RIO 2016: DESATENÇÃO E DOPING

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Vinicius Lisboa/Repórter da Agência Brasil
Obras do laboratório que fará exames antidoping em atletas das Olimpíadas e Paralimpíadas
Laboratório que fará exames antidoping em atletas da Olimpíada e Paralimpíada. Foto: Divulgação

Nem ganho de massa muscular, nem maior explosão nos treinos. Os atletas brasileiros que caíram no exame antidoping nos últimos 20 anos, na maioria das vezes queriam apenas curar uma dor, aliviar um entupimento nasal ou ingerir um suplemento alimentar. Essa é a avaliação do membro do Comitê Executivo da Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês) e gerente-geral dos Serviços de Controle de Doping dos Jogos Rio 2016, Eduardo de Rose, um dos principais especialistas do país no controle de dopagem.

O pesquisador reconhece o esforço das entidades esportivas em disseminar informações e acredita que a tendência é que a situação melhore, mas alerta que a desatenção já fez com que muitos atletas brasileiros pusessem suas carreiras em risco ao se automedicar. O problema, explica, atinge até mesmo os atletas de ponta, que precisam estar atentos a tudo o que ingerem, além de se manterem informados sobre a lista de substâncias proibidas da Wada, atualizada a cada mês de janeiro.

“Falta uma educação do atleta de buscar informação. O atleta tem que entender que é o responsável último pelo que entra no organismo dele e que tem que procurar a informação”. Hoje em dia, informação existe. Todas as federações, os órgãos, o COB [Comitê Olímpico Brasileiro], a Wada têm. A informação está disponível, falta ao atleta a busca pela informação, e pela informação atualizada”.

Rose explica que, na maior parte do mundo, os estereóides anabolizantes são as substâncias mais encontradas nos exames, enquanto no Brasil o quadro é diferente: “As substâncias envolvidas são principalmente estimulantes especificados encontrados em medicações para a gripe e cefaleia [dor de cabeça], colírios e medicações nasais, diuréticos e corticoides, bem como suplementos alimentares, principalmente os formulados em farmácias”, diz. Para ele, “o Brasil, como país em desenvolvimento, tende a apresentar maior número de resultados analíticos adversos por desconhecimento e menor número de casos intencionais de uso dedoping para aumentar o desempenho”.

Secretário nacional da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), órgão ligado ao Ministério do Esporte, Marco Aurélio Klein também enfatiza que os atletas são responsáveis pelas substâncias que consomem e conta que a ABCD tem como principais eixos de trabalho a informação e a educação dos competidores, além da prevenção dos casos. Ele conta que o siteda autoridade disponibiliza um buscador que informa se cada medicamento ou princípio ativo disponível no mercado pode ou não ser consumido de acordo com a lista de substâncias proibidas. “Não dá para um atleta de altíssimo nível dizer que não sabia. Ele precisa saber, precisa ter interesse”.

Klein argumenta que não se pode generalizar a avaliação de que há descuido dos atletas, já que os que estão em ciclo olímpico recebem grande acompanhamento e têm acesso a todos os dados sobre o controle de dopagem. Quanto às farmácias de manipulação, ele afirma que há forte controle da Agência Nacional de Vigilância Sanitária sobre esses estabelecimentos e que a contaminação, muitas vezes, é um argumento usado pela defesa dos atletas.

Testagens periódicas

Os atletas de ponta do país passam por controle rigoroso, que tem crescido desde que o Brasil passou a contar com o Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem, em junho do ano passado. Por isso, a ABCD criou o Grupo-Alvo de Testes e trabalha com a meta de não ter casos de doping nos jogos Rio 2016.

Os 278 integrantes do grupo-alvo precisam manter informações atualizadas de sua localização trimestralmente, para que coletas-surpresa possam ser feitas e acompanhadas. Desde fevereiro deste ano, o laboratório realizou 1,3 mil testagens, e 57% foram coletadas no acompanhamento fora de competições. Em países como os Estados Unidos, as testagens fora de competição chegam a 80%.

“Eles [os atletas do grupo-alvo]recebem um login e uma senha em um sistema e dão a sua localização pelos 90 dias seguintes. O atleta precisa colocar onde estará em cada um desses 90 dias e escolher uma janela de 60 minutos, digamos das 6h às 7h. Em qualquer um desses 90 dias, ele pode ser procurado nesse horário”, explica Klein. “No período, ele pode não ser testado nenhuma vez ou pode ser testado muitas. Temos atletas que foram testados três, quatro ou cinco vezes em períodos curtos”.

Acreditação suspensa

O Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem (LBCD) foi descredenciado temporariamente pela Agência Mundial Antidoping na última quarta-feira (22), por não estar em conformidade com as normas internacionais. A suspensão vale por seis meses ou até que a própria Wada decida suspendê-la. Se não for revertida, a medida vai fazer com que os exames de controle de dopagem dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos sejam feitos em outro país, já que há apenas cerca de 30 laboratórios acreditados em todo o mundo.

Em nota, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, que abriga o laboratório, informou que “as equipes profissionais, instalações e os equipamentos do LBCD representam o que há de mais moderno no mundo em controle de dopagem” e lembrou que a suspensão deverá ser revertida antes dos Jogos Olímpicos, cuja abertura está marcada para 5 de agosto.

“O laboratório prevê que suas operações poderão voltar ao normal em julho, após a visita técnica do comitê da Wada”, diz a nota. “Nos últimos 12 meses, o LBCD foi aprovado nas auditorias realizadas in loco pela Wada e correspondeu com êxito às análises de todas as amostras com testes-cegos feitas pela agência. Só este ano, o laboratório já realizou com sucesso cerca de duas mil análises de amostras de urina e sangue. Esse padrão de excelência está mantido e poderá ser conferido na próxima inspeção da Wada”.

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