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Bebendo de outra fonte

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CARLOS FRANCO

O antropólogo Roberto Da Matta é um ótimo papo, sempre fez sucesso nos bancos universitários. Eu que estudei na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, onde Da Matta ainda dá aula, posso garantir. Assim como a privilegiada platéia que lotou na noite de quarta-feira, dia 16, o auditório MPM, em São Paulo, onde Bia Aydar, a mulher que comanda a agência, recebeu seus convidados.

E os recebeu para que bebessem da fonte de Da Matta. Um homem que tem visão aguçada e grande senso de brasilidade. Mais: um livro de sucesso, sem o academicismo exagerado que caracteriza obras de sociólogos e antropólogos, que é “Carnaval, malandros e heróis”. Neste livro, ele procurava mostrar que ser brasileiro não é nada fácil, ao contrário, é difícil porque somos um povo ímpar, como são ímpares todos os povos que habitam o planeta, quer por suas diferenças, quer por suas similaridades.

E esse foi o ponto de partida para que Da Matta tomasse emprestado e em particular duas músicas, para mostrar as diferenças culturais, apenas do verbo ser, entre americanos – os Estados Unidos há muito tomaram emprestado a expressão continental América – e brasilieros. De um lado, a bela música Aquarela Brasileira, de Ary Barroso (1939), e de outro, “The House I Live In”, dos ativistas americanos e comunistas Robinson e Lewis Allen (pseudônimo de Abel Meeropol). Fez isso para que não houvessem dúvidas das referências tomadas emprestadas, da credibilidade delas. pois não se tratava de americano medíocre, como muitos, idolatrando os Estados Unidos, mas de dois ativistas de esquerda.

E lá estava exatamente o que ele precisava para mostrar e comprovar que o brasileiro adora o País, a sua natureza, mas é crítico exagerado do próprio brasileiro. Quando fala dos pares, coloca imediatamente a dúvida, os classifica em escala social, “tira a mãe preta do cerrado”, “põe o rei negro no congá”, mulato inzoneiro, morena sestrosa. E uma melancolia ao ver palmeiras, laranjeiras e aquele sabiá. Já a canção americana sugere, desde o princípio, a existência de um mapa, de uma bandeira, de um nome. E canta isso, se convenciona da importância dessa fronteira e dessa identididade na voz de Sinatra e na respota à pergunta: “What is Ameria to me?”.

Nem melhor, nem pior.

São visões diferentes que irão nos diferenciar. Mas o ponto que Da Matta quis trazer, e que os publicitários colocam na prática em seus discursos ainda que não o saibam, é que o brasileiro adora a natureza do País, os seus valores culturais, mas ao mesmo tempo é um crítico do Brasil e do brasileiro. Parece irremediavelmente ter vergonha de sua condição e abre suas fronteiras para o estrangeiro aqui deitar e rolar. Chegou a brincar que se tivesse nome estrangeiro certamente seus livros venderiam mais. Já o americano delimita a sua América, a sua bandeira, o seu mapa, e ali reina. Deixamos reinar o estrangeiro, o bajulamos e assumimos um ar de inferioridade na maioria das vezes ou de absoluta e vaidosa superioridade em alguns casos. E achamos bonito até quando estrangeiros comem uma feijoada, mas achamos horrorosa quando a vemos em botequins pé-sujos, onde aliás se come a melhor delas. E vamos combinar: uma coisa é aquele cozido delicioso de botequim, de beira de praia e outra, completamente outra, é aquele caro e insosso cozido de restaurantes como o Parigi, que o faz apenas para fisgar pela boca aquela memória de Brasil de alguns envergonhados de serem brasileiros e aquilo chamam de cozido.

O pior é que carregamos o DNA de uma elite feita na atropelada corte de D. João VI, que aqui há 200 anos aportou. E adoramos falar de sobrenomes e nomes como expressão do poder, um poder individual, não coletivo. Criticamos o ensino básico, mas ficamos orgulhosos de nós, essa mísera elite, o possuirmos. Mas isso, disse Da Matta, está mudando. E mudando para uma sociedade mais igual, o que não significa igual em renda, mas menos emplumada. E a publicidade está vendo isso. Está sendo forçada a conversar com o andar de baixo, com as classes C, D e E. Da Matta não sabe, mas os profissionais de propaganda estão cortando um dobrado – mais do que musical, real – para dar conta do recado, chegar ao coração desses consumidores novos, ávidos por tudo.

E é essa classe C, D e E, beneficiada pela estabilidade da moeda e programas sociais do governo Lula que irá fazer toda a diferença. E Da Matta garante que o brasileiro está perdendo a vergonha de ser brasileiro. Demorou…………Mas, como diz um velho ditado, antes tarde do que nunca. E beber da mesma fonte é o que promete a partir de agora a MPM. Gal Barradas, diretora da agência, reforçou o compromisso. E a alegria com que Bia Aydar, Marcelo Passos, Aaron Sutton, Daniel Chalfon, Edmur Celice receberam os convidados talvez seja a melhor prova desse compromisso. Os felizardos convidados de Bia Aydar só vão ter a ganhar.

Evoé, como cantava Elis, o Brasil descubra o Brasil e o brasileiro passe a amar mais o brasileiro. Mesmo que este seja um moleque izoneiro e uma mulata sestrosa.

Veja a produção de Disney para Aquarela do Brasil e Sinatra em comovente gravação de The House I Live In

 


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