Morre o dono da Folha de S. Paulo

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O corpo do dono da Folha de S. Paulo, Octavio Frias de Oliveira, será sepultado hoje, dia 30 de abril de 2007, às 12 horas, no cemitério Gethsêmani, onde está sendo velado à Praça da Ressurreição, 1, Jardim Colombo, São Paulo. Frias morreu na tarde do domingo, dia 29. Ele tinha 94 anos e já havia comandado a sucessão no Grupo Folha, com Octavio Frias Filho no comando da redação, e Luiz Frias, na área comercial do grupo.

O homem que apoiou a ditadura militar, assim como Roberto Marinho, cresceu no terreno editorial no final dos anos 60, mas foi a virada da Folha em 1984, quando decidiu apoiar as Diretas, o que aproximou o jornal, de tendência conservadora, de um público mais jovem e o permitiu crescer e passar uma idéia de modernidade em relação ao seu principal concorrente, O Estado de S. Paulo. Nessa época da virada, de um jornal caracteristicamente conservador – até mais que o Estado -, num veículo mais contemporâneo e mais próximo de formadores de opinião e jovens, lançou a campanha de “rabo preso com o leitor” e, por meio das páginas da Ilustrada, passou a abrir espaço para manifestações culturais alternativas, se aproximando ainda mais dos modernos.

A memória que fica do homem que ganhou dinheiro com granjas de aves e investiu pesado na Folha é a que está nos livros. Portanto, vamos a eles.

No livro “A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira”, o autor Engel Pashoal traça, na introdução, um breve perfil de Frias. Veja:

 

O meu tipo inesquecível de todos

Terno cinza, camisa branca, gravata cinza, cabelos brancos, óculos, olhos perscrutadores.

Calça escura, camisa branca, malha vinho (apesar do calor), cabelos brancos, óculos, olhos perscrutadores.

Até escrever este livro, tinha visto Octavio Frias de Oliveira apenas duas vezes na vida. Mais de trinta anos separavam a primeira da segunda vez. Na primeira, eu o vi a cerca de dez metros. Na segunda, a menos de um. Na primeira, não trocamos uma palavra. Na segunda, falamos por meia hora. Na primeira, eu estava na Redação da Folha e o vi de pé, junto de Cláudio Abramo, Antonio Pimenta Neves e Alexandre Gambirasio. Na segunda, eu estava na sala dele, no 9º andar do prédio da Folha, junto com Otavio Frias Filho, Lucila Cano e Eduardo Ribeiro. Na primeira, eu estava trabalhando na Folha. Na segunda, eu o estava entrevistando para este livro.

Meu primeiro contato com a Folha se deu em meados dos anos 60, bem antes de eu ouvir falar de Octavio Frias de Oliveira. Eu estudava no Seminário Menor Diocesano, em São Carlos, interior de São Paulo. Fernando Saroni, professor de português, mostrou um exemplar da Folha. Na primeira página havia, no título de uma chamada, a palavra “pedida”. Foi a primeira vez que vi as duas: a Folha e a palavra. O professor usou o jornal para dar uma aula sobre neologismos. Meses depois, ali mesmo em São Carlos, fui assistir a uma palestra, se a minha memória não falha, de Flávio Barros Pinto e Emir Macedo Nogueira, que eram da Folha. Fiquei alucinado, ouvindo-os contar como era o jornal e que lá não trabalhavam dois jornalistas muito conhecidos na época: Mister Cola e Mister Gilete. Isso para dizer que a Folha não fazia algo comum: recortar notícias de outros jornais e colá-las em laudas, que eram enviadas para os linotipistas copiarem e depois serem colocadas como notícias do próprio jornal.

Dois anos depois, eu já tinha deixado o Seminário e terminava o último ano do então curso clássico em Catanduva, a quatrocentos quilômetros de São Paulo. Isso porque Urupês, minha cidade natal e a apenas trinta quilômetros de Catanduva, não tinha ainda o curso. Um amigo meu era repórter do jornal local e nós dois queríamos trabalhar na Folha. Soubemos que o jornal estava contratando e pegamos um ônibus para São Paulo. Depois de viajar a noite toda, descemos na rodoviária (nem sabia que o sr. Frias a havia construído, junto com o sócio Carlos Caldeira) e fomos para a Folha. Nenhum dos dois conhecia bem São Paulo. Nos perdemos e, no largo do Arouche, perguntamos pela localização do jornal, que, nos indicaram, já tinha ficado para trás. Fizemos uma ficha, mas infelizmente não conseguimos o emprego. Anos depois, eu entrei na Folha: foi quando vi o sr. Frias e ouvi falar dele pela primeira vez.

Mas estivemos sempre próximos. Bem depois de sair da Folha e de trabalhar em outros jornais, eu era redator de propaganda e fui trabalhar na então Norton Publicidade, na rua General Jardim, 482, no mesmo prédio onde o sr. Frias tinha a Transaco.

Nos mais de trinta anos entre essas duas vezes que o vi, Octavio Frias de Oliveira construiu com persistência e sabedoria, que inclui escolher os homens certos nos momentos certos para os cargos certos, o jornal que há mais de vinte anos se mantém como o primeiro do país. Mas, antes disso, ele já havia construído muita coisa.

Segundo Otavio Frias Filho, o pai “pertence (e graças à longevidade é um dos poucos remanescentes) a uma geração de empresários modernizadores que se projetou no pós-guerra (1945). Foram pioneiros, self-made men, homens dedicados a uma disciplina de trabalho, poupança e reinvestimento. Foi a primeira geração de empresários brasileiros cuja inspiração eram os Estados Unidos, não mais a Inglaterra. Foi também a primeira a empregar métodos racionais de administração, tais como planejamento associado a metas predefinidas, controle de custos, treinamento de pessoal, uso intensivo da publicidade etc.”.

Nos anos 40 e 50, seu pai “esteve no âmago de duas atividades modernizadoras. Uma delas foi a das grandes incorporações imobiliárias, das quais o símbolo em São Paulo seria o Copan. O país começava a contar com um sistema bancário integrado e forte, apto a financiar projetos que se beneficiavam da urbanização acelerada. Não discuto os efeitos positivos e negativos dessa urbanização às vezes desenfreada, mas não tenho dúvida de que ela teve função de relevo na modernização do Brasil. A outra atividade inovadora foi a do então incipiente mercado de títulos, a que meu pai se dedicou por meio de uma pequena empresa chamada Transaco. Essa empresa foi uma espécie de plataforma de empreendimentos posteriores, como a estação rodoviária e a própria Folha”.

A partir dos anos 60, Octavio Frias de Oliveira converteu um hobby de fim de semana numa empresa avícola de porte que teve atuação tecnológica de vanguarda no setor, tomando parte, assim, na primeira onda do que viria a ser chamado de agronegócio no Brasil. Para o filho Otavio, a transformação dos dois alqueires e meio que o pai havia comprado em 1954, em São José dos Campos, a pouco mais de 100 quilômetros de São Paulo, para passar os fins de semana, na Granja Itambi é um bom exemplo de que, na verdade, o hobby dele é o trabalho.

Aos cinqüenta anos de idade, Octavio Frias de Oliveira reinventou sua vida profissional ao ingressar, quase por acaso, no setor das comunicações.

“À semelhança de Roberto Marinho e Victor Civita”, diz Otavio, “meu pai ajudou a trazer uma mentalidade de empresa ao ambiente senhorial, précapitalista, da imprensa da época. As empresas jornalísticas passaram a ser menos um instrumento de poder político e prestígio mundano (quando não de negociatas) para se tornarem efetivamente empresas –voltadas a atender as demandas do público consumidor a fim de ampliar seus mercados e margens de lucro. Empresas mais profissionais propiciaram, por sua vez, a profissionalização do jornalismo, até então um trabalho irregular caracterizado por ‘bicos’, duplo ou triplo emprego e diletantismo.”

Há uns 20 anos coleciono informações sobre jornalistas e empresários ligados aos meios de comunicação. Tenho mais de quinze mil, vinte mil nomes, sei lá, dezenas deles da Folha ou que já passaram por ela. Mas não tinha uma linha sobre Octavio Frias de Oliveira, mesmo lendo a Folha há anos.

Ele é avesso a aparecer. Por outro lado, todo mundo conhece o sr. Frias. O Vico, que corta meu cabelo e minha barba há uns 25 anos, trabalhou num salão de barbeiro na estação rodoviária. E lembra do sr. Frias. Sérgio Reis, que teve grandes idéias para o Bamerindus, inclusive aquela série “Gente Que Faz”, de depoimentos para televisão e rádio, e assessorou o governo FHC, tinha dezessete anos quando foi trabalhar na Transaco.

Para o filho Otavio, “o aspecto talvez mais notável da atuação de meu pai à frente da Folha ficou mais evidente a partir de meados dos anos 70, quando o país ensaiava os primeiros passos da abertura política (e Caldeira se mostrava mais desinteressado em relação ao jornal). Meu pai constatou que, apesar da recuperação financeira e do avanço industrial realizado na Folha, em termos de imagem em meio às elites e de faturamento publicitário, ela continuava muito aquém de “O Estado de S. Paulo”. Ele concluiu que um jornal, se aspirasse à liderança, precisava desenvolver certa qualidade editorial que atraísse não apenas mais leitores, mas granjeasse credibilidade e com ela os grandes anunciantes. Essa qualidade editorial ele passou a chamar de ‘independência’, que se tornou uma obsessão nele a partir de então”.

A Folha se fez “um jornal mais atuante, mais crítico, mais incômodo. O jornal passou a ter opinião definida –não apenas a sua própria, como era habitual, mas opiniões de todo um elenco de colunistas e colaboradores, divergentes entre si. Esse traço de pluralidade radical, que se tornou marca registrada da Folha e um valor cultivado (ao menos nominalmente) pela imprensa brasileira como um todo, não tenho dúvida em atribuí-lo à influência direta de meu pai. Com a ajuda decisiva de Cláudio Abramo, meu pai projetou sua própria personalidade aberta, informal, não-dogmática, amiga da controvérsia, nas páginas do jornal. A Folha passou a ser conhecida no mundo da mídia como jornal aguerrido, polêmico, sem ‘listas negras’, assuntos tabu ou ‘amigos da casa’. Um afastamento ostensivo de governos, grupos de poder e partidos políticos passou a dar a tônica política do jornal, ilustrada numa frase que meu pai costuma repetir: ‘Do governo só queremos distância’.

Do ângulo político-ideológico, meu pai sempre foi um entusiasta da livre iniciativa e do progresso técnico, embora sua propensão, pouco afeita à teoria, esteja voltada às soluções práticas. Do ponto de vista religioso, ele é agnóstico. Como pai, sua pedagogia foi baseada numa crença intuitiva na tolerância e no costume de tratar as crianças como seres pensantes, aptas a compreender e assumir responsabilidades. É uma das pessoas menos moralistas que conheço (apesar de seus hábitos puritanos) e também é uma das que menos valor confere a hierarquias, ritos e noções convencionais. Sempre foi franco, informal e bem-humorado. Sempre detestou a maledicência.

Uma curiosidade universal, mas dirigida a propósitos utilitários, alimenta sua brilhante inteligência. É uma pessoa inquieta que nunca vi se entregar a nenhum tipo de ócio ou passatempo, mas que em muitas situações revela uma paciência quase estóica. Nunca foi dado a luxo nem a vaidade. Não cultiva ressentimentos. Gostou de esportes (natação, tênis e equitação), mas nunca teve hobbies, exceto o trabalho. Trouxe das agruras da infância uma atitude de consideração pelos mais fracos. Parece ter herdado o senso de justiça e o interesse pela terra que eram características de seu pai, meu avô. Seu ceticismo em relação à natureza humana sempre foi compensado pelo temperamento otimista”.

Uma personagem tão rica merecia uma biografia. Só que biografia é um trabalho para, no mínimo, dois ou três anos. Portanto, este livro não tem a pretensão de ser uma biografia de Octavio Frias de Oliveira. É um perfil, traçado basicamente em três partes. A primeira é um retrato da vida pessoal e profissional dele, do nascimento aos dias de hoje. Contada em paralelo com a história do Brasil e da própria Folha, esta primeira parte está dividida em oito capítulos. Na segunda, conhecidos, amigos e jornalistas que trabalham ou trabalharam com o sr. Frias prestam os seus depoimentos, que foram colocados em ordem alfabética. A terceira parte traz fotos.

Ao longo das entrevistas para este livro, pelo menos três pessoas se lembraram da famosa seção “Meu Tipo Inesquecível”, da revista Seleções, para se referir a Octavio Frias de Oliveira: Ives Gandra Martins, Clóvis Rossi e Alex Periscinoto. Todos os outros, no entanto, se referiram a ele da mesma forma, apesar de não citarem nominalmente aquela seção.

Por isso, acho justo considerar o sr. Frias o “meu tipo inesquecível” de todos

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