A BELA, O FEDORENTO E O SECULAR ABISMO SOCIAL

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Por Marcelo Teixeira*

            Em abril de 2016, pouco antes da votação, na Câmara, do impeachment da presidente Dilma Rousseff, a revista Veja publicou uma matéria sobre a, então, provável primeira dama Marcela Temer. O título gera piadas e comentário até hoje: Bela, recatada e do lar.

            Não vou entrar no mérito de discutir a questão machista, doméstica e opressora fortemente contida nos três adjetivos. Mesmo porque não faltaram debates a respeito à época. Meu objetivo é fazer um paralelo com o seguinte anúncio de emprego publicado no jornal Tribuna de Petrópolis em 20 de novembro deste mesmo ano. Reproduzo-o, com exceção do contato para a vaga.

 

“SERVENTE DOMÉSTICO para serviço sujo, pesado e fedorento. Ofereço R$ 900,00 mensais. Café da manhã, almoço, jantar, horas extras e quarto para dormir. Exijo que trabalhe aos sábados, domingos e feriados. Darei preferência aos que tiverem mais habilidades.”

 

            A escravidão ainda não acabou em nosso país, assim como a monarquia. Basta levantarmos o tapete e veremos os dois lá. Basta contrapormos a sinhazinha bela, recatada e do lar que ocupa a casa grande mor com o operário que, por necessidade e sem noção dos direitos que a lei lhe garante, aceitará o trabalho sujo, pesado e fedorento. Fico imaginando o que ele fará de tão fedorento assim. E fico imaginando como o contratante irá escolher o mais provido de habilidades. Haverá alguma prova de esforço físico, como carregar pedras e levantar toras de madeira?

            Isso me faz lembrar um post que li na rede social Facebook logo após o primeiro turno das eleições de 2016. Um rapaz que atuou como mesário em Ipanema, bairro da alta classe média carioca, ficou abismado de ver a quantidade de mulheres que apareceu para justificar o voto. Todas residentes e com o título de eleitor registrado em cidades do Grande Rio, como Nilópolis, Belfort Roxo e Duque de Caxias. Todas empregadas como babás, cozinheiras e similares por famílias de alta renda. Nenhuma delas estava na cidade de origem para exercer o direito ao voto simplesmente porque os patrões não deixaram. Não foram liberadas; tiveram de trabalhar. E, provavelmente, dormem em exíguos quartinhos de empregada e usam um banheiro idem. Resquícios arquitetônicos da senzala incrustados dentro de apartamentos. Escravidão pura que revolta a quem tem um mínimo de dignidade.

            Milhares foram às ruas exigir o impeachment da presidente Dilma Rousseff, manifestar ódio aos partidos de esquerda e chamar de comunistas todas as pessoas que clamam por justiça social. Muitos pensadores de bom senso se apressaram em dizer que essa turba vestida de verde e amarelo não queria o fim da corrupção ou similar. Como se esse mal tivesse surgido com a ascensão do PT à Presidência, em 2002. Aliás, depois que Michel Temer e asseclas subiram ao poder, as panelas – símbolo mor dos que queriam o afastamento de Dilma – pararam de bater. Todos que as batiam voltaram cândida e comodamente às suas vidinhas. O motivo, portanto, não era gritar contra a corrupção. Eles lutavam para não perder a certeza (ou ilusão) de que pertencem a uma casta superior. Por isso, descabelaram-se ao verem os outrora pobres andando de avião, fazendo faculdade etc.

            E para coroar o contraste que muitos não querem deixar para trás, temos os três adjetivos reacionários que classificam a primeira dama versus os outros três que qualificam o trabalho que algum escravo do século 21 exercerá na Região Serrana do RJ.

            A palavra atavismo vem do latim atavus e significa ancestral. Significa hábitos e comportamentos que herdamos de nossos ascendentes e que repetimos automaticamente sem nos darmos conta. O comportamento escravagista é um deles.

            Eis por que uma educação rica de possibilidades tem de ser questionadora e ensinar o aluno a filosofar. Só quem aprende a enxergar o mundo com olhos racionais percebe esses atavismos e aprende a superá-los, quebrando círculos viciosos que atravessam gerações. Obviamente, não são mudanças que aparecerem da noite para o dia. Mas quanto antes nos conscientizarmos e lutarmos por mudanças, melhor.

*Marcelo Teixeira é jornalista e publicitário.

 

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Sobre o autor

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