Povo de fé

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Thais Leitão
Repórter da Agência Brasil

   
Rio de Janeiro – A religiosidade do brasileiro está em alta. Pela primeira vez, em mais de um século, a proporção de católicos parou de cair e se manteve estável entre os anos de 2000 e 2003, atingindo quase 74% da população brasileira. O número de evangélicos continua crescendo (passou de 16,2% para 17,9%) e o das pessoas que não têm qualquer religião sofreu queda de 7,4% para 5,1%. Os dados constam de pesquisa divulgada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Para o pesquisador Marcelo Nery, responsável pelo estudo, a chamada “reação católica” pode estar relacionada à melhoria na distribuição de renda entre as camadas mais pobres da população (classe E), que ao lado da elite econômica (classe A) é a mais representativa da religião católica. Segundo Nery, a transferência de renda proporcionada por programas de assistência, como o Bolsa Família, contribuiu para que os mais pobres deixassem de abandonar o catolicismo.

“Quando as condições econômicas são favoráveis, as pessoas deixam de procurar novas religiões”, explicou Nery.

O estudo também revela que com a crise metropolitana nas últimas décadas, o inchaço das grandes cidades, o aumento da violência e a piora do acesso aos serviços públicos, as igrejas evangélicas pentecostais (Assembléia de Deus, Universal do Reino de Deus etc.) e os sem religião tiveram um crescimento mais expressivo nas periferias. Nery acredita que com o surgimento dessa “nova pobreza”, as pessoas seguem em geral dois caminhos. “Ou se apegam a religiões de práticas mais intensas, como as pentecostais, ou perdem a esperança e viram sem religião”, disse.

Segundo o pesquisador, o crescimento das igrejas pentecostais nessas áreas (metrópolis) também pode ser entendido como uma forma de ocupar uma lacuna deixada pelo Estado, com desemprego, favelização, precariedade de acesso aos serviços públicos.

Ainda conforme aponta a pesquisa da FGV, as mulheres são mais religiosas do que os homens. De um total de 50 religiões observadas, a predominância feminina foi verificada em 43 delas. Elas são, no entanto, menos católicas do que os homens. Marcelo Nery explicou que com a revolução feminina e a entrada no mercado de trabalho, as mulheres passaram a ter novas necessidades que não foram correspondidas pela Igreja Católica, como o uso de métodos contraceptivos e a possibilidade do divórcio.

A pesquisa apresentada ontem, dia 2 de maio de 2007, no Rio de Janeiro, tomou por base os dados da Pesquisa Orçamentária Familiar do ano de 2003, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outras informações sobre o mesmo estudo serão divulgados, de acordo com a FGV, na sexta-feira, em São Paulo.


 

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