Os limites da pele

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O filme “A pele” (que no original carrega o subtítulo “Um Retrato Imaginário de Diane Arbus”) é um festival de imagens bizarras para relatar a vida da fotógrafa Diane Arbus (1923-1971). Uma mulher que fez sucesso nos anos 60 e surpreendeu Nova York com imagens de anões, gigantes, travestis, homens-elefantes e todos aqueles excluídos que acabavam encontrando na marginalidade dos circos e cabarés o seu lugar no mundo. As fotos de Arbus tiradas com sua poderosa Rolleyflex chocaram e encantaram diveros olhares, até que ela mesma mergulhasse nesses universos sombrios.

Só que o filme, que assisti hoje, não mostra essa compulsão de Arbus pelo bizarro. Nem sequer toca na sua carreira bem sucedida com fotos veiculadas em publicações como a New York Times Magazine e Haapers Bazar. Com uma liberdade além da conta, o  diretor Steven Shainberg e o roteirista Erin Cressida Wilson exageraram na dose, decidiram levar para a tela o que teria acontecido no imaginário dessa fotógrafa, filha de ricos comerciantes de peles, casada com um fotógrafo e mãe de dois filhos.

A paixão de Arbus, sempre declarada pelos “outsiders”, toma um sentido muito mais que real nesse fime, é irreal ao cubo. A sensação é que estamos diante, mesmo nas cenas mais simples, de um desfile bizarro e sem nexo, sem o chamado lé com clé. E que nem chega a agredir, como geralmente ocorre quando se joga ao público um quebra-cabeças, como o fez Ingmar Bergman no seu magistral “Gritos e Sussurros”. O filme “A pele” passa mais a sensação de desrespeito para com os deficientes físicos e psicológicos, para com a própria Arbus, autora de um trabalho consistente na fotografia, do que para com a platéia, que fica querendo entender o que não é para entender e deixa a sala de cinema procurando explicações e tentando, num exercício esquisito, buscar consistência aonde não tem.

Nicole Kidman, que vive Arbus; e Robert Downey Jr., na pele do peludo Lionel Sweeney, um dos outsideres que levará Arbus ao encontro de um mundo subterrâneo que a fascina, apesar do olhar assustado, seguram o filme. Mas como ele é longo demais, também perdem um pouco do fio da mal costurada história que se desejaria contar. O cinema europeu consegue levar esse tipo de história para a tela porque tem a preocupação de mergulhar mais a fundo nos personages e aí o tempo arrastado é até uma contribuição ao entendimento, o que não ocorre com “A pele”, onde os personagens ficam na supercifície de uma longa jornada cinema adentro.

Downey não conseguisse se impôr com os olhos e a fala pareceria mais um personagem de “A Bela e a Fera”, que se perdeu nos estúdios da Disney ou na própria Disneylândia, caindo de pára-quedas nesse pretencioso filme.
 
E se a Arbus vivida por Nicole Kidman busca numa bóia o ar de Lionel-Downey Jr, é fôlego o que falta ao filme para dar um sentido mais digno e dignificante a uma brilhante fotógrafa e a seus fotografados “outsiders”. É o filme é que é “outsider” em relação a Arbus.

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