#SemÓdio, MAS A BURGUESIA FEDE, CANTAVA CAZUZA

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Profeta de sua geração, Agenor de Miranda Araújo Neto, o popular Cazuza, cantava que “a burguesia fede”. E fede mesmo, especialmente quando se une aos “coxinhas-camarões” em tentativas golpistas, procurando voltar ao tempo da Casa Grande & Senzala, tão bem descrito por Gilberto Freyre. #SemÓdio e ao som do rock, Cazuza cantava que essa burguesia fede, assim como suas rêmoras, “coxinhas-camarões” que se rebelam contra qualquer política pública de inclusão social, respeito às diferenças e acesso a bens como a educação, saúde e moradia.

Ao longo da história, no período ainda da Casa Grande & Senzala, essas “coxinhas-camarões” criaram um espaço de sobrevivência entre a Casa Grande e Senzala, regido por pequenos favores e o respeito irrestrito ao senhor da “Casa”, que resultou numa “síndrome de Estocolmo” generalizada, em que as vítimas passam a adorar os algozes porque este as permitem nadar em seus lagos pantanosos e, por vezes, casam seus filhos com as e os “coxinhas”, num ato de concessão aos encalhados e encalhadas. Nadam no nada que são, mas se acham melhores que as vítimas enfurnadas na Senzala do autoritarismo que contribuem para manter vivo porque, assim, podem dormir tranquilos todos no fedor inerente de suas condições, certos de que são melhores que a maioria que os cerca e estão livres da chibata  assim como suas proles se comportarem-se direitinho, é claro.

Neste domingo, fui buscar comida, onde sempre compro nos fins de semana, em Uberlândia, no interior das Minas Gerais, e acabei por me deparar com o “desfile” dos, na sua maioria, “coxinhas-camarões”, uma quase parada de 7 de setembro, sem direito à banda, fanfarra ou qualquer conteúdo à data relacionado. Curiosamente, os “coxinhas-camarões”, convocadas por velhas raposas da burguesia local, berravam pelas ruas “fora PT” na incapacidade mesma, que lhes é peculiar, de oferecer alguma proposta de país que não passe pela conjugação do verbo no singular, pois nunca aprenderam a conjugá-lo no plural. Então, é como se na cabeça desses “coxinhas-camarões”, basta o “PT” sair do poder que o mundo fica lindo de novo e o Brasil e os brasileiros dos mocinhos e das mocinhas vai ficar uma gracinha. Eles voltam a ser o que eram, restabelecem a Casa Grande e também a Senzala e vão dormir tranquilos. Têm, em comum, a incapacidade de respeitar as diferenças e de reconhecer derrotas diante de um mundo segue adiante e não voltará atrás.

Não é estranho ouvir, nas ruas dessa cidade, outrora fundada por antepassados meus, a exemplo de João Pereira da Rocha, senhor de escravos e Casa Grande, que bom era o tempo do “Sr. Virgilio”. Explica-se: Virgilio Galassi, aventureiro que se casou com dama local, tornou-se com o passar do tempo um “coronel” de quatro costados; sem galão militar embora se tornasse próximos dos golpistas de farda de 1964. Acabou por tornar-se, no uso do instrumento da política e por período maior do que o da ditadura, por ter se preocupado em dividir o poder com seus agregados, um verdadeiro “senhor” da Casa Grande na condição de prefeito de inúmeros mandatos e deputado.

“Seu” Virgilio distribuía benesses para manter vivo o séquito e alocava recursos para obras que atendessem aos seus interesses e os dos agregados. Abriu bairros novos, aos quais emprestou o nome de netas, e foi seguindo em frente, sem se preocupar com infraestrutura social nos bairros periféricos, sem investir em educação numa cidade que crescia com pessoas atraídas pelos anúncios sempre disparatados que fazia, entre a realidade e propaganda, de instalação de fábricas e indústrias com oportunidades de emprego para todos. Na sua época, a proximidade dos “coxinhas-camarões”, representantes de coisa alguma a não ser dos seus próprios interesses, era prática comum e ele os fazia sentir melhores que os demais, privilegiados pela sua presença. Não chegaram de todo a ficarem órfãos porque seus herdeiros políticos seguem a bula “papal” do “Seu” Virgilio, na verdade “deles” Virgilio.

Os que hoje berravam nas ruas “fora PT” sem proposta nenhuma de país, são os “coxinhas-camarões” saudosos do “senhor” da Casa Grande e como a burguesia real para a qual fazem a corte camarônica, fedem e fedem muito até pela ausência de conteúdo além da merda que tipicamente os camarões depositam na cabeça. Pior do que ver passar pelas ruas e sentir o odor das “coxinhas-camarões” do “desfile” uberlandense é que estes só têm o ódio como identidade e elo de ligação. Respeito às diferença, igualdade de acesso aos serviços públicos, casa, saúde e educação que é bom, nada. Propostas para construir uma sociedade mais justa, esqueça. Nem sabem do que se trata isso. Depois, bem, depois fazem suas preces e se acham abençoadas pela pequenez de suas vidas sem grandeza nenhuma e enamorados da burguesia dormem o sono tranquilo, com a barriga cheia de ódio, mas a certeza de que participaram de um momento histórico e foram cumprimentados no ato por fantasmas dessa Casa Grande. E fedem, e como fedem. Têm o suor do ódio impregnado na alma e padecem da síndrome da Casa Grande. Como canta Cazuza, #SemÓdio, a burguesia fede. Fede mesmo.

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Sobre o autor

Carlos Franco

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