Isabel Capaverde
Escolhido para o ser o representante brasileiro a uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro no próximo Oscar, Última Parada 174 abre hoje o Festival do Rio 2008 de 25 de outubro a 09 de setembro. Com roteiro de Bráulio Mantovanni e direção de Bruno Barreto, o filme conta a história de Sandro Nascimento, alguém que viu ainda criança a mãe ser assassinada, fugiu da casa da tia e virou menino de rua, escapou de ser morto na Chacina da Candelária e teve seu fim ao seqüestrar o ônibus 174, na zona sul do Rio, num trágico e desastroso episódio transmitido ao vivo pelas televisões em junho de 2000.
Bruno Barreto, que tem no currículo 18 longas com esse, sendo que os dois últimos foram comédias O Casamento de Romeu e Julieta e Caixa Doi$ – no filme aborda as causas da violência urbana, a conhecida exclusão social. Nada que todos nós, especialmente os moradores das grandes cidades brasileiras, não saibamos de cor e salteado. Cruzamos todos os dias com Sandros nos sinais de trânsito, perambulando pelas ruas, na porta dos supermercados e lojas, nos ônibus. Portanto, já vimos esse filme. Sabemos até o seu final, infelizmente.
Além disso, o mesmo episódio rendera em 2002 o documentário Ônibus 174, de José Padilha (diretor da ficção Tropa de Elite). Significa que o antes, durante e depois do seqüestro foi amplamente debatido, discutido e explorado por toda mídia. Nacional e internacional. O evidente despreparo da polícia, então, foi alvo de pesadas críticas e repercutiu muito mal no exterior. Mas Bruno não toca nesse assunto, foca suas lentes única e exclusivamente na trajetória de Sandro e recria sua história dando a ela um tratamento ficcional. O próprio seqüestro do 174 surge nas cenas finais apenas como desfecho.
Para encenar história tão manjada, um elenco praticamente desconhecido. Ponto para Bruno. A maioria são iniciantes, muitos oriundos de grupos de formação de atores criados nas comunidades, como o premiadíssimo Nós do Morro trabalho muito bem-sucedido do jornalista e ator Guti Fraga com jovens e crianças da comunidade do Vidigal, no Rio – que continua jogando no mercado da dramaturgia jovens talentosos. São de grupos como esse Michel Gomes (o Sandro), Marcello Melo Jr. (Alê Monstro) e Gabriela Luiz (Soninha). Bruno ficou tão entusiasmado com o resultado que chegou a pensar em não trabalhar mais com atores profissionais nos próximos filmes.
Se Última Parada 174 conquistará o pessoal da Academia e chegará a concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro só saberemos ano que vem. Tudo leva crer que a escolha brasileira foi não somente pelo tema acreditamos piamente que os estrangeiros adoram ver nas telas os problemas sociais brasileiros mas por Bruno ter excelentes contatos nos Estados Unidos, país em que viveu e trabalhou anos até 2005, quando retornou ao Brasil e se instalou em São Paulo.
Depois de assistir Última Parada 174, saí do cinema com a mesma sensação que tive ao ver Ônibus 174, em 2002. E a história de Geisa Firmo Gonçalves ninguém vai contar? Sabem quem é essa? A refém morta no seqüestro. Repito aqui o que escrevi na ocasião. Geisa também era uma excluída, moça pobre que veio do Nordeste em busca de uma vida melhor e que não teve tempo de realizar seus sonhos. Foi morta na frente das câmeras aos 20 anos.