SOU DO SÉCULO PASSADO

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Por Heloísa Antônia Franco*

Sou do século passado. É forte dizer isso: tem a força de um século.

Um século parece coisa pequena mas, coisas demais acontecem neste tempo. Cheguei até a ler um texto de Deleuze que se chama Filosofia para suínos, de tanto que a coisa vai mal!!! Só conversando com suínos e fazer filosofia para os porcos em seu puro ser natureza.

Sou filha da ditadura, nasci no medo, na angústia da mentira, no desespero à perseguição e à prisão de tios comunistas perseguidos e atrevidos, na revolta do silêncio forçado… Pensar nem pensar!!!Estava proibido e nem se falava disto. Havia uma criança que sentia tudo isto nos não ditos que berravam e desentendiam.

A tv não existia, o computador surgiu em minha vida em 1993. As tecnologias afetivas se davam ao vivo e a cores e com bastante troca. As infomaçoes eram diretas e as pessoas bem próximas. Eu vivia ao redor das conversas das mulheres, aprendi tudo sobre o machismo, o feminismo, as raivas do subjulgamento.

Um dia aos 8 anos de idade ouvi uma das mulheres dizendo: Näo gosto de sexo. O que devo fazer? A que a outra responde: Eu amo sexo e gosto de fazer toda noite e, como isso é bom! As mulheres estavam aprendendo a soltar a voz sexual, de seus gostos, gozos e seus prazeres.

Uma delas não gostava de usar calcinhas, então aquilo era uma revolução para mim e uma diversão em ficar olhando por debaixo da saia e me alegrar em ver o rompimento das morais tão acirradas na época. Era um modo de se libertar e enfrentar os não ditos aprisionantes. Eu amava aquele devir revolucionário que revolucionou meu modo de olhar para o feminino. Os homens eu sempre os via mijando na rua, nadando nus, tirando o sexo para fora para fazer xixi fosse onde fosse e as mulheres sempre aguardando nas filas das toiletes.

Depois neste século eu vi um presidente recebendo impeachment, gente de sua turma sendo presa e, agora, mais um impeachment sendo muito desejado e esperado pela mesma classe desde a ditadura.

Vi as Diretas Já vencendo e vi Tancredo morrendo…Vi a esperança se esvaindo… vi a tristeza em um país inteiro a chorar…de inconformismo e surpresa.

Vi Tancredo não saindo vivo do hospital…

Vi milhares de índios desaparecendo…Vi as mulheres jogando fora o sutiã, juntar com os homens sem casar, sem o consentimento e aprovação da igreja.

Vi a legalização do aborto em muitos países, da maconha e agora até sexo com animais está sendo liberado…

Atravessei o milênio. Festejei a passagem para o novo século. Vi as torres gêmeas desabarem. Assisti Recife sendo invadida por tubarões. Dizem que foi porque construíram um porto lá onde não deveria estar nunca. Os tubarões ficaram sem os seus alimentos e procuram agora carne pra comer, a humana e dizem que não a comem, só estão nervosos por falta de seu habitat.

Vi um metalúrgico sendo presidente do Brasil. Vi um negro sendo presidente dos Estados Unidos. Vi um presidente que ficou 10 anos dentro de uma solitária sem nenhum livro para ler e levando ao mundo o que realmente tem importância neste mundo.

Vi uma guerra ao vivo de videogame em tempo real.

Vi o mundo se tornando egoísta, individualista postando fotos das comidas nos seus pratos, dos cabelos pintados e suas unhas coloridas para o mundo ver. Vi gente postando as empresas aéreas que viaja, o creme que passam no corpo, o perfume que usam.

Vi conversas nas calçadas entre toda a vizinhança. Vi crianças soltando pipas no meio da rua. Vi crianças fazendo suas pipas e seus carrinhos de rolimä, jogando carimbada, batendo bola na rua. Fiz pipas. Vendi pipas de vareta de bambu e cola de goma. Brinquei de carrinho de rolimä e descia o morro em disparada com os meninos no meu carrinho que eu montava. Vendi pipas porque precisava comprar o meu maior desejo: bombons sonho de valsa, que como até hoje todos os dias e, nunca me fizeram mal. Vi todo tipo de comida e comi e saboreei.

Vi gente bonita morrer de fome. Vi gente morrer por beleza.

Vi o self service nascer, Vi mulher sair de casa e trabalhar fora. Vi as creches para crianças brotarem. Vi a primeira mulher entrar na faculdade de Medicina em Uberlândia. Vi homens serem presos por não pagarem as pensões para seus filhos. Vi mulheres sendo presas por espancarem seus filhos. Vi homens presos por violentarem as mulheres. Vi crianças refugiadas sendo mortas. Vi gente morrer de fome. Vi gente morrer na porta de hospitais. Vi gente morrer… muita gente… e ser morta… mais ainda, ví. 

Vi os frutos amargos da segunda guerra. Vi o fruto amargo do genocídio. Vi matança de crianças, de jovens, de negros, de homossexuais

Vi prédios cairem por insuficiência de material

Vi comida sendo jogada fora.

Vi o nascimento da democracia e ví também a morte de Tancredo.

Vi a cura da aids. Vi a gravidez in vitro. Vi mulheres não querendo ser mães. Vi a gravidez indesejada. Vi a gravidez independente. Vi o divórcio.

Vi tantas coisas. Vivi tantas coisas.

Vi crianças com câncer. Vi crianças sem pernas. Vi tristezas no olhar. Vi desespero. Vi a fome.Vi a tortura.

Vi crianças sendo colocadas no lixo. Vi pessoas pegando crianças no lixo. Vi crianças espancadas com fratura craniana. Vi partos cesária sem anestesia. Vi o dinheiro não chegar nos postos de saúde. Vi os remédios não chegarem.Vi escolas sem merenda. Vi muita gente sem atendimento hospitalar. Vi gente morrer na porta de hospital, e dentro também. Vi mães odiando seus filhos. Vi homens picando corpos e congelando no freezer. Vi homens desaparecendo com corpos. Vi homens sendo enterrados vivos. Vi homem sendo morto por misericórdia. 

Vi cidades desaparecer por enchentes. Vi cidades desaparecer por descuido. Vi cidade virar lama.

Vi pássaros mortos para as fantasias de carnaval. Vi animais mortos para fazer cremes. Vi comidas com venenos.

Vi carnes preparadas com papelão.

Vi florestas destruídas para ter carne.

Vi estrelas caindo. Vi pores do sol amarelos, laranjas, azuis, rosas, multicores.

Vi mares, rios, cascatas, cachoeiras.

Vi o amor.

Vi muito sangue.

Vi desastres ecológicos. Vi desastres geográficos. Vi muita morte.

Vi muita criança morrer porque não deu para nascer.

Vi negros na miséria.

Vi gente trabalhar sem receber. Vi gente trabalhar mais e receber menos.

Vi gente catando lixo prá viver. Vi estupros. Vi uma menina ser estuprada por 33 homens.

Vi gente espancada na rua por desejar um mundo melhor.

Vi a solidão no olhar.

Vi a doçura.

Vi o ódio.

Vi o amargor.

Vi o descaso.

Vi a competição.

Vi a alegria.

Vi o amor.

 

Vi. Viví. Vivo

*Heloísa Antônia Franco é psicóloga clínica.

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