Glauber Rocha em Portugal

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No dia 3 de setembro (segunda-feira), às 20h, o Itaú Cultural lançou o filme Diário de Sintra, da roteirista e cineasta Paula Gaitán, viúva de Glauber Rocha (1938-1981). Realizada com o prêmio especial da 5ª edição do programa Rumos Cinema e Vídeo, a obra traz um registro do último ano de vida do cineasta, quando o casal e seus dois filhos, Ava Rocha e Erik Rocha, viveram em Portugal na cidade que lhe dá nome. Haverá exibição também nos dias 8 e 9 de setembro às 19h30.

Longe de ser um documentário jornalístico linear, a obra é uma espécie de ensaio poético narrado em primeira pessoa por Paula. A narradora revela uma relação impressionista com a imagem, por meio da qual junta fragmentos de sua memória. Além de imagens inéditas, o filme mostra ainda uma face menos conhecida de Glauber: a sua relação filosófica com a morte. Neste mesmo dia, será aberta a exposição Imagem da Imagem, em que Paula Gaitán faz uma instalação com fotos, filmes e projeções.

O filme
Em Diário de Sintra, Paula mescla os registros em Super8 de 1981 em Portugal com novas imagens capturadas 25 anos mais tarde. O resultado, como a cineasta diz, é uma obra sobre a memória que ela tem de Glauber Rocha e da vida deles naquele período. “No filme, tenho uma relação impressionista com a imagem” conta ela para explicar a sua estrutura polifônica de imagem e de som: “Uma imagem chama a outra como se puxasse uma memória involuntária.” A trilha sonora, que traz músicas mouras, africanas e luso-brasileiras, é de Edson Secco.

Sintra é uma antiga vila encravada na serra de mesmo nome, também conhecida como Montanha da Lua, e que permanece a maior parte do tempo entre nuvens e nevoeiro. Lá, Glauber viveu um período altamente criativo de sua vida, em que permaneceu fiel e comprometido com a sua obra, pensamentos e política. “Mas ele também começou a ter um discurso raro nele, um discurso filosófico sobre a morte”, recorda Paula, que resgata este aspecto menos conhecido do cineasta além do cotidiano dele com os filhos, com ela e com os amigos. Logo depois de tomar café-da-manhã, Glauber passava horas escrevendo seus textos, roteiros e matérias para jornais, enquanto ouvia Villa-Lobos. Raramente saía para badalos sociais, mas gostava de receber amigos, como os brasileiros Jorge Amado e Zélia Gattai, João Ubaldo Ribeiro, o ator francês Patrick Bauchau ou ainda o engenheiro de som Carlos Pinto, encontros registrados em Super 8 e com a câmera fotográfica de Gaitán, como se fosse um diário de anotações.

Passados 25 anos, a cineasta voltou a Portugal e redescobriu os antigos cenários de sua vida com Glauber. Avessa a uma linguagem linear e procurando um diálogo com a memória para este filme, antes de chegar a Sintra ela passeou por Lisboa, por Monsanto e por vilas de pescadores e de ciganos. Em todos os lugares exibiu uma fotografia de Glauber aos habitantes, perguntando se o conheciam. “Foi uma forma de integrá-lo ao imaginário local e ao mesmo tempo mostrar como ele era mimético; como podia passar por uma pessoa do povo ou por um grande intelectual”, conta. De fato, uns achavam que ele era um camponês vizinho, outros achavam que era um artista famoso.

A exposição
Na primeira parte da exposição, o público entrará numa espécie de túnel de memórias do período em que a artista morou em Sintra com Glauber Rocha e os filhos, entre 1980 e 1981, período que antecede a morte do artista. Neste túnel, a imagem de um rio é projetada no chão e, nas laterais, estão monitores que apresentam imagens em travelling, expressão utilizada para designar a imagem que é captada por uma câmera que passeia lateralmente sobre os trilhos. “Este é um túnel do inconsciente, da memória, onde as imagens fluem como a água”, explica Paula.

Seguindo para a outra sala, o público entrará numa “grande cápsula”, com cerca de 130 fotos e uma árvore projetada em vídeo como se fosse uma imagem estática. Lá, estarão presentes fotos de Glauber, dos filhos, da paisagem, das montanhas e das águas de Sintra. “Eu trabalho com uma superposição de suportes, com a possibilidade do cinema passar pro vídeo e da fotografia passar para a imagem em movimento. A idéia é que o olhar do espectador seja fluido e passe através das coisas”, finaliza a fotógrafa, cineasta e poeta. O material é todo inédito e a exposição fica em cartaz até dia 23 de setembro.

 


www.itaucultural.org.br

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