O PODER DE GANDHY

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TEXTO E FOTO: LUCIANA LIMA
REPÓRTER DA AGÊNCIA BRASIL


A prosperidade do maior afoxé do mundo, o Filhos de Gandhy, na opinião do diretor do Conselho Fiscal do bloco, Altamiro Alves, veio da capacidade de aliar características empresariais com a tradição. Em um ambiente de fortalecimento dos grandes trios elétricos, com um caráter mais comercial que cultural, muitos afoxés (cortejo de rua formado só por homens e com raízes na cultura africana) da Bahia estão enfraquecidos ou desapareceram.

Mas o Gandhy cresce a cada dia e, neste ano, quando o bloco completa 60 anos, a riqueza do seu carnaval ficou patente na fantasia, nos dois carros com som muito mais potente que os anos anteriores e na utilização de tecnologia.

O carnaval do Gandhy seguramente custou mais de R$ 1,2 milhão”, assegura Alves. “Patrocinar o Gandhy é garantia de um retorno de mídia. O Gandhi está no Guiness Book, é considerado o maior afoxé do mundo. O Gandhi tem visibilidade estadual, nacional e internacional. Isso chama o patrocinador”, considera Alves, que também é gerente de uma agência de um grande banco, um dos patrocinadores do bloco.

Além da instituição financeira, o Gandhy recebeu patrocínio de uma grande rede de móveis e eletrodomésticos e de uma empresa de telefonia, além recursos do governo da Bahia, da prefeitura de Salvador e do governo federal.

Nesse contexto, manter a tradição virou um dos principais desafios da direção do bloco, que acredita ter encontrado um equilíbrio capaz de garantir o carnaval cada vez maior. “Sou do Gandhy desde 1990, quando o bloco ainda era pobre. Tínhamos apenas uma corda de sisal amarrada à cintura. Não havia nem trio elétrico”, relembra  Marco Antônio Pereira dos Santos, 44 anos, membro da diretoria. Realidade bem diferente do Gandhy que desfila no carnaval de Salvador neste ano, com dois trios elétricos, equipados com painéis digitais, e que aspergem água aromatizada com alfazema.

Uma mudança simbólica dos novos tempos foi a substituição das imagens dos orixás, antes apareciam em telas pintadas a mão, por imagens projetadas em um painel digital na frente dos carros. As imagens eram intercaladas com a exibição das marcas dos patrocinadores. Para Altamiro Alves, esse fator não faz com que a tradição do bloco se enfraqueça. “Mantivemos o mesmo padrão das imagens dos orixás. lém disso, o Gandhy veio com um carro muito maior, muito mais potente, à altura do maior afoxé do mundo”, defendeu.


“Além disso, fizemos uma valorização da cultura local, com a projeção de imagens do Pelourinho e do Taj Mahal, em referência à Índia, ao Mahatma Gandhi e à Bahia. Uma viagem, ligando um ponto ao outro”, completou.


Nos últimos anos, o bloco teve um crescimento muito mais intenso com a chegada de integrantes de classe média alta, brancos, freqüentadores do carnaval de trios elétricos da Bahia.“Queremos é receber as pessoas que gostam do Ganhdy, mas eles não vão poder interferir naquilo que é a raiz do afoxé. O toque do Gandhy vai continuar o mesmo, o ijaxá. O xirê [cântico de orixás, na linguagem Iorubá], que é cantado na saída, vai continuar o mesmo. Vamos continuar fazendo o Padê,que é a oferenda feita na rua para Exu [orixá das ruas], para que ele nos dê paz e tranqüilidade, para que tome conta das ruas”, destacou Alves.


O diretor social dos Filhos de Gandhy, Jair Gomes da Silva, observou que a chegada dos turistas ao bloco foi encarada como um exemplo de como se deve agir em relação à questão racial. “O Gandhi é uma nação. Temos diretores aqui que parecem até alemães, brancos dos olhos azuis. Não temos preconceito nenhum. O que nós queremos é difundir a cultura da paz entre os povos. Nosso objetivo todo é esse. Temos aqui do gari ao juiz de direito”, destacou Jair, com a visão de quem vive o cotidiano da instituição. “Por isso, colocamos nossa fantasia ao preço de meio salário mínimo, dividido em cinco vezes, em todos os cartões de crédito”, completou.


Uma das formas de garantir que o bloco não ficará elitizado diante da crescente participação dos mais ricos é o subsídio no custo da fantasia para os associados negros, com menor poder aquisitivo e sócios há mais tempo do bloco. “Uma pessoa que chega hoje no bloco vai pagar pela fantasia R$ 360. Já o afro-descendente, associado há mais tempo, paga R$ 220”, explicou Altamiro Alves.

A participação do ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, um dos patronos do bloco, também teve um papel importante para a captação de recursos. Gil já foi vice presidente da instituição e o desfile dos Filhos de Gandhy é um dos momentos em que pode-se ver Gil saindo a pé, tocando agogô, ao lado dos demais patronos.

Alves destaca que ter sido inserido na Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), possibilitou que as empresas chegassem. “Dessa forma, os empresários sabem que terão o retorno garantido”, destacou. A Lei Rouanet é gerida pelo Ministério da Cultura  e prevê incentivos fiscais a empresas e indivíduos patrocinadores de projetos culturais.


A contrapartida social do Gandhy, de acordo com Alves, atinge a comunidade negra do Pelourinho, que lucra com a confecção e venda das alpercatas (sandálias) da fantasias, com a venda dos colares nas cores azul e branca, símbolo do bloco, na montagem dos turbantes, que são moldados pelas turbanteiras na cabeça dos integrantes a um preço de R$ 7,00.

Outro projeto é o Gandhy Mirim que, por falta de uma sede maior, deixou de funcionar em 2006, mas deverá ser retomado neste ano na sede náutica do clube que foi doada pela prefeitura de Salvador. Essa sede fica localizada no bairro da Ribeira, periferia da cidade, e abrigará o projeto que oferecer cursos gratuitos de informática, artesanato e percussão para crianças e jovens carentes. Além disso, o Gandhy contribui para o funcionamento de terreiros de Candomblé. O afoxé está ligado aos terreiros mais importantes da Bahia como o Gantois, a Casa Branca e o Axé Opofunjá.


“O Gandhi não quer perder suas raízes, que são os estivadores, os negros, o pessoal da camada mais pobre. Essas pessoas continuam sendo valorizadas. Recentemente, as pessoas de classe média alta têm procurado o Gandhi. Estamos fazendo de tudo para modernizar, sem perder as raízes”, destacou Alves.


 

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