2016: O ANO DE MAIS UM GOLPE NO BRASIL.

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O ano de 2016 entra para a história como o de mais um golpe na democracia brasileira, desta vez por meio da cassação dos votos diretos de mais de 54 milhões de brasileiros que, em 2014, elegeram Dilma Rousseff e um projeto de governo comprometido com as conquistas sociais e econômicas de todos; brasileiros e brasileiras. As conquistas de um país que, em pouco mais de uma década, saiu do horrendo mapa da fome no mundo e passou, por conta dessas políticas inclusivas e de uma postura firme no cenário internacional dos governos Lula-Dilma, de ator coadjuvante a protagonista, com a conquista de emprego e renda e um papel mais destacado da indústria nacional e no cenário mundial.

O golpe político parlamentar de 2016, no entanto, foi consolidado com apoio do Congresso Nacional e o respaldo de uma grande e plutocrática mídia, sempre a serviço das mais sórdidas elites brasileiras, que acabou por estimular o surgimento de uma Nação de “midiotas”. O golpe também contou com o apoio de setores do Poder Judiciário que preferiram rasgar leis e a Constituição Cidadã de 1988 a manter vivo o Estado Democrático de Direito.

No momento crucial em que esse movimento golpista caminhava para o seu desfecho, intelectuais se uniram buscando rasgar o véu da mediocridade e ignorância e lançaram, em tempo recorde, um importante livro como legado para a História.

A obra Historiadores pela democracia: o golpe de 2016 e a força do passado é um exercício de história imediata em função de uma denúncia grave: o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff que colocou em risco a democracia brasileira e cujas consequências podem ser percebidas hoje, com a chegada ao poder de Michel Temer em aliança com os derrotados nas urnas de 2014, a bordo de um projeto de governo e de uma coligação que nunca teria os respaldo das urnas e que, visando construir ironicamente uma “Ponte para o Futuro”, empurra, dia a dia, o Brasil e os brasileiros para o abismo.

Reunindo textos e depoimentos de historiadores com carreira consolidada e jovens profissionais de história, a obra apresenta um diagnóstico historiográfico sobre este que foi um conturbado momento político do Brasil.

O movimento que dá nome à obra surgiu em abril de 2016 com o objetivo imediato de colher depoimentos, em vídeo, de historiadores contrários ao processo em curso. A consolidação dos Historiadores pela democracia, por sua vez, se deu a partir da iniciativa de encontrar a presidenta (Dilma Rousseff ainda no comando da Nação) no Palácio da Alvorada.

Horas antes desse encontro, que se realizou em 7 de junho, o grupo se reuniu na UnB (Universidade de Brasília) para, nas palavras das organizadoras, “discutir nossas angústias comuns com a conjuntura política e organizar alguma forma de resistência.” Foi nesse momento que surgiu a ideia do livro: uma seleção de textos que permitam compor uma crônica compreensiva dos acontecimentos, do ponto de vista histórico.

Dentre os autores de Historiadores pela democracia: o golpe de 2016 e a força do passado estão Sidney Chaloub, Luiz Felipe de Alencastro, James Green, Luiz Carlos Villalta, Kátia Gerab Baggio, Martha Abreu, Silvia Hunold Lara e Suzette Bloch, organizados pelas historiadoras Hebe Mattos, Tânia Bessone e Beatriz G. Mamigonian.

O prefácio dessa importante obra, que pode ser adquirida aqui, é um indicativo claro de como o ano de 2016 entrará para a HISTÓRIA. O ano do golpe no Brasil e nos brasileiros:

 

O livro Historiadores pela democracia: o golpe de 2016 e a força do passado é um exercício de história imediata construído a partir da seleção e organização em ordem cronológica, de textos, entrevistas e depoimentos de historiadores e cientistas sociais produzidos, em sua maior parte, no calor do processo da atual crise política brasileira.

Os textos nos fazem reviver a dramaticidade e as polêmicas em torno da condução coercitiva do ex-presidente Lula, da divulgação dos grampos da presidenta Dilma e do espetáculo midiático com apelo a manifestações das ruas. Também contrariam as tentativas de silenciar a resistência contra o golpe e denunciam o crescimento de expressões de ódio, refletidos no muro em Brasília e no espetáculo grotesco da sessão de 17 de abril da Câmara dos Deputados. Expressam ainda a tristeza e a sensação de volta ao passado do 13 de maio de 2016.

Os olhares sobre a crise aqui registrados são, antes de mais nada, plurais, mas guardam um denominador comum: a convicção, construída a partir de um raciocínio historiográfico, de que nossa democracia corre risco.

O movimento Historiadores Pela Democracia surgiu em abril de 2016 com o objetivo imediato de colher depoimentos em vídeo, cresceu como um grupo de discussões no Facebook (hoje com mais de 8 mil membros) e cristalizou-se com a iniciativa de visitar a presidenta Dilma no Palácio do Alvorada, encontro que se deu no dia 7 de junho e para o qual foi elaborado um vídeo-manifesto.

Reunindo historiadores com carreira consolidada nacional e internacionalmente e jovens profissionais de história, o movimento não pretende representar todos os profissionais da área, divididos politicamente como expressão que são da sociedade brasileira.

Uma parcela significativa de nós, entretanto, enquanto profissionais de história, sentimo-nos na obrigação de denunciar o golpe em curso, tomando por base nossa experiência de pesquisa e os problemas que formulamos para interrogar o passado.

Cabe lembrar que a diretoria da Associação Nacional de História (ANPUH), com apoio de seus membros, tem se manifestado frequentemente contra atos que comprometem o exercício de uma democracia plena no Brasil e, como afirmou sua representante no encontro do Alvorada, continuará fiel ao compromisso de denunciar e repudiar qualquer ameaça aos direitos garantidos pela Constituição de 1988, sobretudo os que foram adquiridos recentemente pelas minorias.

Foi em encontro na UnB (Universidade de Brasília), onde nos reunimos antes da cerimônia no Alvorada no dia 7 de junho para discutir nossas angústias comuns com a conjuntura política e organizar alguma forma de resistência, que a pauta da defesa dos direitos inscritos na Constituição de 1988 se impôs como principal bandeira prática de luta. Os ataques da reação antidemocrática aos estudos de gênero e às novas noções de família, às políticas de ação afirmativa, à liberdade de ensino, bem como as tentativas de redefinir direitos indígenas e a noção de trabalho escravo contemporâneo, entre outros aspectos da agenda conservadora infelizmente têm lastro e também repercussões globais.

No encontro da UnB decidimos reunir em livro alguns textos já produzidos por historiadores profissionais sobre o processo político em curso, bem como apresentados em encontros e debates em torno do lema “nenhum direito a menos”. Para tanto, selecionamos textos que permitiam compor uma crônica compreensiva dos acontecimentos, do ponto de vista histórico.

É preciso esclarecer, em tempos de louvor a pensamentos que se querem únicos, que a operação historiográfica que informa o discurso do historiador não supõe a construção de qualquer versão unívoca da história. Pelo contrário, a capacidade de formulação de novos problemas e interpretações são marcas metodológicas de nossa formação profissional. Não falamos em nome de todos os historiadores, mas falamos em sintonia com muitos deles, tomando por base nossos problemas de pesquisa específicos para interpretar os acontecimentos recentes e nos posicionarmos no atual momento político.

Uma discussão do campo de possibilidades em cada contexto específico informa muitos dos textos. Se há algo que o conjunto do livro sugere é uma surpreendente e, na maioria das vezes, indesejada capacidade de previsão. “Os riscos do vice-presidencialismo”, de Luiz Felipe de Alencastro, artigo publicado em 2009, que abre a primeira parte do livro, sobre os antecedentes do golpe, é apenas o exemplo mais expressivo dessa característica. Os textos dessa parte reúnem também declarações explícitas de voto às vésperas do segundo turno das eleições de 2014, momento em que estava explícito o contraste entre diferentes projetos de nação. Um aspecto central do ataque à democracia em curso é justamente a cassação dos mais de 54 milhões de votos que legitimaram o mandato presidencial de Dilma Rousseff e a implantação do projeto derrotado nas urnas.

Na segunda parte da obra, optamos por textos que compõem uma crônica viva e compreensiva da teia factual que resultou no momento dramático que ainda estamos vivendo. Nela, a formulação de que há um golpe parlamentar, jurídico e midiático em curso ganha contornos concretos, com atores e ação específicos.

A campanha pelo impeachment liderada por adversários políticos da presidenta eleita e por representantes das mídias que, retomando sua tradição golpista, instigaram a população contra o governo, bem como a postura dos parlamentares durante a votação e a comemoração da abertura do processo deixaram evidentes a permanência de uma cultura política antidemocrática, afeita a manobras, negociações e acordos espúrios que a Nova República não foi capaz de eliminar.

Os textos produzidos no contexto da articulação do movimento Historiadores Pela Democracia compõem a terceira parte do livro.

Uma quarta e última parte reúne três abordagens interpretativas sobre os sentidos do golpe escritas às vésperas da votação do processo de impeachment no Senado Federal.

No conjunto, o livro reúne historiadores de diferentes gerações e textos originalmente publicados nas mais diversas mídias: jornais de grande circulação no Brasil e fora dele, sites de notícias, revistas virtuais, blogs e páginas pessoais no Facebook. Ele reflete os efeitos positivos de democratização do acesso à informação possibilitados pela internet no Brasil, a despeito dos novos problemas que as bolhas de opinião no mundo virtual podem ensejar. Representa, sobretudo, um esforço por quebrar essas barreiras invisíveis, potencialmente geradoras de intolerância e ódio. Convidamos os leitores a lerem o livro, que revela bem mais que a soma de suas partes e também a conferirem os vídeos e demais textos analíticos disponíveis no nosso arquivo virtual no Tumblr.

Por fim, agradecemos à Alameda Editorial que decidiu bancar o projeto e produzir o livro em tempo recorde.

 

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