O COTIDIANO SEGUNDO FREDERICO DALTON

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O que destruiu o casamento de Laércio e Vera foram as panelas, ou melhor, o barulho que elas faziam quando caíam no chão da cozinha. E quanto mais Vera tentava evitar, mas ela deixava as panelas caírem. Laércio, cheio de manias, se sentia provocado. Vera, cheia de dedos, se sentia injustiçada. E aos poucos tudo o que um dia foi gostoso começou a perder o sabor.

 

No dia 28 de setembro de 2015, às 16h15min, num apartamento do Leblon, a advogada aposentada Carmem, de 73 anos, ofereceu café e biscoitos de nata a seu professor particular de francês. Sentaram-se à mesinha da cozinha e conversaram. Este é um dos bilhões e bilhões de fatos corriqueiros que acontecem o tempo todo ao redor do planeta e que constroem aquilo que se chama humanidade. A absoluta maioria deles não é registrada e por isso cai em completo esquecimento. Felizmente, o que acabei de descrever aqui estará, a partir de agora, preservado por toda a eternidade.

 

Ele poderia pensar que tinha chegado ao fim da linha. Mas como sua imaginação é altamente “estetizada”, sempre encontra forças para persistir. Senta-se num banquinho na cozinha suja e mal iluminada como se posasse para Nan Goldin. Sua cama por fazer é uma “instalação” de Tracy Emin. Olha-se no espelho como se fosse um personagem de Bergman e às vezes chora como se o próprio Bergman o filmasse. Imagina-se sempre visto pelo olhar de um grande artista. E assim sua tristeza torna-se pelo menos interessante.

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