Uma triste volta aos anos de chumbo da censura. Somente dessa forma pode ser vista a decisão do juiz-substituto Ricardo Geraldo Rezende Silveira, da 10ª Vara Federal Cível de São Paulo, que proibiu que o Jornal da Tarde publicasse reportagem sobre supostas irregularidades cometidas pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), apuradas pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
A liminar foi entregue ontem na redação do JT, mas antes o veículo havia sido comunicado da decisão pela assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça. Pelo documento, a publicação da matéria foi suspensa “até ulterior determinação desse Juízo”. A alegação do Cremesp para entrar com a liminar era de que “as supostas irregularidades não se sustentam” e que havia “intuito político da reportagem, ante o processo eleitoral em que se encontra a autarquia”.
Durante a tarde, o presidente do Cremesp, Henrique Carlos Gonçalves, insinuou em entrevista que poderia processar o jornal. Juristas e representantes de entidades da sociedade civil consideraram a decisão do juiz-substituto uma censura prévia. Silveira também intimou o Grupo Estado, do qual o JT faz parte, a “prestar esclarecimentos” no prazo de 72 horas.
“Há uma geração de brasileiros, na faixa dos 30 anos, que não viveu com a ditadura militar e que, portanto, não sabe na pele o que foi estar em um regime de censura prévia”, afirma Ricardo Gandour, diretor de Conteúdo do Grupo Estado.
“A decisão nos pegou de surpresa, pois a reportagem ainda estava em fase de apuração. Nossos repórteres receberam a denúncia e estavam chegando as informações, ouvindo os dois lados e a matéria ainda seria redigida. A decisão de publicação ou não ainda nem tinha sido tomada” o que deve caber somente ao jornal, como tem de ser um estado democrático de direito. Vale ressaltar o esforço de reportagem e a consistência do jornalismo praticado pelo jornal sob princípios éticos e profissionais que a sociedade acostumou-se a esperar de todos os trabalhos publicados pelas equipes do Grupo Estado”, complementa Cláudia Belfort, editora-chefe do JT.