário do complexo disse-me que todas as sessões de sábado de todas as salas tiveram lotações esgotadas. Para este domingo, de céu cinza e temperatura amena, e manifestação entre o Masp e o Largo da Batata, em Pinheiros, a audiência da Sala Vila-Lobos vaiou o início da exibição, quando o logo da Globo Filmes apareceu na tela, como questionou o jornalista, crítico e dramaturgo Oswaldo Mendes. Depois, foi responsável por silêncio e risos durante a projeção. E, ao término da sessão, respondeu à obra de Kleber Mendonça Filho com aplausos calorosos.

Sim. A metáfora filme brasileiro-realidade brasileira é possível. Mas ficar no tripé linguagem-ideologia-política pode ser uma postura reducionista diante do longa, como apontou de forma certeira o crítico José Geraldo Couto. Não encontrei sinais de panfletagem política ou ideológica em “Aquarius”. Talvez estes pontos estejam mais na órbita do filme do que em seu interior. Pude, isto sim, assistir a uma obra feita com esmero, com direção correta e sem exageros estilísticos pretensiosos. Um design de produção muito eficiente e trilha sonora cuidadosamente escolhida. Os figurinos e locações, certeiros. A direção de atores de muita competência. E -algo que tem sido mais exceção do que regra no cinema brasileiro- um roteiro que respeitou, senão abrilhantou um ótimo argumento.

Claro que o diretor e roteirista trouxe uma análise crítica da realidade brasileira ao contar a história de Clara, interpretada por Sonia Braga. Mulher que, a esta altura da vida, apenas não quer ser incomodada. Talvez por isso, o olhar de Kleber Mendonça Filho tenha potência atemporal. Não se resume, portanto, ao Brasil dos dias de hoje, inserido em uma guerra silenciosa, fria e calculista. Agora atrás da câmera, o ex-crítico de cinema -não apenas por meio da voz de Clara, mas de praticamente todos os personagens- parece dizer que não há nada de novo nos valores da sociedade brasileira dos dias de hoje. Qual o ineditismo da insatisfação? A desconfiança em relação ao próximo é novidade? E o que dizer da descrença que a realidade, cada vez mais desnudada diariamente, nos traz?.

Diante de tudo isso, o cansaço. Diante de tudo isso, o desânimo. A falta de vontade. Porém, é neste desarmamento involuntário das armadilhas da vida nacional. É neste strip-tease político-ideológico-partidário- eleitoral diário que os personagens de “Aquarius” parecem, não lutar, mas resistir. Tal qual os milhares que caminharam algumas horas entre a avenida Paulista e o Largo da Batata, em São Paulo, neste domingo. Dia que já pode ser chamado de histórico para a infante -até quando?- democracia brasileira. (ELS).

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