A NEW DEAL

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O ano de 2009 terá a marca de Barak Obama, o primeiro negro a chegar à presidência dos Estados Unidos da América. Mais: assume o poder na crista da mais aguda crise do capitalismo global, detonada pela fabulosa oferta de crédito imobiliário aos americanos que, inadimplentes, levaram bancos e seguradoras – e estas as resseguradoras – à lona. E, com isso, causaram ebulição em toda a cadeia produtiva. Sem crédito, montadoras não vendem carros e indústrias não vendem produtos e serviços. Empresas demitem e reduzem planos de investimentos. As bolsas, epicentros de especulações, despencam e transformam fortunas em pó.
E, como os Estados Unidos, são os maiores consumidores per capita do mundo e também os maiores importadores o reflexo foi global.
Obama, esse descedente de muçulmanos, cujo nome deriva da palavra “abençoado”, tem agora a missão de refazer esse mundo em ruínas e emitir sinais de uma nova trilha para economia americana e, por conseqüência e face à dependência do “império americano”, o mundo. A missão não é diferente, embora mais robusta, do que teve à sua frente, entre 1933 e 1937, Franklin Delano Roosevelt ao anunicar o “new deal” (literalmente novo acordo, novo trato) para reerguer a economia aemricana após a quebra de 1929, que arrastou bolsas e empresas também à lona. Alguns já se perguntam se Michelle Obama terá a mesma força e pulso de Eleanor Roosevelt, mas essa é outra história.
O que interessa é o clima de otimismo que cerca a ascensão de Obama à Casa Branca. Pesquisa da Euro RSCG, uma das grandes redes de agências da Europa, verificou que a era Obama será a do impulso, jovialidade, multidisciplinariedade, e ainda uma era multiracial, multisexual, portanto, multifacetada. Enfim, tudo muito veloz e tudo com menos (bem menos) preconceito – Obama já disse ser contrário à guerras e a permanência de tropas americanas no Iraque, ser a favor do aborto e da união civil entre pessoas do mesmo sexo. A própria campanha do candidato Obama foi demonstração de uso de novas armas de comunicação, como a internet e as suas redes, aquilo que os americanos chamam de network e que tem a ver com nossas antigas agendas, um ligando para o outro, como a interligar pontos, criando capilaridade e irrigando novas visões de novo mundo, novos conceitos.
A expectativa, portanto, é que marcas mais responsáveis, mais preocupadas com a questão social e ambiental se saíam melhor nesses novos tempos que se avizinham sobretudo por força da rede e das redes de pessoas preocupadas em salvar o planeta, sem abrirem mão do conforto e do viver bem. Os temas nos quais propaganda e publicidade se ancoram.
Nos círculos de esquerda, há quem defenda que quanto pior melhor, assim o capitalismo se desmanchará no ar. Bobagem e cantilena para boi dormir. O que pode e certamente vai acontecer é o consumo em novas bases. Falta de crédito é ruim a todos, especialmente a países e pessoas do andar de baixo, mais pobres. Talvez, e por força dos novos tempos, rapazes e moças de fino trato tenham que rever momentos de fartura e “a new deal de Obama” (o novo trato) seja o de menos e mais. Um convite para deixar de lado aquele móvel de mogno e se contentar com um de produtos reciclados para contemplar a árvore que daria origem ao móvel nas florestas e nos parques públicos. A propangada e a publicidade, por sua vez, continuarão a vender, como na canção de Gonzaguinha, a alegria de ser e ser o que é, ainda que em novas bases, mais maduras, menos gananciosas. Afinal, e qualquer criança sabe, o minguau se come pelas beiradas, no centro, onde há mais, corre-se sempre o risco de se queimar, a língua e o prazer.

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