BREXIT E O DILEMA DAS STARTUPS DE TECNOLOGIA NO REINO UNIDO

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Por Robert Siegel

Muito se tem dito a respeito das consequências do referendo do Reino Unido que questiona a associação com a União Europeia, em relação ao potencial impacto do resultado a favor da ‘saída’ britânica nas startups de tecnologia da região.

 Em particular, especulações de que esse novo cenário poderia constituir uma ameaça substancial à posição que Londres ocupa como principal hub preeminente de startups de tecnologia na Europa, ao lado de cidades como Berlim, Amsterdã, Estocolmo e TelAviv, que potencialmente competem pelo posto.

O comissário para startups de Dublin, Niamh Bushnell, de fato divulgou uma circular por e-mail logo após o anúncio do resultado do referendo, enaltecendo a “nova oportunidade de atrair empreendedores seriais ou de primeira viagem” para a cidade, que já é sede européia de empresas como Twitter, Airbnb e Slack.

As implicações

É uma possibilidade que, uma vez fora da União Europeia, Londres possa perder parte de seu esplendor, à medida que os elementos do efeito halo, provocados pelo ecossistema estabelecido,forem diminuindo.

Por um lado, fundadores de novas startups podem pensar duas vezes antes de mudar para Londres, ou sequer se importar em deixar empregos estáveis para começar do zero; contudo, startups já incorporadas à capital britânica podem não estar preparadas para cortar raízes e mudar para a União Europeia, também chamada pelos britânicos de ‘Continente’.

No fim das contas, ainda é cedo demais para ter certeza. Há, entretanto, outra área em que um impacto sobre as startups de tecnologia do Reino Unido já vem sendo registrado, pelo menos informalmente: a disponibilidade de capital de investimento.

 

Apetite por investimentos

O apetite de investidores por investimentos especulativos em startups de tecnologia vinha caindo antes da confirmação do referendo, porém a expectativa de materialização do Brexit vem atuando como catalisador de uma incerteza e volatilidade consideráveis nos mercados. 

Há rumores de que qualquer corte nos investimentos em startups de tecnologia no Reino Unido pode ser adiado por conta das somas recorde levantadas pelas firmas de capital de risco no primeiro trimestre deste ano, além da ‘necessidade’ dessas empresas investirem o capital.

É claro que elas não têm que gastar esse dinheiro agora, pelo menos não no Reino Unido; elas poderiam reduzir a taxa de investimento, ou simplesmente endereçar seus montantes as startups merecedoras em outros mercados. 

A tese de que, na verdade, não haverá qualquer ‘atraso’ na disponibilidade reduzida de capital de investimento parece ser corroborada pelo fato de o investimento de capital de risco em startups de tecnologia européias ter caído mais de um terço durante o segundo trimestre deste ano.

 

Procurando uma saída

Esta acessibilidade reduzida do capital de investimento pode levar muitos fundadores de startups a olhar com mais seriedade para oportunidades de retirada; na verdade, à medida que o mercado de financiamento desacelera e permanece incerto,com a ausência de um cronograma e escopo completo, vender pode até se tornar uma necessidade para alguns.

Com menos capital exterior disponível, um ônus maior cairá sobre os empreendedores que buscam tornar suas startups sustentáveis. No entanto, especialmente para empresas que estão começando ou crescendo rapidamente, isso pode parecer mais fácil na teoria do que na prática: nos estágios iniciais de vida, uma startup pode carecer de uma base de clientes ou modelo de negócios monetizado para continuar crescendo sem apoio externo, enquanto startups que estão crescendo rápido geralmente precisam de injeções de investidores para manter o vigor e atender os custos operacionais, enquanto ganham escala rumo à rentabilidade consistente. 

Em ambos os cenários, os fundadores correm o risco de ter que congelar o crescimento e, sentindo que talvez não tenham a oportunidade de acelerar novamente, considerar a liquidação de ativos uma boa ideia.

 Outra consideração para fundadores, no entanto, é que, enquanto a falta de capital de investimento disponível pode ampliar o apetite por fusões e aquisições, ela cria um mercado de compradores, em que as avaliações de aquisição são empurradas para baixo.

 Compradores não são bobos: se uma startup não consegue atrair investimento no mercado aberto, os investidores se tornam mais suscetíveis a ofertas de compra que podem, caso contrário, serem cogitadas na constituição de um ‘lowball’ (variedade do pôquer onde a mão mais baixa leva a rodada) baseada em avaliações feitas no clima pré-Brexit.

 Tomando a decisão certa

Empreendedores terão que decidir se diversas negociações realmente valem a pena. Para alguns, fará mais sentido apertar o cinto e buscar superar este período de incerteza do investidor, enquanto sustenta-se o crescimento o máximo possível, além de focar a aceleração assim que a situação se tornar mais clara e investidores estiverem outra vez preparados.Estes, por sua vez, terão que aceitar a possibilidade de que as avaliações poderão jamais recuperar completamente os patamares (talvez ‘superficiais’, em certa medida) pré-referendo.

 Para outros, contudo – em particular aqueles cujos negócios podem não estar suficientemente bem estabelecidos para tolerar um período de entrincheiramento – pode ser uma escolha melhor cortejar ofertas de aquisição e retirar-se agora.

 Não será uma decisão fácil para os empreendedores – mas poderá ser essencial no sucesso de longo prazo do negócio, seja qual for o caminho que eles escolham seguir. 

Robert Siegel, Professor de Gestão na Escola de Negócios da Universidade de Stanford e parceiro da XSeed Capital (US), explora o impacto do Brexit na cena de startups de tecnologia no Reino Unido.

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