Mamãe faz 100 anos

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A caricatura de Darcy Gonçalves, criada por Marcos Quinho de Souza, fez sucesso no 24º Salão Internacional de Humor de Piracicaba, em 1977. Passados 30 anos, Dercy Gonçalves continua a mesma: a própria imagem da alegria e apagou hoje, como num antigo filme de Carlos Saura, 100 velinhas. Mamãe faz 100 anos: a mãe da comédia brasileira e dá uma lição de vida, ao deixar claro que a alegria é o que nos mantém vivos. Muito vivos.

Tanto que a pequena cidade de Santa Maria Madalena, no interior do Estado do Rio de Janeiro, parou hoje, dia 23 de junho de 2007, para cantar parabéns para sua mais ilustre cidadã. A mãe da comédia brasileira não fez por menos e não perdeu a classe, ou melhor, a perdeu em benefício do riso e da alegria. Dercy sobrou as velas, mostrou as pernas, falou palavrão, como era de se esperar e disse que lavou a alma ao chegar aos 100 anos de vida.

Em muitas frases e depoimentos, Dercy Gonçalves cunhou uma que resume a sua vida:

“Quem me criou foi o tempo, foi o ar. Ninguém me criou. Aprendi como as galinhas, ciscando, o que não me fazia sofrer eu achava bom”.

A sua trajetória é a própria trajetória da comédia brasileira, como se pode conferir na biografia da atriz, que consta da Enciclopédia Itáu Cultural de Teatro. Veja:

“Dolores Costa Gonçalves (Santa Maria Madalena RJ, 23 de junho de 1907). Atriz. Dercy Gonçalves pertence a uma categoria especial de ator, dos grandes comediantes populares puramente intuitivos. Atriz do teatro de revista e posteriormente dedicada a shows solitários, é o maior expoente do teatro de improviso no Brasil.

Estréia em 1929, na cidade de Leopoldina na Companhia Maria Castro, fazendo dueto com Eugênio Pascoal. No ano seguinte, viaja pelo interior dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, apresentando-se em dupla com Eugênio Pascoal, como Os Pascoalinos. No Rio de Janeiro, faz carreira no teatro de revista na década de 30 e, nos anos 40, trabalha para a empresa de Walter Pinto em espetáculos como Rumo a Berlim, de Freire Jr. e Walter Pinto; Passo de Ganso, de Freire Jr., em 1942; Rei Momo na Guerra, de Freire Jr. e Assis Valente, 1943; Momo na Fila, de Geysa Bôscoli e Luiz Peixoto, 1944; e Canta Brasil, de Luiz Peixoto, Geysa Bôscoli e Paulo Orlando, 1945; todos com direção de Otávio Rangel. Nos anos 50, quando a revista já não atrai o mesmo público, dedica-se à comédia.

Nos espetáculos em que atua, Dercy se sobrepõe ao texto, nunca representando a personagem, mas fazendo com que esta se amolde a ela. O restante do elenco se converte em apoio aos improvisos da diva popular, reduzindo-se ao papel de coro. Este procedimento é alvo de críticas, que, no entanto, não abalam o direcionamento da atriz.

A partir do final dos anos 60, Dercy abandona a dramaturgia, para recorrer a um formato mais próximo ao show, em que ela tem papel solo. Inicialmente, alguns autores são chamados a escrever sob encomenda. Depois, a própria atriz assina roteiro e direção. O nome dos espetáculos muda, mas seu conteúdo e sua forma são sempre idênticos: solos de Dercy Gonçalves com sua comicidade bufa em diálogo direto com o espectador, sem personagem, feito de uma seqüência de piadas e tiradas cômicas. O palavrão tem uso recorrente, o que faz o crítico Sábato Magaldi observar que, nos espetáculos da atriz, o palavrão aplaudido tem função de ária de ópera.

Em cinema, atua em Samba em Berlim, direção de Luís de Barros, 1943; Abacaxi Azul, direção de J. Ruy (Ruy Costa), 1944; Caídos do Céu, direção de Luís de Barros, 1946; Uma Certa Lucrécia, direção de Fernando de Barros, 1957; A Baronesa Transviada, direção de Watson Macedo, 1957; A Grande Vedete, direção de Eurides Ramos, 1958; Cala Boca Etelvina, direção de Eurides Ramos, 1959; Só Naquela Base, direção de Ronaldo Lupo, 1960; Com Minha Sogra em Paquetá, direção de Saul Lachtermacher, 1961.

Em 1985, a atriz recebe o Troféu Mambembe como melhor personagem de teatro, uma categoria criada especialmente para ela que, em setenta anos de carreira, não conquistou nenhum prêmio por seu desempenho de atriz. Os críticos vêem dois lados de abordagem de seu trabalho: o lado do sucesso fácil e o da autenticidade. Yan Michalski, quando a atriz anuncia seu afastamento dos palcos, em 1971, escreve:

“Não é este, por certo, o teatro popular que eu gostaria de ver florescer no Brasil: a obstinação de Dercy em ver o público das chamadas camadas menos privilegiadas como algo de irremediavelmente primário; a sua recusa em contribuir para que esse público fosse levado sequer um passo na direção da conscientização; a sua ojeriza a qualquer idéia de renovação – tudo isso caracteriza uma posição revoltantemente reacionária”.1

Já o crítico Sábato Magaldi aborda o estilo da atriz pelo lado da assumida marginalidade:

“Imperceptivelmente, começa-se a sentir por que Dercy sintoniza tanto com o público. Ela assume a própria marginalidade, erigindo-a como um troféu. O povo brasileiro também, por circunstâncias históricas, políticas e econômicas, acabou sendo marginalizado, ainda que ostente o emblema da completa soberania. Dercy perseguida, incompreendida, marginalizada, mas dando a volta por cima, no deboche e no sarcasmo, confunde-se com a efígie não expressa que parcela ponderável da população tem a seu próprio respeito. O riso provoca a catarse. (…) rindo, se aprende com ela uma profunda lição de brasilidade”.2

Notas

 

1. MICHALSKI, Yan. Despedida demagógica. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 27 abr. 1971.

 

2. MAGALDI, Sábato. A marginalidade erigida em troféu. Jornal da Tarde, São Paulo, 26 mar. 1983. Divirta-se.


Uma resumida e pequena fimografia de Dercy Gonçalves, a mulher de mais de 300 fimes:

2000 – Célia & Rosita (curtametragem)
1993 – Oceano Atlantis
1983 – O Menino Arco-Íris
1980 – Bububu no Bobobó
1970 – Se Meu Dólar Falasse
1963 – Sonhando com Milhões
1960 – Com Minha Sogra em Paquetá
1960 – Dona Violante Miranda (Violante Miranda)
1960 – Só Naquela Base
1960 – A Viúva Valentina (Valentina)
1960 – Entrei de Gaiato (Anastácia da Emancipação)
1959 – Minervina Vem Aí (Minervina)
1959 – Cala a Boca, Etelvina (Etelvina)
1958 – A Grande Vedete (Janete)
1958 – Uma certa Lucrécia (Lucrécia)
1957 – Absolutamente Certo (Bela)
1957 – A Baronesa Transviada (Gonçalina)
1957 – Feitiço do Amazonas
1956 – Depois Eu Conto
1948 – Folias Cariocas
1946 – Caídos do Céu (Rita Naftalina)
1944 – Abacaxi Azul
1944 – Romance Proibido (Dercy)
1943 – Samba em Berlim

Televisão
1996 Caça Talentos
1992 Deus nos Acuda – Celestina
1990 La Mamma – Mamma
1989 Que Rei Sou Eu? – Baronesa Eknésia
1980 Dulcinéa vai à guerra – Dulcinéa (Rede Bandeirantes)
1980 Cavalo Amarelo – Dulcinéa (Rede Bandeirantes) – Troféu Imprensa de Melhor Atriz (empate com Dina Sfat.)

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