Maria Fumaça nos trilhos

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Por Sônia Araripe

De Ouro Preto (MG)


Carlos Drummond de Andrade conhecia como ninguém as montanhas das Gerais. Ou melhor, das Geraes. E também conhecia as pedras, muitas haviam no caminho. Algumas não estão mais lá. Foram alteradas ou retiradas pela ação do homem. Mas é possível descobrir que tantas estão quase sem tirar nem por.

O poeta certamente ficaria feliz se visse o velho trenzinho movido á lenha voltando a apitar pelas montanhas mineiras. A Maria Fumaça retomou seu rumo com seu inesquecível apito. Esta é a boa notícia e é interessante acompanhar de que forma isso foi possível.

Depois de um bom tempo de ostracismo, atropeladas pelas rodovias no caso das cargas e trocados pelo até então insuperável conforto e rapidez do transporte aéreo para passageiros, as ferrovias retomaram os tempos áureos de uns anos para cá. Apesar do transporte de passageiros resistir em apenas três diferentes trechos do País, a volta por cima dos trilhos é explicada principalmente por causa de um Brasil que tem fome de crescimento: cerca de 26% do transporte é feito atualmente por modernos, econômicos e seguros trens. Que carregam minério de ferro como nos tempos de Drummond – só que em quantidades nunca nem antes sonhadas – e muito, muito mais. Pelas concessionárias ferroviárias deste país (privatizadas em 1997) estão cruzando cargas das mais diversas. Da soja do Centro-Oeste às autopeças para a montadora Ford na Bahia. Do álcool que vive seu boom nas usinas do interior paulista aos contêineres.

Há importantes grupos privados operando as ferrovias, como a ALL e a MRS. Mas, sem dúvida, a Vale do Rio Doce – que já nasceu nos anos 40 na concepção de um sistema integrado de minas, ferrovias e portos – tem a liderança nacional em soluções logísticas. Um termo até alguns anos desconhecido que ganhou fama e relevância diante de um país que precisa transportar sua produção por caminhos menos tortuosos que estradas esburacadas e rios navegáveis, sem, no entanto se interligarem com outras vias. Apenas a Vale opera 9.829 quilômetros de malha ferroviária. De norte a Sul. Por suas ferrovias e portos passam 16% da movimentação de carga no Brasil e 30% da movimentação portuária.

Filme futurista – Os trens carregam não só o próprio minério de ferro extraído pela Vale – em composições sofisticadas e hight tech, com até 320 vagões de uma só vez – mas também cargas de clientes. E há ainda os trens de passageiros tanto no Sudeste – ligando Vitória a Minas, transportando 1,2 milhão de pessoas por ano – como na Ferrovia de Carajás, saindo de São Luis (MA) e chegando em Parauapebas, no sul do Pará.

O novo mundo das ferrovias brasileiro praticamente se transformou em roteiro de filme futurista. A cabine do maquinista mais parece um jogo eletrônico de adolescente, há simuladores avançados para treinar os futuros maquinistas e a central das operações é de tirar o fôlego. Se um trilho tiver problema, o computador avisa. Os controles de todo o sistema envolvem muita tecnologia.

Resgate histórico – Aí você deve estar se perguntando se a jornalista teria viajado. Cadê espaço neste cenário para a velha Maria Fumaça? Calma. Há sim. A Vale percebeu que era preciso avançar, é claro, na direção do Brasil de hoje e do futuro. Mas era necessário também reencontrar o passado, acertando as contas com a História com H maiúsculo. Em maio de 2006, inaugurou o projeto Trem da Vale. Com direito a música e as presenças do presidente Lula, do governador de Minas, Aécio Neves e do diretor-presidente da companhia, Roger Agnelli.

O projeto consumiu R$ 48,5 milhões na reconstrução da velha locomotiva e dos 18,7 milhões de quilômetros da ferrovia. Envolveu também a vocação turística da região e um bem cuidado projeto social, através do braço do grupo que cuida destas atividades, a Fundação Vale do Rio Doce. Na tradicional estação de Ouro Preto, por exemplo, as crianças têm aulas de educação patrimonial aliada às práticas circenses. Ali, quando a família Real chegou, a área era conhecida como Praia do Circo. A inauguração, em 1888 contou com as presenças ilustres do Imperador Dom Pedro II e a Princesa Isabel.

Na estação, uma exposição mostra a linha do tempo, desde as antigas locomotivas inglesas até os tempos atuais. Dali, embarcamos na Maria Fumaça com destino à Mariana. Todos a bordo. A caldeira da locomotiva de 1949 está aquecida o suficiente para começar a percorrer as montanhas mineiras. São 12 metros de cumprimento, pesando 85 toneladas. A locomotiva foi recuperada em Tubarão (SC) por 25 pessoas.

A viagem é voltada principalmente para turistas. Custa R$ 18 para ir e se a escolha for pela ida-e-volta sai por R$ 30. Crianças até cinco anos não pagam e há desconto de metade da tarifa para estudantes e passageiros acima de 65 anos. A comunidade tem acesso gratuito em passeios programados e orientados. O Trem da Vale parte todas as sextas, sábados, domingos e feriados, com duas saídas diárias de Ouro Preto e duas de Mariana.

O interior do vagão foi totalmente restaurado, mas lá estão os bancos quase singelos, as janelas balançando, deixando o vento bater no rosto, o engate entre uma composição e outra, parecendo para os mais leigos que um vagão quase não conseguirá seguir o caminho do outro. Bobagem. Tudo é absolutamente seguro, totalmente garantido. Café com pão, café com pão. Lá vai o trenzinho seguindo o caminho da história. Com h minúsculo. Da história de todos nós.

À direita – Cachoeira à direita. Um penhasco enorme. Também à direita. Aí vai uma dica importante: sente-se do lado direito. O anjo gauche nos prega esta peça. A vista é infinitamente mais linda. As pedras. A natureza. Nem parece século 21. O céu do meio de tarde ilumina a paisagem. Piuiiii. Lá vamos nós. Túneis, mais desfiladeiros. Os trilhos passam tão rente do traçado que mais parece não suportarem o desafio da gravidade. Mas fique tranqüilo: tudo é mesmo muito seguro. Seguimos viagem e temos mais paisagens belas nos aguardando.

São 50 minutos de trajeto gostoso, acompanhado por prosa leve e divertida. O fio da memória faz-nos lembrar não só de Drummond, mas também de Guimarães Rosa, do trenzinho caipira de Villa-Lobos (próximo de seu centenário) e tantos outros trilhos e apitos que povoam nossas lembranças. Chegamos à estação de Mariana, também preservada, num tom rosa colonial. Ali funcionam iniciativas sociais diferentes. Biblioteca gratuita e oficinas. Dentro do vagão original – totalmente reformado – há aulas de novas mídias para jovens da região. Como Jean Diego Gomes Soares, 29 anos, que opera um avançado Apple para saber como montar um vídeo sobre a tradicional música mineira. “Estou aprendendo não só a mexer no computador. Estou lidando com sensibilidade”, conta emocionado.

As crianças pequenas brincam alegres na praça sonora, com vários “instrumentos” montados para resgatar os sons que ecoam da ferrovia. Um sino, ao alto, lembra a religiosidade. Como se quisesse abençoar o projeto. A Vale opera este trecho e também o de São João del Rey – Tiradentes através de sua Ferrovia Centro-Atlântica, a FCA.


Sustentabilidade – E manter a Maria Fumaça dá lucro? O diretor executivo de Logística da Vale, Eduardo Bartolomeo – jovem dirigente com passagens pela Ambev e setor petroquímico – não esconde a emoção. Conta que o objetivo não é mesmo ter lucro mas principalmente participar social e culturalmente daquelas comunidades.

Bartolomeo também viajou no trem. E aproveitou para explicar melhor o compromisso maior com a sustentabilidade da Vale. Boa parte dos tradicionais dormentes de madeira de reflorestamento já é de aço. Testes estão sendo feitos para usar plástico e borracha (dos pneus) reciclados em dormentes sustentáveis, digamos assim. E no lugar do diesel – a Vale é a maior consumidora do combustível no país – desde maio de 2007 vem sendo utilizada a mistura de 20% de biodiesel e 80% do diesel comum. Projeto em parceria com a Petrobras Distribuidoras. “Somos verdes no DNA”, brinca o executivo. Durante o ano de 2008, com o uso contínuo de B20 pela Vale em suas ferrovias, deixarão de ser emitidas cerca de 336 mil toneladas de gás carbônico equivalentes na atmosfera. Isso corresponde a uma área de 552 vezes o Maracanã de mata nativa. A sociedade penhorada agradece.

 


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