A BRASILEIRA QUE A HISTÓRIA ESQUECEU

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Por Marina Simões*

Pesquisa inédita realizada por duas docentes da Universidade de Londres, Elise Dietrichson e Fatima Sator, revelou algo muito importante para a história de nosso país e a mobilização global em defesa da condição feminina: a inclusão do princípio da igualdade de direitos entre homens e mulheres no documento que, em 1945, no cenário global que se seguiu ao término da segunda guerra mundial, oficializou a criação da Organização das Nações Unidas, na Conferência de São Francisco, Estados Unidos, resultou de uma proposta e da insistência de diplomatas latino-americanas lideradas pela cientista brasileira Bertha Lutz.

Ao contrário do que se entendia como verdade até agora, o princípio da igualdade de gênero enfrentou forte oposição das delegações norte-americana e britânica, às quais, ironicamente, se atribuía a autoria da avançada proposta para a época. Bertha Lutz, com ajuda de delegadas do Uruguai, México, República Dominicana e Austrália, reivindicou a inclusão da defesa dos direitos das mulheres na Carta das Nações Unidas e a criação de um órgão intergovernamental para a promoção da defesa universal da condição e das prerrogativas femininas.

As delegações das mulheres dos Estados Unidos e Inglaterra opuseram-se às propostas, classificaram de “vulgares” os argumentos de igualdade de gênero e afirmaram que a população feminina “já estava bem estabelecida na sociedade”. Em seu revelador estudo de resgate histórico, as duas pesquisadoras britânicas relatam que a cientista brasileira respondeu de maneira enfática, nos debates, que “em nenhum lugar do mundo havia igualdade completa de direitos com os homens”. Com certeza, ela estava absolutamente correta, como se pôde observar ao longo da história do Século XX e até o momento, apesar dos numerosos avanços conquistados.

Nascida em São Paulo, no dia 2 de agosto de 1894, filha da enfermeira inglesa Amy Fowler e do cientista Adolfo Lutz, pioneiro em medicina tropical, Bertha Lutz era zoóloga, formada em biologia na Sorbonne, em Paris. Vivenciou a campanha sufragista inglesa e é reconhecida como uma das principais líderes na conquista dos direitos políticos da mulher brasileira e de sua prerrogativa de votar e ser votada.

A pesquisa das acadêmicas britânicas, que acaba de ser divulgada pela própria Organização das Nações Unidas, posiciona nosso país como protagonista na luta histórica pela igualdade de direitos entre mulheres e homens, que ainda enfrenta numerosos desafios e obstáculos a serem vencidos. É lamentável constatar que, em 2015, na 10ª edição do Relatório sobre a Desigualdade de Gênero do Fórum Econômico Mundial, no qual são avaliados indicadores de 145 nações, o Brasil tenha caído quatorze posições, descendo do 71º lugar, em 2014, para a 85ª posição. Na edição anterior do estudo, já havíamos perdido nove postos.

Muito provavelmente, a grave crise econômica que estamos enfrentando nos últimos anos tenha contribuído para o retrocesso nessas estatísticas, o que evidencia a fragilidade da condição feminina na sociedade, 71 anos após a instituição do tratado internacional que criou a Organização das Nações Unidas. O País, porém, conta com numerosas mulheres trabalhadoras, dentre elas executivas e dirigentes de empresas, que seguem mobilizadas, ao lado de toda a população, pela retomada do crescimento econômico e a superação das dificuldades hoje enfrentadas pelos setores produtivos.

Revigoradas pela revelação do feito de Bertha Lutz, as brasileiras estão mais fortes do que nunca na convicção sobre a sua capacidade de contribuir muito para que o nosso país seja mais próspero, justo e desenvolvido. Foram de extrema relevância a elaboração e a divulgação da pesquisa das acadêmicas da Universidade de Londres. O estudo resgatou a memória de uma mulher brilhante que a história havia esquecido, cuja contribuição foi relevante na mobilização civilizatória pela igualdade de gênero, um direito fundamental e decisivo ao definitivo avanço da sociedade mundial.

*Marina Simões é Gerente Executiva da Locar Guindastes e Transportes Intermodais.

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