Morillo Carvalho
Repórter da Agência Brasil
Foto de Elza Fiúza/ABr
Ceilândia (DF) – Em uma casa simples de Ceilândia, cidade satélite do Distrito Federal, o clima é só de festa. Muitos parentes e amigos comemoram a vitória da judoca Ketleyn Quadros sobre a australiana Maria Pekli, que lhe rendeu um bronze em Pequim.
Foi em Ceilândia que a atleta, primeira medalhista desta edição dos Jogos Olímpicos e primeira mulher brasileira a levar uma medalha individual em toda a história das Olimpíadas, viveu a maior parte de sua vida. A avó, os tios, a irmã e um de seus primeiros treinadores não conseguem descrever a felicidade que sentem pelo título da judoca de 20 anos.
Nossa Senhora, meu coração está disparado. Hoje eu levantei tremendo. Levantei, não, porque não dormi nada. Deitei só um pouquinho, mas fiquei pensando que ela ia lutar às 6 horas da manhã e não consegui. Estou emocionada até agora com a minha neta, dispara a avó, Marilda Oliveira, antes de qualquer pergunta.
Aos 80 anos, foi ela quem tomou conta de Ketleyn durante a infância e parte da adolescência. A mãe, cabeleireira, não podia acompanhá-la naquela fase, mas agora está em Pequim. Ela fazia força de lá e eu de cá, continua Marilda, sobre a primeira luta da neta hoje o embate foi com a japonesa Aiko Sato. Ketleyn venceu por ippon, deixou a adversária no chão (ela teve que sair sobre uma maca), e pôde disputar o bronze.
Força, aliás, é uma das características de Ketleyn que mais chamaram a atenção de quem a treinou. Robert Marques foi seu professor por seis anos e assegura: a judoca tem uma capacidade incomum. Ela é muito forte e muito determinada. Já podíamos notar que ela tinha um potencial diferente. Em Pequim, ela conseguiu pegar adversárias fortes, e aquelas adversárias fortes ela movimentava, procurando sempre a técnica perfeita, detalha o ex-treinador.
A atleta descobriu o judô aos sete anos. Aliás, não só o judô, mas os esportes: começou na natação e no atletismo, e foi seduzida pela modalidade no intervalo entre os que já praticava. O número de medalhas e troféus ainda não foi calculado. A família os expõe na garagem da casa onde também funciona um salão de cabeleireiro.
Na adolescência, a judoca quase foi modelo. Ela fez uma tentativa na carreira de modelo. A mãe dela cuidava, e ela já desfilava em algumas passarelas. Chegaram, inclusive, a fazer alguns investimentos a mãe é muito dedicada. Mas ela se dedicou mais ao lado esportivo, e conseguiu o auge no judô, relata o tio, Milton Lima, irmão da mãe de Katleyn.
Quem gostou foi o antigo treinador Robert Marques. Ainda bem que não deu certo, senão eu nem teria conhecido ela, porque eu não treino modelo, brinca. E conta, ainda, que não eram só as passarelas que a assediavam: as pistas de saibro também. Ela tentou essa carreira [de modelo], alguns professores do atletismo também tentaram levar ela para o atletismo, porque ela tinha um vigor físico invejável.
A determinação de Katleyn, que conseguiu engrenar no esporte com muita dificuldade em Brasília, demorou para conseguir patrocínio, e, com a evolução dos treinamentos, ela foi morar em Belo Horizonte (MG) onde passou a contar com o auxílio agora inspira a irmã mais nova, a estudante do 8º ano do Ensino Fundamental, Aline Oliveira.
Ela sempre foi um exemplo para mim. Sempre fomos amigas. Talvez eu volte para o judô, mas não é certeza. Não sou tão boa quanto ela, admite.