PRECONCEITO, XENOFOBIA E DEMISSÃO NA EDITORA ABRIL

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No meio jornalístico brasileiro, os comentários no Facebook, sobretudo de grupos de jornalistas neste fim de semana, giram em torno da demissão do então editor de Arte 1 da Editora Abril, Gil Felisberto, na última quinta-feira, 12, após este ter criticado no início da semana um post preconceituoso e xenófobo de Cristina Partel, mulher do presidente da Editora Abril, Walter Longo (foto). O post de Cristina Partel, que se tornou viral, depois que amigos a ela adicionados e assustados com o teor de preconceito de suas declarações, sobretudo por ser mulher do presidente da maior editora de revistas do país, o compartilharam no Facebook, gerando inúmeros comentários, inclusive por parte do agora demitido Gil Felisberto. O teor do comentário, reproduzido em diversos sites de notícias, é, sem dúvida, preconceituoso e xenófobo:

 

REPRODUÇÃO DO FACEBOOK/FOTO: DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO

REPRODUÇÃO DO FACEBOOK/FOTO: DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO

E aqui o comentário de Gil, já com o resultado de ter se posicionado, como centena de internautas, agora milhares:

gil.abril

 

Elegante, após sua demissão, Gil enviou carta a Walter Longo, conhecido do público por sua participação, aliás sempre ponderada, no programa Aprendiz, levado ao ar pela TV Record. Longo ocupou durante décadas o posto de head (cabeça) de estratégia e inovação do Grupo Newcomm, comandado por Roberto Justus, e também a presidência da agência Grey Brasil. Autor de livros de gestão e de comunicação, sobretudo focados nas novas mídias e na relação de marcas com o público, Longo também foi criador de cursos de MBA do Ibmec e é considerado um brilhante palestrante.

A carta de Gil, como atesta Kiko Nogueira, diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo, fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas, todos veículos de comunicação da Editora Abril, em reportagem veiculada no portal onde hoje exerce sua profissão, merece e dever lida por todo o mercado de comunicação, até como alerta para seus dirigentes:

Conheci Gil Felisberto na Viagem e Turismo, revista que dirigi. Talentoso, bem humorado, competente, Gil estava trabalhando na revista Exame. Um dia depois de criticar, em seu Facebook, a postura racista da mulher do presidente de Abril, Cristina Partel, Gil foi demitido. (Kiko Nogueira) 

Eis a carta aberta de Gil, dirigida a Walter Longo. 

 

Caro Walter Longo,

Venho por meio desta carta aberta informar que hoje (12/05/2016) eu, Gilvan Felisberto da Silva Filho, nordestino e filho de nordestinos, fui demitido da editora Abril. Lá ocupava o cargo de editor de arte I do núcleo digital da revista Exame. Mas na verdade meu trabalho era de designer mesmo, pois fazia de tudo, layouts de matéria da revista impressa, dos especiais e suas versões para tablets e smartphones.

Sempre respeitei a postura política da empresa. Embora afirmem que esta seja imparcial, quem está lá dentro sabe de fato como as coisas funcionam.

Voltando ao assunto da minha demissão. Um dia após publicar um questionamento a um post no Facebook no qual sua esposa criticava a postura de um nordestino em relação à manutenção da presidenta Dilma Vana Rousseff em seu cargo, me pediram para chegar mais cedo. E assim fui informado da demissão. O pretexto foi reestruturação.

O que me causou extrema estranheza foi estarmos prestes a começar a maior edição de um título da Exame, o Maiores e Melhores, que tem cerca de 400 páginas (em média), com uma equipe extremamente reduzida. Fora isso, ainda tínhamos de cuidar da edição periódica da revista Exame. Estavam sendo procurados freelancers para ajudar nesta demanda.

Aceito qualquer que tenha sido o motivo real da minha demissão, honestamente. O que não posso aceitar é que uma pessoa, esposa de um presidente de uma empresa como a editora Abril, use sua rede social para denegrir e/ou ofender um povo que sempre lutou pelo país.

Uma pessoa que casa com um presidente de uma empresa como a editora Abril não pode ignorar, nem deve (até porque ela deve ter estudado história na escola), que o Nordeste carregou o Brasil por séculos nas costas. Mas tudo bem, digamos que ninguém seja obrigado a saber disso. Mesmo assim ela, volto a repetir, esposa do presidente de uma empresa como a editora Abril, tem que saber que o povo nordestino é quem também garante o salário do seu marido.

Até me sinto um pouco envergonhado por eu — um mero designer, que não tem nada no meu nome, nenhum imóvel, carro — precisar dizer que cada ser humano que existe no nosso planeta tem o direito de ser respeitado, independentemente de raça, credo, cor, origem e por aí vai.

Pois, meu caro Longo, deixo aqui registrada a minha indignação. Embora não faça mais parte do quadro de funcionários da editora Abril, quero cobrar (por mim e pelo meu povo) qual a postura da empresa em relação ao comentário de sua mulher. Quero também saber até que ponto isso se reflete na política da Abril, levando-se em consideração que existem muitos nordestinos que ainda trabalham nesta empresa.

O que o senhor falaria para eles agora, depois de tudo isso?

Muito obrigado e sucesso!

Gilvan Felisberto da Silva Filho

 

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