O GOLPE, OS GOLPES E UMA TRAGÉDIA CARIOCA

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POR CARLOS FRANCO
 
A tragédia de um executivo que teria matado a mulher, os dois filhos e se matado e que teve como cenário a Barra da Tijuca, bairro de classe média alta no Rio de Janeiro, na sombria segunda-feira, 29, deixou como rastro uma carta na qual ele relata o temor de estar sendo desprestigiado e de poder ter seu nome queimado no mercado VAS. É esse mercado hoje o mais competitivo do setor de telefonia celular.
Mas o que é VAS?. Num mundo de siglas anglo-saxônicas, VAS quer dizer Serviço de Valor Agregado (SVA) que é uma tradução livre de Value Added Services (VAS) e é tudo aquilo que, em telefonia celular, não é identificado como voz que une um aparelho celular a outro, ou seja, pode até incluir voz, mas por meio de aplicativo como o Skype ou o Messenger do Facebook, mensagens de textos (SMS, outra sigla anglo-saxônica), vídeos, jogos, música, navegação pela internet e multimídia e o que mais vier pelo telefone celular, como o ato de ligar as luzes de uma residência ou a abertura de porta de um carro por meio de aplicativos para celular e eles se multiplicam dia a dia, de GPS a choro de bebê e até exames médicos como a fertilidade do esperma. 
 
Esse mercado VAS que o executivo revelou ter medo de ser excluído (veja trecho da carta que reproduzimos de imagens de internet e que foi divulgada por policiais que apuram o caso) é um mundo altamente competitivo, daqueles em que os fracos, na visão das grandes corporações, não têm vez.
É por meio do VAS que as operadoras de telefonia conseguem ampliar as suas receitas e comercializar publicidade e propaganda, muitas vezes na forma de bônus para seus usuários como o download de uma música ou de um jogo (também aqui a predominância anglo-saxônica de games) e também que permite que empresas e serviços venham a ser ofertados aos internautas em tempo real diante de alguma busca na internet que este faça. Qualquer um de nós com certeza já percebeu que o Google, que faz uso destas ferramentas ou mesmo a Microsoft com seu e-mail gratuito, exibem aquelas buscas de algum produto que um dia procuramos para ver preço ou por mera curiosidade, quando vamos fazer nova ou simplesmente abrir um e-mail gratuito – que a maioria usa. É isso o que se chama VAS e é neste mercado  competitivo que o executivo, protagonista da tragédia carioca, atuava. 
 
Com passagem pela área de marketing da TIM, que lamentou o ocorrido em nota oficial divulgada pela imprensa, o executivo estava na norte-americana Datami, sediada em Chelmsford, Massachusetts, USA, que oferece serviços que agregam valor às operadoras de telefonia celular. Um mercado capaz de ampliar a renda dessas empresas, a exemplo da TIM e de outras, pois torna o usuário uma mercadoria a ser negociada em novos balcões por meio do mailling, com o perfil do usuário que será impactado pela publicidade e propaganda, quanto maior a quantidade de dados que as empresas têm de seus usuários, renda, faixa etária, gênero, opções de entretenimento melhor.
Então, quando o Facebook lhe pede para postar no perfil os filmes preferidos, as músicas preferidas é que por meio destes dados você torna uma mercadoria atrativa, há sempre alguém do outro lado do balcão disposto a lhe oferecer serviços relacionados, rock para quem gosta de rock, sertanejo, clássicos ou rap para quem é do pedaço ou artigos de futebol, tênis, vela, remo ou o que mais vier. Quando mais dados melhor e pimba!!!: Você abre o e-mail ou navega no celular e dá de cara com aquilo que mais gosta ou que está procurando, talvez nem isso, mas o que gosta agora está ao seu alcance. É seduzido por produtos e serviços com os quais sonha, ingressos para shows e toda a sorte de bugigangas que você faz girar essa nova economia e do digital a materializa.
 
A Datami é um bom exemplo das novas empresas que atuam em VAS e que chegou recentemente ao Brasil, contratando o executivo da tragédia carioca para desbravar seu mercado, fechar parcerias com operadoras de telefonia celular ávidas por receitas. Afinal, no Japão, o VAS chega hoje a responder por mais de 60% dos resultados financeiros, enquanto no Brasil o segmento ainda engatinha na casa dos 10% a 20% da receita.
A Datami tem várias ferramentas, pois hoje as empresas preferem usar o marketing mais direto para levar suas informações aos consumidores potenciais e também para fidelizar aqueles que têm algum tipo de aderência às marcas do que irrigar com verdadeiras fortunas a mídia tradicional sem saber ao certo a quem está atingindo. O mercado de marketing tem, com razão, enorme desconfiança do poder de penetração de alguns veículos, sobretudo aqueles que mantém como assinantes quem não mais os assina. Não é incomum alguém continuar a receber publicações debaixo da porta de algo que cancelou ou deixou de pagar há muito tempo, mas esta é uma forma de algumas empresas manterem o CPF do titular na carteira na tentativa de comprovar sua aderência de mercado e também de comercializar os dados de seus clientes.
Sim: mailling se vende, aquela listinha que se tem com seu nome há muito virou negócio. Sabem exatamente quem é você e o que consome, quando faz por exemplo a escolha de canais de uma televisão por assinatura, está imediatamente catalogado por idade, local de residência, gênero e poder mapeados e esses dados seus serem monetizados (virar dinheiro) nas mãos de que os tem. É um instrumento de receita importante e crescente.
 
O  VAS, no entanto, é apenas o pano de fundo desta tragédia carioca. Mas tem o poder de revelar o mundo no qual vivemos hoje e que reflete a incapacidade dos jovens – o executivo tinha apenas 43 anos – e até de alguns longevos em lidar com perdas e derrotas. Afinal, muitos hoje são criados numa dramática escola onde só há espaço para vencedores. Alguns desmaiam diante da fraqueza de seus argumentos ou daqueles que são mais preparados como ocorreu num recente debate de televisão na disputa eleitoral pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Outros se acanham, tornam-se introspectivos; e outros ainda pressentem a exclusão de alguns de seus pares – que admiram – e se sentem rejeitados num conjunto de situações que apenas reforça o despreparo para a vida.
Não conseguem entender no contexto e no conjunto da obra a bela canção de 1958 imortalizada por Maysa Monjardim Matarazzo: “Se meu mundo caiu/Eu que aprenda a levantar”. Como só há espaço para vencedores, os derrotados não aprenderam a se levantar. Desmaiam, fogem da raia e se tornam, em sínteses, violentos, primeiro consigo próprios, depois com os outros ao redor.
 
Resultado: são mal perdedores como o demonstram os derrotados nas urnas das eleições presidenciais de 2014, que descontentes com o resultado preferiram quebrar o país, deixarem o Executivo refém de corruptos e misóginos _ agora notórios devido à exposição em tempo real que tiveram nas ondas da televisão e do rádio – e dar um Golpe de Estado parlamentar abrindo um perigoso precedente.

Afinal, perder ou ganhar é parte do jogo. E se todo perdedor de uma eleição arregimentar alguns parlamentares, vamos lá apenas para exemplificar: vereadores no caso de um pleito municipal; togados municipais sem o compromisso com o Estado Democrático de Direito, advogados medíocres pois serão apenas ventríloquos de uma decisão já previamente acertada e devidamente alardeada por uma mídia disposta a transformar em crime o que não é crime, está tudo feito. Basta, assim e na sequência, apenas passar pelo caixa como se fosse o de uma loja e pegar o presente todo amarradinho, com direito a lacinho verde-amarelo e até fantasia de Louro José no debochado pacote. Louro José é aquele papagaio falante da apresentadora Ana Maria Braga, mais inteligente que as Amélias imortalizadas por Mário Lago no cancioneiro popular e que garantem o Ibope desta atração global.

 

Algumas perdas, é importante e fundamental observar, fortalecem as pessoas, as revigoram, pois servem para acionar redes de proteção e dão segurança necessária para se possa seguir em frente, uma segurança que muitas vitórias não dão, ao contrário retiram de cena mais que a humildade, os traços de humanidade que poderiam ainda existir e que são a matéria prima com a qual nos tornamos inteiros e partes de nossas comunidades, plurais ainda que em nossas singularidades.

 

Tristes e sombrios dias.

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