HORIZONTES SEGUNDO FREDERICO DALTON

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Quem é esta mulher parada no meio-fio e que não atravessa apesar da luz verde? Cheguei correndo para não perder o sinal aberto, mas ao vê-la estanquei. Agora observo-a de costas, analisando sua aparência incomum. E começo a achar que ela está ali para me proteger. Ela sabe que se eu cruzar a rua, um carro desgovernado ou em fuga da polícia vai me atingir. Ou talvez seja melhor que eu desista de ir ao lugar que eu acreditava ser bom para mim. Outras pessoas atravessam, mas ela permanece onde está. É porque sabe que só prosseguirei se ela deixar.

 

Conheci este homem no Mirante do Leblon. Ele, em busca de horizontes; eu, de proximidade. Ele, de olhos verdes, gravata solta e o paletó na mão; eu, de carro. Havia um motel bem pertinho, mas sugeri outro em Botafogo só para curtir sua presença no banco do passageiro. Há muito tempo que este banco andava vazio. O cara me pareceu honesto. E a rapidez com que se despiu foi quase uma confissão. No espelho da parede vi que ele usava uma tornozeleira eletrônica.

 

Hoje eu não vou estudar para concurso público. Vou ao shopping comprar uma saia. Quero uma de tecido bem leve. Depois, com minha saia nova, vou para o Arpoador esperar pelo vento. Vou dar uma parada na minha mania de estabilidade. Ouvindo Nana cantar “Resposta ao Tempo” no meu iPhone, vou olhar pro horizonte e deixar minha saia tremular.

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