DIÁRIO DO GOLPE: OS HISTORIADORES E O GOLPE DE 2016 NO BRASIL

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Leia o texto que apresenta o livro, recém lançado pela Alameda Editorial:

O livro Historiadores pela democracia: o golpe de 2016 e a força do passado é um exercício de história imediata construído a partir da seleção e organização em ordem cronológica, de textos, entrevistas e depoimentos de historiadores e cientistas sociais produzidos, em sua maior parte, no calor do processo da atual crise política brasileira.

Os textos nos fazem reviver a dramaticidade e as polêmicas em torno da condução coercitiva do ex-presidente Lula, da divulgação dos grampos da presidenta Dilma e do espetáculo midiático com apelo a manifestações das ruas. Também contrariam as tentativas de silenciar a resistência contra o golpe e denunciam o crescimento de expressões de ódio, refletidos no muro em Brasília e no espetáculo grotesco da sessão de 17 de abril da Câmara dos Deputados. Expressam ainda a tristeza e a sensação de volta ao passado do 13 de maio de 2016.

Os olhares sobre a crise aqui registrados são, antes de mais nada, plurais, mas guardam um denominador comum: a convicção, construída a partir de um raciocínio historiográfico, de que nossa democracia corre risco.

O movimento Historiadores Pela Democracia surgiu em abril de 2016 com o objetivo imediato de colher depoimentos em vídeo, cresceu como um grupo de discussões no Facebook (hoje com mais de 8 mil membros) e cristalizou-se com a iniciativa de visitar a presidenta Dilma no Palácio do Alvorada, encontro que se deu no dia 7 de junho e para o qual foi elaborado um vídeo-manifesto.

Reunindo historiadores com carreira consolidada nacional e internacionalmente e jovens profissionais de história, o movimento não pretende representar todos os profissionais da área, divididos politicamente como expressão que são da sociedade brasileira.

Uma parcela significativa de nós, entretanto, enquanto profissionais de história, sentimo-nos na obrigação de denunciar o golpe em curso, tomando por base nossa experiência de pesquisa e os problemas que formulamos para interrogar o passado.

Cabe lembrar que a diretoria da Associação Nacional de História (ANPUH), com apoio de seus membros, tem se manifestado frequentemente contra atos que comprometem o exercício de uma democracia plena no Brasil e, como afirmou sua representante no encontro do Alvorada, continuará fiel ao compromisso de denunciar e repudiar qualquer ameaça aos direitos garantidos pela Constituição de 1988, sobretudo os que foram adquiridos recentemente pelas minorias.

Foi em encontro na UnB (Universidade de Brasília), onde nos reunimos antes da cerimônia no Alvorada no dia 7 de junho para discutir nossas angústias comuns com a conjuntura política e organizar alguma forma de resistência, que a pauta da defesa dos direitos inscritos na Constituição de 1988 se impôs como principal bandeira prática de luta. Os ataques da reação antidemocrática aos estudos de gênero e às novas noções de família, às políticas de ação afirmativa, à liberdade de ensino, bem como as tentativas de redefinir direitos indígenas e a noção de trabalho escravo contemporâneo, entre outros aspectos da agenda conservadora infelizmente têm lastro e também repercussões globais.

No encontro da UnB decidimos reunir em livro alguns textos já produzidos por historiadores profissionais sobre o processo político em curso, bem como apresentados em encontros e debates em torno do lema “nenhum direito a menos”. Para tanto, selecionamos textos que permitiam compor uma crônica compreensiva dos acontecimentos, do ponto de vista histórico.

É preciso esclarecer, em tempos de louvor a pensamentos que se querem únicos, que a operação historiográfica que informa o discurso do historiador não supõe a construção de qualquer versão unívoca da história. Pelo contrário, a capacidade de formulação de novos problemas e interpretações são marcas metodológicas de nossa formação profissional. Não falamos em nome de todos os historiadores, mas falamos em sintonia com muitos deles, tomando por base nossos problemas de pesquisa específicos para interpretar os acontecimentos recentes e nos posicionarmos no atual momento político.

Uma discussão do campo de possibilidades em cada contexto específico informa muitos dos textos. Se há algo que o conjunto do livro sugere é uma surpreendente e, na maioria das vezes, indesejada capacidade de previsão. “Os riscos do vice-presidencialismo”, de Luiz Felipe de Alencastro, artigo publicado em 2009, que abre a primeira parte do livro, sobre os antecedentes do golpe, é apenas o exemplo mais expressivo dessa característica. Os textos dessa parte reúnem também declarações explícitas de voto às vésperas do segundo turno das eleições de 2014, momento em que estava explícito o contraste entre diferentes projetos de nação. Um aspecto central do ataque à democracia em curso é justamente a cassação dos mais de 54 milhões de votos que legitimaram o mandato presidencial de Dilma Rousseff e a implantação do projeto derrotado nas urnas.

Na segunda parte da obra, optamos por textos que compõem uma crônica viva e compreensiva da teia factual que resultou no momento dramático que ainda estamos vivendo. Nela, a formulação de que há um golpe parlamentar, jurídico e midiático em curso ganha contornos concretos, com atores e ação específicos.

A campanha pelo impeachment liderada por adversários políticos da presidenta eleita e por representantes das mídias que, retomando sua tradição golpista, instigaram a população contra o governo, bem como a postura dos parlamentares durante a votação e a comemoração da abertura do processo deixaram evidentes a permanência de uma cultura política antidemocrática, afeita a manobras, negociações e acordos espúrios que a Nova República não foi capaz de eliminar.

Os textos produzidos no contexto da articulação do movimento Historiadores Pela Democracia compõem a terceira parte do livro.

Uma quarta e última parte reúne três abordagens interpretativas sobre os sentidos do golpe escritas às vésperas da votação do processo de impeachment no Senado Federal.

No conjunto, o livro reúne historiadores de diferentes gerações e textos originalmente publicados nas mais diversas mídias: jornais de grande circulação no Brasil e fora dele, sites de notícias, revistas virtuais, blogs e páginas pessoais no Facebook. Ele reflete os efeitos positivos de democratização do acesso à informação possibilitados pela internet no Brasil, a despeito dos novos problemas que as bolhas de opinião no mundo virtual podem ensejar. Representa, sobretudo, um esforço por quebrar essas barreiras invisíveis, potencialmente geradoras de intolerância e ódio. Convidamos os leitores a lerem o livro, que revela bem mais que a soma de suas partes e também a conferirem os vídeos e demais textos analíticos disponíveis no nosso arquivo virtual no Tumblr.

Por fim, agradecemos à Alameda Editorial que decidiu bancar o projeto e produzir o livro em tempo recorde.

28 de julho de 2016

 

Sumário

Parte I: Antecedentes

Das jornadas de junho à sabotagem do segundo mandato de Dilma

Os riscos do vice-presidencialismo
Luiz Felipe de Alencastro

O ano em que minha família saiu de férias
André Honor

Olhemos o que se oculta por trás do tapete do jogo midiático e político!
Luiz Carlos Villalta

O gigante
Hebe Mattos

A “velha corrupção”: carta aberta aos jovens sobre as eleições
Sidney Chalhoub

A FIESP e a revolução dos patos
Joana Monteleone

Parte II: A crônica do golpe no olhar do historiador

Março de 2016: o golpe jurídico e midiático

Dois domingos, com duzentos anos de intervalo
Beatriz G. Mamigonian

A crise brasileira, em perspectiva histórica
Marcos Napolitano

A História como hiperficção
Sidney Chalhoub

A justiça burguesa
Anna Gicelle Garcia Alaniz

Um juiz da roça
André Machado

Desfaçatez de classe
Sidney Chalhoub

O Brasil à beira do abismo de novo
Rodrigo Patto Sá Motta

Abril de 2016: o golpe parlamentar

Homenagem do vício à virtude
Hebe Mattos

Brasil despedaçado
Fernanda Sposito

O ódio como marca e a encruzilhada da democracia no Brasil
Ana Flávia Magalhães Pinto

Manifestação da Anpuh Nacional contra a votação do impeachment na Câmara dos Deputados

A insurreição dos hipócritas. Base social e ideologia
Sidney Chalhoub

Ustra, morto e vivo
Caroline Silveira Bauer

Maio de 2016: a tomada do poder? Nem decorativo, nem decoroso
Carlos Fico

Entrevista com Laymert Garcia dos Santos

Brasil: passado e presente e ironias da história
James N. Green

Treze de maio: Conversa de historiadoras
Uma data para refletir e celebrar

Hebe Mattos

Treze de maio também é dia de negro!
Ana Flávia Magalhães Pinto

É uma questão política, como insiste o orador
Keila Grinberg

Sexta-feira 13 (de maio)
Giovana Xavier

O 13 de maio e os olhos do mundo
Mônica Lima

Festas de 13 de maio
Martha Abreu

Carta aberta ao embaixador Michael Fitzpatrick
James Green

Brasil: virando as costas ao futuro
por James N. Green e Renan Quinalha

A democracia mínima e o risco da crise brasileira
Luiz Fernando Horta

“Pensamento brasileiro” na encruzilhada
Henrique Espada Lima

O cavalo de Troia do parlamentarismo
Luiz Felipe de Alencastro

Parte III: Historiadores Pela Democracia

O governo interino avança e recua

Os historiadores e a Presidenta. Carta aberta a Dilma Rousseff
Hebe Mattos

Carta à Presidenta
Adriana Facina

Historiadores no Alvorada
Wlamyra Albuquerque

Manifesto Historiadores pela Democracia

Mais respeito com a biografia dos outros, pessoal
Keila Grinberg

O ofício do historiador e os formadores de quadrilha
Silvia Hunold Lara

Carta aberta ao Estado de São Paulo, em resposta ao editorial de 14 de junho de 2016
Suzette Bloch e Fernando Nicolazzi

“Escola sem partido”: a escola do nosso tempo?
Henrique Estrada Rodrigues

A força do passado
Hebe Mattos

Parte IV: O golpe de 2016: primeiras interpretações

O governo interino e a disputa pelo lugar do Brasil no mundo

O golpe de 2016 na vida das mulheres
Ana Flávia Cernic Ramos e Glaucia Fraccaro

Entre 2013 e 2016, das “jornadas de junho” ao golpe
Kátia Gerab Baggio

No Brasil, o golpe de Estado como dramaturgia clássica
Laurent Vidal

Sobre os autores:

Adriana Facina é professora no Museu Nacional, UFRJ.

Ana Flavia Magalhães Pinto é pesquisadora na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Ana Flavia Cernic Ramos é professora na Universidade Federal de Uberlândia.

Anna Gicelle Garcia Alaniz é doutora em História pela USP e responsável pelo blog Compartilhando Histórias e pelo canal Cantinho da História no Youtube.

André Honor é professor da Universidade de Brasília.

André Machado é professor na Universidade Federal de São Paulo.

Beatriz G. Mamigonian é professora da Universidade Federal de Santa Catarina.

Carlos Fico é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Caroline Silveira Bauer é professora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Hebe Mattos é professora da Universidade Federal Fluminense.

Henrique Espada Lima é professor da Universidade Federal de Santa Catarina.

Henrique Estrada Rodrigues é professor da PUC-RJ.

Fernanda Sposito é pesquisadora na Universidade Federal de São Paulo.

Fernando Nicolazzi é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Giovana Xavier é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Glaucia Fraccaro foi coordenadora de Autonomia Econômica das Mulheres da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. É doutoranda em História Social na Unicamp.

James N. Green é professor titular de História do Brasil na Brown University, diretor da Brown-Brazil Initiative e diretor Executivo da Brazilian Studies Association (BRASA).

Joana Monteleone é historiadora e pós-doutoranda na UNIFESP.

Kátia Gerab Baggio é professora da Universidade Federal de Minas Gerais.

Keila Grinberg é professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)

Laurent Vidal é professor de história das Américas e do Brasil na Université de La Rochelle.

Laymert Garcia dos Santos é professor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Luiz Carlos Villalta é professor da Universidade Federal de Minas Gerais.

Luiz Felipe de Alencastro é professor da Escola de Economia da FGV/São Paulo.

Luiz Fernando Horta é historiador e mestre em Relações Internacionais. É doutorando na UnB.

Marcos Napolitano é professor na Universidade de São Paulo.

Martha Abreu é professora da Universidade Federal Fluminense.

Mônica Lima é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Renan Quinalha é mestre em direito pela USP e está fazendo o doutorado em Relações Internacionais na mesma universidade.

Rodrigo Patto Sá Motta é professor da Universidade Federal de Minas Gerais.

Sidney Chalhoub é professor de História do Brasil na Harvard University.

Silvia Hunold Lara é professora da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Suzette Bloch é jornalista.

Tânia Bessone é professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Wlamyra Albuquerque é professora da Universidade Federal da Bahia.

Livro: Historiadores pela democracia
Autor: Hebe Mattos, Tânia Bessone e Beatriz G. Mamigonian (orgs.)
Edição: Alameda (tel.: 11 3012-2403)
Preço: R$ 44,00 (284 páginas) – 14,0 x 21,0 – Brochura – 0, 292 Kg
ISBN: 978-85-7939-408-9

Compre online na loja da Alameda Editorial. 

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Sobre o autor

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