#Rio450janeiros PORQUE “#Gentilezageragentileza”

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Curiosidades/#Rio450janeiros – O Rio de Janeiro teve em José Datrino, um andarilho das ruas, que nasceu em 1917 e morreu em 1996, o seu profeta que, agradecido pela vida, pregava que “gentileza gera gentileza, amor”, mantra escrito em 56 pilastras do viaduto que vai do Cemitério do Caju ao Terminal Rodoviário Novo Rio num trajeto de 1,5 km, na zona portuária. Algumas dessas pilastras ficavam em frente à antiga sede do Jornal do Brasil, hoje Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, na Avenida Brasil, 500.

“Nós que passamos apressados / Pelas ruas da cidade / Merecemos ler as letras / E as palavras de Gentileza” (…) “Apagaram tudo / Pintaram tudo de cinza / Só ficou no muro/Tristeza e tinta fresca.” Marisa Monte, Gentileza.

A trajetória de andarilho e profeta de José Datrino, que era caminhoneiro, casado, pai de cinco filhos e morador de Guadalupe, na Zona Norte do Rio de Janeiro, tem início logo após a maior tragédia circense do mundo, que ocorreu em 17 de dezembro de 1961 em Niterói. Foi quando o Gran Circus Norte-Americano pegou fogo, num incêndio criminoso idealizado por ex-funcionário e que matou mais de 500 pessoas, a maioria crianças. Curiosos correram ao local assim como familiares das vítimas, que virou ponto de peregrinação.

José Datrino foi um desses a conferir de perto a tragédia. De acordo com um dos seus biógrafos, Leonardo Guelman,  no livro “Brasil: Tempo de Gentileza”, obra da Editora da Universidade Federal Fluminense(EdUFF), na antevéspera do Natal daquele ano, ele ouvido vozes astrais – já convivia com esses vozes desde menino – recomendando que fosse consolar as pessoas. Ele largou família, pegou um de seus caminhões e se instalou no local onde ficava o circo, consolando os que por lá passavam com flores e profecias em torno da gentileza e sempre agradecido cada vez que alguém parava para ouvi-lo.

A sua presença no local atraía curiosos. Ele foi deixando a barba crescer e trocando as vestes tradicionais por batas de lençóis. Muitos propagaram a lenda de que ele teria perdido toda a família no incêndio e teria ficado louco, um maluco-beleza, o que não era verdade, mas nascia assim a alcunha de “Profeta Gentileza” que ele carregaria por toda a vida.

Passou a vagar depois pelas ruas, nas barcas que ligam o Rio a Niterói, levando a sua palavra de conforto e também de críticas ferozes ao capitalismo e ao comportamento que julgava libertino de mulheres – tinha implicância com as minissaias. Carregando uma placa com seus dizeres, suas profecias, o ex-caminhoneiro decidiu também pichar – grafitar é algo recente, que facilita a aceitação – muros e postes com a expressão que seria a sua marca “gentileza gera gentileza, amor”. Foi assim que chegou aos viadutos onde estampou seus conhecimentos propagando a ideia, real para os que a experimentam, que “gentileza gera gentileza, amor”. Desenvolveu uma caligrafia única, facilmente reconhecível.

Mas os murais, com o passar do tempo, foram grafitados pela insensibilidade de jovens e, por fim, alguns com chuva e poluição começaram a descascar e a Prefeitura mandou-os pintar de cinza. Os protestos foram imediatos, pois ainda que grafitados por outros, os dizeres estavam lá, eram lidos, integravam a paisagem, o espírito imaterial ainda que matéria do carioca. O que levou, acuada, a Prefeitura a iniciar a restauração no final de 1999, retirando a camada de tinta cinza e recuperando os dizeres nas suas cores originais. O trabalho foi concluído em maio de 2000 e no final deste mesmo ano Guelman lançou o livro “Brasil: Tempo de Gentileza” que, com rico material iconográfico, apresenta a obra do profeta. Agora, mais uma vez, em função das obras do “Porto Maravilha”, esse testamento deixado pelo “Profeta Gentileza” ao futuro corre risco de desaparecer do mapa, com as vigas da perimetral.

Em 2001, o “profeta” foi levado para a Passarela do Samba pela Escola Grande Rio pelas mãos de outro ícone carioca, o carnavalesco Joãozinho Trinta. A sua mensagem se difundiu ainda mais. Antes, na década de 1980, Gonzaguinha compôs música em que também homenageava o profeta e nos anos 1990, Marisa Monte cantou as tintas cinzas da Prefeitura que haviam coberto os seus ensinamentos e a falta que nos faz, no dia a dia, a gentileza. As palavras desse “profeta” das ruas, que não ergueu igrejas para ganhar dinheiro, nem poder, apenas tinha o dom de espalhar gentileza, sabedor de que gentileza gera gentileza, amor. O “profeta” do Rio vive a cada gesto do carioca nesses #Rio450janeiros.

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Sobre o autor

Carlos Franco

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